terça-feira, 21 de maio de 2013

Supremo dos EUA decidirá se reunião oficial pode ter oração

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por João Ozorio de Melo
para Consultor Jurídico

Muitos americanos discordam das
reuniões que começam com orações
Apesar de entendimentos de que Estados Unidos estão entre os primeiros países do mundo a adotar a doutrina política e jurídica da separação Igreja-Estado, essa é uma questão que não está bem resolvida nos meios políticos do país. E, repetidamente, é interpretada de formas diversas nos tribunais. Por isso, a Suprema Corte dos EUA aceitou entrar nesse assunto. A corte vai decidir, especificamente, se reuniões governamentais podem se iniciar com orações — uma prática comum há mais de dois séculos, com a qual muitos americanos não concordam, porque defendem o secularismo do Estado, de acordo com o USA Today, The Washington Post e outras publicações.

A Constituição dos EUA não menciona textualmente a separação entre Igreja e Estado. A Primeira Emenda à Constituição estabelece apenas: "O Congresso não fará nenhuma lei com respeito a um estabelecimento de religião ou proibindo seu livre exercício". Esse texto constitucional foi importado de uma carta de Thomas Jefferson, em 1802. Ao final dessa sentença, Thomas Jefferson escreveu que era preciso construir "um muro de separação entre a Igreja e o Estado". A sentença foi citada pela primeira, pela Suprema Corte dos EUA, em 1878. No entanto, a ideia só se fortaleceu em 1947, através de uma decisão judicial.

Não totalmente, porém. Vez ou outra, os tribunais discutem em ou outro caso, que pode envolver questões óbvias, como a colocação de uma cruz em um morro de uma cidade ou no saguão de algum tribunal e orações nas escolas e em eventos públicos. Outras não tão óbvias, como a proibição de ensinar nas escolas a teoria da evolução, que contraria os ensinamentos bíblicos.

No caso específico, colocado perante a Suprema Corte, duas cidadãs de Greece (Grécia), no estado de Nova York, processaram o conselho municipal por, insistentemente, iniciar suas reuniões com orações cristãs, conduzidas por clérigos cristãos convidados. As demandantes consideram a prática ofensiva para os não cristãos e alegam que ela viola a Constituição dos EUA. Um tribunal de recursos do Estado concordou com esses argumentos no ano passado.

O caso foi levado à Suprema Corte pela Alliance Defending Freedom (Aliança em Defesa da Liberdade, em tradução livre), um grupo cristão sem fins lucrativos do Arizona, com menções de apoio de 49 deputados federais, a maioria republicana, e 18 procuradores-gerais de Estados. "Um grupo de pessoas não pode extinguir uma tradição da nação, simplesmente porque ouvem alguma coisa da qual não gostam [as orações]", declarou aos jornais o advogado da entidade Brett Harvey.

As cidadãs de Greece Susan Galloway e Linda Stephens são representadas, por sua vez, pelo grupo Americans United for Separation of Church and State (Americanos Unidos pela Separação entre Igreja e Estado, em tradução livre), de Washington D.C. "Um conselho municipal não é uma igreja e não deve agir como se fosse uma", disse o diretor-executivo da entidade, o reverendo Barry Lynn. "O governo não pode servir a todos na comunidade, quando endossa uma fé em detrimento de outras. Isso manda uma mensagem clara de que pessoas que pertencem a outra religião ou a nenhuma são cidadãos de segunda classe", ele declarou.

Um ponto em que as duas partes concordam se relaciona à esperança de que a Suprema Corte tome uma decisão bem mais ampla do que o caso do conselho municipal de Greece sugere. Há muitas diferenças nas opiniões dos tribunais de instâncias inferiores, que devem ser resolvidas. Além disso, a questão tem muitas implicações, que precisam ser esclarecidas, no dia a dia das escolas e em eventos públicos.






Estado brasileiro ainda não é totalmente laico
maio de 2013

Religião no Estado laico

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Sob pressão do MP, vereador reconhece laicidade do Estado

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João Manoel dos Santos
O presidente da Câmara Municipal de
Piracicaba é seguidor da Igreja Batista
No dia 29 de outubro de 2012, o evangélico João Manoel dos Santos (PTB), 70, na foto, presidente da Câmara Municipal de Piracicaba (SP), tomou uma atitude como se o regime de governo do Brasil fosse teocrático. Ele expulsou de uma sessão o servidor público Regis Montero (na foto abaixo), 35, por ter se recusado a ficar de pé durante a leitura de um trecho da Bíblia.

Agora, cinco meses depois, sob pressão do MP (Ministério Público) e da repercussão de sua atitude, Santos teve de reconhecer que o Brasil é um Estado laico, o que significa que nenhuma instância de governo pode se envolver com qualquer atividade religiosa.

Na terça-feira (14), Santos admitiu pelo site da Câmara o que já deveria saber em outubro: que nenhum cidadão é obrigado a ficar em pé durante a leitura bíblica.

Santos, que está no sexto mandato, tem contado com os votos dos evangélicos. Seguidor da Igreja Batista, ele também mantém ligação com os metodistas. Foi funcionário da Universidade Metodista de Piracicaba.

Montero foi tirado à força
da sessão da Câmara
Em outubro, ele chamou PMs e seguranças da Câmara para expulsar Montero da sessão, conforme foi registrado por imagens de uma emissora [ver abaixo].

Na época, ele afirmou que estava agindo de acordo com o regimento interno da Câmara, o qual não faz nenhuma menção como o cidadão deve se comportar diante da leitura bíblica. A rigor, a leitura da Bíblia — uma prática que ocorre em outras casas legislativas — também é inconstitucional.

Diante do recuo de Santos, o Ministério Público decidiu arquivar o inquérito civil público que tinha aberto para investigar a expulsão.

Isso não impede, contudo, que Montero peça reabertura do caso, retomando as investigações no ponto em que pararam.

Evangélico chamou polícia contra
 cidadão que 'desrespeitou' Bíblia

video






Fontes: G1 e site da Câmara Municipal de Piracicaba.

Espírita apanha de evangélicos por reclamar de barulho de culto
fevereiro de 2013

domingo, 19 de maio de 2013

Movimento de apostasia defende laicidade do Estado argentino

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do Opera Mundi

Com mais de 21 mil membros na rede social Facebook, o movimento Apostasia Coletiva organizou eventos nas principais cidades do país, entre 24 de março (data do aniversário do último golpe militar) e a semana santa, para que grupos de pessoas que querem anular seu batismo entreguem coletivamente o pedido às dioceses.

“É uma expressão coletiva de desacordo, de protesto”, aponta Andrés Miñones, do movimento Apostasia Coletiva, em entrevista a Opera Mundi. “O trâmite é pessoal, mas fazê-lo em conjunto ajuda a compartilhar as dificuldades e a aprender com a experiência de outras pessoas que já tramitaram a anulação de seu vínculo com a Igreja.”

Andrés acredita que, com Francisco no Vaticano, a Igreja ganhou legitimidade para avançar sobre temas como aborto ou educação sexual para adolescentes em escolas públicas. “No entanto, as necessidades do país, como os direitos das mulheres, não devem mudar porque o papa é argentino”, acredita. “Queremos a possibilidade de um Estado laico, com maior separação da Igreja.”

Segundo dados do Questionário sobre Crenças e Atitudes Religiosas na Argentina, realizado pelo Conicet (equivalente ao CNPq) em 2008, 76,5% dos entrevistados se reconhecem como católicos. Ateus, agnósticos e pessoas que afirmam não ter religião aparecem em segundo lugar (11,3% dos entrevistados), seguidos por evangélicos, que somam 9% do total.

Para Fernando Lozada, um dos fundadores da Associação Civil Ateus de Mar del Plata, a apostasia é uma forma de retirar apoio à Igreja, que usa o número de fiéis na Argentina como justificativa para que o Estado sustente a instituição no país. “A Igreja legitima seu discurso com o argumento de que estão unidos ao país por uma tradição, que são parte dos processos de construção da nação. É falso. Muitas revoluções latino-americanas foram condenadas pela Igreja”, lembra. “E também se legitimam pela quantidade de fiéis que contabilizam em seus registros, para afirmar que o país é majoritariamente católico.”

O artigo 2º da Constituição argentina dispõe sobre o dever do governo federal de “sustentar o culto católico apostólico romano.” As leis 21.540 e 21.950, ambas decretadas durante a última ditadura militar e vigentes até hoje, determinam que o governo deve pagar os salários e as aposentadorias de integrantes do clero. A remuneração mais alta, de arcebispos e bispos, é equivalente a 80% do salário de um juiz federal de primeira instância, enquanto os auxiliares recebem o equivalente a 70%. do mesmo. A educação confessional católica também é subsidiada pelo governo argentino.

Em um cenário onde a separação entre Igreja e Estado não é muito clara, a apostasia coletiva passou a ser um instrumento de ativismo pelo laicismo. “A ideia de apostatar em público e de forma coletiva é inspirar outras pessoas, romper com o medo, com a sensação de que a Igreja é muito poderosa e não pode ser enfrentada. É um movimento político, uma manifestação contra seus dogmas e sua participação nefasta na história”, explica Lozada. “Rompemos o vínculo com a Igreja porque fomos filiados a ela quando não tínhamos possibilidade de escolher. Filiar bebês a partidos políticos seria uma loucura, mas filiá-los à Igreja Católica, que também é política, parece ter mais aceitação.”

O músico Fabian Lap, que já preparou os documentos e planeja apostatar em breve, conta que há cinco anos passou da indiferença à vontade de anular seu batismo. Para ele, um papa argentino pode influenciar alguns debates sobre mudanças na legislação, mas não quer que isso seja feito em seu nome. “Não é um capricho, é uma decisão íntima. Não quero que me contem na base de apoio de uma instituição que se opõe aos direitos civis de todos que não nos sentimos representados por ela.”

Ele conta que entrou em contato com o movimento Apostasia Coletiva por meio de redes sociais e que as informações sobre os trâmites burocráticos que o coletivo disponibiliza ajudam a quem deseja apostatar. “É uma forma de gerar massa crítica para pressionar a laicização do Estado. Por mais delirante e utópico que seja, contem comigo”, afirma.

Paola Raffetta sofreu na pele a interferência da Igreja Católica na esfera civil argentina. Ex-professora da Universidad del Salvador, instituição de ensino superior fundada pela Companhia de Jesus, ordem a que o papa Francisco pertence, ela foi demitida em 2009, 24 horas depois de aparecer nos meios de comunicação como uma das pessoas que participavam da primeira apostasia coletiva de Buenos Aires.

Atualmente Paola briga na Justiça para receber indenização pela demissão e o processo está na fase de apelação, segundo ela porque o valor fixado em primeira instância era muito inferior ao que corresponde em seu caso. Militante da Apostasia Coletiva, ela acredita que o maior desafio é fazer com que a Igreja se submeta à legislação civil na Argentina.

“Nós não queremos apenas que anulem nosso batismo, exigimos que nossos nomes sejam apagados dos registros da Igreja, em respeito à lei de Proteção de Dados Pessoais”, reclama Paola. Muitos apóstatas se queixam de que, mesmo após concluir o trâmite, seus nomes figuram em listas de paróquias com uma ressalva que informa que pediram a anulação de seu vínculo com a instituição. “São listas negras”, denuncia.

Em uma resolução de outubro de 2010, a Direção Nacional de Proteção a Dados Pessoais considerou, baseada em uma interpretação da Corte Suprema espanhola, que as listas de apóstatas mantidas pela Igreja Católica na Argentina não configuram registros porque não estão sistematizadas, são dados espalhados pelas paróquias. Pela lei, partidos políticos, sindicatos e outras instituições só podem ter listas de seus membros, mas não está permitido que tenham o registro de quem não está vinculado a eles.

Paola também conta que existe uma dificuldade muito grande em fazer com que a Igreja informe quais dados sobre as apostasias estão em seu poder. “A instituição não dá a menor importância à lei civil, exceto para fazer oposição a temas pontuais, como o aborto ou o casamento entre pessoas do mesmo sexo.”

Como são trâmites descentralizados, que dependem de cada diocese, o movimento Apostasia Coletiva não tem números exatos sobre a quantidade de pessoas que, desde 2009, decidiram romper o vínculo com o catolicismo na Argentina. No entanto, Fernando Lozada afirma que a eleição de Francisco teve um impacto importante na procura por apostasias em Mar del Plata.

“Desde que Bergoglio chegou ao papado, organizamos apostasias permanentes, todas as quintas-feiras às 20h”, informa. A última, realizada depois de que o ex-arcebispo de Buenos Aires foi eleito papa, reuniu 240 pessoas, segundo os números da organização. Na mesma semana, houve eventos similares nas cidades de Buenos Aires e La Plata.






Coligação laica argentina pede o fim dos privilégios da Igreja
agosto de 2012

Religião no Estado laico

terça-feira, 14 de maio de 2013

Ateus americanos se mobilizam contra isenção de igrejas

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Fundação quer relatório sobre destino
do dinheiro arrecadado pelas igrejas
 
A Fundação para a Liberdade de Religião, que congrega 19 mil ateus e livres pensadores dos Estados Unidos, está pressionando o IRS (a Receita Federal de lá) a acabar com a isenção fiscal concedida às igrejas, começando por aquelas que fazem política partidária em cultos e missas.

No começo do ano, a fundação encaminhou à Justiça uma ação para que a Receita extinga o “tratamento preferencial” fiscal dado às igrejas. Também pediu que a Receita passe a emitir “relatórios anuais detalhados” dos gastos e receitas das igrejas, a exemplo do que já ocorre com as organizações não governamentais.

A fundação acredita que existam igrejas empregando parte do dinheiro do dízimo em atividades que ferem a laicidade do Estado americano.

Há um precedente confirmado: em 2008, a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, a Igreja dos Mórmons, doou o equivalente a R$ 44 milhões para a campanha contra o casamento gay no plebiscito realizado no Estado da Califórnia.

Não se trata de empenho isolado da fundação em prol do Estado laico porque há outras entidades representativas que passaram a defender o fim do privilégio fiscal a cerca de cem igrejas — evangélicas e católicas — que usam seus altares como palanques políticos (o que tem ocorrido também no Brasil cada vez com mais frequência).

A reforma introduzida em 1954 no código tributário dos Estados Unidos determina que entidades isentas de impostos não podem ter envolvimento com política partidária. Como não há fiscalização, o veto ainda não “pegou”.

Desde aquele ano para cá, apena uma igreja por década perdeu a isenção e ou multada por se intrometer na política. A maioria dos pastores transgressores apenas é advertida de que não pode misturar religião com política.

Algumas igrejas criadas por pastores com ambições políticas se registram como ONGs, deixando, assim, de ter o privilégio fiscal, mas, em contrapartida, podem fazer proselitismo político sem correrem qualquer risco.





Igrejas obtêm R$ 20,6 bi por ano com dízimo, venda e aplicação
janeiro de 2013

Isenções fiscais da Igreja

domingo, 12 de maio de 2013

Visita do papa ao Brasil custará R$ 118 mi aos cofres públicos

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Recursos dariam para construir
mais de 2.000 casas populares 
A visita do papa Francisco ao Brasil de 23 a 28 de julho, durante a 26ª Jornada Mundial da Juventude, custará aos cofres dos governos federal, estadual e municipal do Rio pelo menos R$ 118 milhões.

O governo federal terá o gasto de R$ 62 milhões — desse total, R$ 30 milhões serão com a segurança do papa. Só com o transporte por um avião Hércules da Força Aérea de dois papamóveis do Rio para o Santuário de Aparecida (SP) custará cerca de R$ 1 milhão.

Dos cofres do Estado e da prefeitura do Rio sairá aproximadamente o total de R$ 56 milhões, segundo o “Globo”.

Não há informação sobre quanto a Igreja Católica vai gastar com a visita do papa e a realização da Jornada.

Com a inscrição dos participantes nesse evento, de acordo com estimativa do governo, a Igreja arrecadará R$ 140 milhões, se obtiver 450 mil adesões.

Pelas projeções da própria Igreja, contudo, o número de participantes será no mínimo de 800 mil, o que dará uma arrecadação de cerca de R$ 300 milhões. Entre outros gastos, a Igreja arcará com a hospedagem dos peregrinos.

Além de milhares de PMs, a visita do papa mobilizará 9 mil homens das Forças Armadas e 1.700 da Força Nacional. Em Guaratiba (Rio), onde haverá a vigília missa campal, a Força Nacional empregará 1.500 homens, que se somarão aos 2 mil seguranças privados contratos pela Igreja.

Os R$ 118 milhões dariam para construir 2.360 casas populares, ao custo de R$ 50.000 por unidade.





Fonte: Globo.

Reino Unido financiou visita do papa com fundo dos pobres
fevereiro de 2011

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Religião não deve interferir no debate público, diz professora

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Título original: Fé e política, uma relação conturbada

por Chico Marés
para Gazeta do Povo

Crença religiosa é do interesse individual e,
por isso, não deve imobilizar a ordem pública 
O Brasil é um Estado laico. Assim como a maioria dos países do mundo, não tem uma religião oficial e garante constitucionalmente a liberdade de credo para todos os seus cidadãos. Entretanto, desde 1891 — quando o catolicismo deixou de ser a religião oficial do país — as instituições religiosas participam do debate público, em certos casos fundamentando inúmeras posições com base na fé e na doutrina. Com a bancada evangélica nos holofotes, o tema voltou a ganhar relevância no espaço público.

Na opinião da professora de Direito Constitucional da UFPR Vera Karam de Chueiri (na foto abaixo), o debate público não comporta o pensamento religioso, pois questões de convicção pessoal não podem servir como baliza para decisões que envolvem toda uma sociedade — que inclui também ateus, agnósticos e pessoas das mais diversas religiões. “O argumento religioso não pode entrar no debate público. As razões sempre devem ser de ordem pública, e não individual”, resume.

Já para o doutor em Direito pela Universidade Mackenzie Ives Gandra Martins, a laicidade do Estado não significa a ausência da religião no espaço público. “O Estado laico não é um estado ateu. O Estado laico é apenas um Estado em que as decisões políticas não dependem de qualquer igreja, mas onde quem tem religião tem todo o direito de exercer sua cidadania”, afirma.

Gandra defende que, para quem tem uma religião, é impossível dissociar convicções religiosas de convicções não religiosas.

Portanto, o argumento calcado na fé teria tanta legitimidade quanto um argumento baseado em uma ideologia ou visão de mundo leiga. “Os que acreditam em Deus defendem seus pontos de vista, certamente influenciados por seus valores, e os que não acreditam são influenciados por suas convicções pessoais. O debate não pode impedir que aqueles que tenham religião opinem sobre os interesses da cidadania”, afirma.

A discussão sobre o Estado laico ganhou força nos últimos anos, uma vez que diversos temas na agenda pública brasileira têm colocado em lados opostos igrejas – especialmente as evangélicas – e segmentos sociais leigos. Um exemplo recente é a PEC que torna instituições religiosas aptas para contestar a constitucionalidade de leis no Supremo Tribunal Federal. A eleição do deputado e pastor Marco Feliciano (PSC-SP) para a presidência da Comissão de direitos Humanos da Câmara é outro fato que levantou a questão. A legislação referente à homossexualidade e ao aborto também são pontos de crise entre os segmentos.

Seguem alguns exemplos, atuais e antigos, dessa relação, às vezes conturbada, entre igrejas e o Estado laico:

Direitos LGBT

A questão LGBT é, atualmente, um dos principais pontos de atrito entre os que defendem a laicidade do Estado e a religião – as polêmicas envolvendo o deputado federal Marco Feliciano (PSC-SP) são apenas a ponta do iceberg. A união entre pessoas do mesmo sexo, em âmbito civil, e a possibilidade de esses casais adotarem crianças, são criticadas de forma veemente por instituições religiosas, com o argumento de que esse seria um risco para a instituição familiar – esse debate ocorre também em democracias mais antigas e tradicionais, como a França. O Projeto de Lei 122, que torna a homofobia um crime de ódio (assim como já é para o racismo e a xenofobia), também recebe a oposição de parlamentares evangélicos. Para eles, nesse caso, o Estado passa a interferir na liberdade de culto. Na última semana, um projeto que permite a “cura” de homossexuais, apresentado por um deputado evangélico, foi colocado na pauta da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara. A Organização Mundial da Saúde (OMS) não considera a homossexualidade uma doença desde 1993. É um outro exemplo da moral religiosa interferindo em uma questão pública.

Símbolos religiosos

Apesar de o Estado ser laico, é comum ver crucifixos e outros símbolos religiosos em vários órgãos públicos — e, apesar de muitas vezes esses símbolos passarem despercebidos, eles não deixam de causar polêmica. No ano passado, o Ministério Público Federal pediu a retirada da frase “Deus seja louvado” de novas cédulas de real, alegando que ela feria a separação entre igreja e Estado. O pedido gerou reações exaltadas de ambos os lados. A ironia é que a própria Constituição brasileira evoca a proteção de Deus, em seu preâmbulo. Na França, a polêmica foi ainda maior — especialmente com os muçulmanos. Em 2004, uma lei proibiu o uso de símbolos religiosos em escolas, mesmo quando usados pelos próprios alunos.

Divórcio

Essa é uma polêmica já superada, mas que, por décadas, acirrou os ânimos dos brasileiros. Pela ótica laica, a institucionalização do divórcio era apenas a confirmação legal de algo que já existia na sociedade civil — casais já se separavam e encontravam novos parceiros, independentemente da lei, assim como há muito tempo casais gays vivem juntos. Entretanto, esse ato contrariava — e até hoje contraria — a doutrina da Igreja Católica, que se opôs radicalmente ao projeto. As tentativas de se legalizar o divórcio vêm do século 19, mas apenas em 1977 o divórcio foi instituído, por uma margem estreita de votos. Hoje, é visto com naturalidade pela maioria da população brasileira.

PEC das Igrejas

Vera Karam de Chueiri
Karam diz que convicções pessoais não
podem ser parâmetros para sociedade
A PEC 99/10, de autoria do deputado evangélico João Campos (PSDB-GO), inclui entidades religiosas de âmbito nacional entre os entes aptos a contestar a constitucionalidade de leis no STF. Hoje, as organizações de classes e federações sindicais já podem fazer isso assim — como representantes dos três poderes, em nível estadual e federal. Para muitos, isso significa uma interferência direta da religião na vida pública, incompatível com a existência do Estado laico. Já outros veem a PEC como uma ampliação da cidadania, permitindo mais entidades representativas na sociedade de participar da democracia. De qualquer forma, essa interferência já ocorria de forma indireta. Por exemplo: quando era procurador-geral da República, Cláudio Fonteles, católico, questionou a constitucionalidade das pesquisas com células-tronco embrionárias após pedido da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

Aborto

O debate sobre a descriminalização do aborto é encarado com lógicas diferentes entre seus defensores e críticos. Pela lógica da maioria das igrejas, trata-se de uma questão metafísica: a partir de qual momento começa a vida? Pela doutrina cristã, a vida começa a partir da fecundação – logo, o aborto pode ser considerado o equivalente a um assassinato. A ciência não estabelece um ponto exato, mas é comum considerar a formação do tecido nervoso como um ponto inicial. Independentemente disso, quem defende a descriminalização argumenta que a proibição não resulta em uma redução do caso de abortos e causa a morte de milhares de mulheres em todo o país.





Estado brasileiro ainda não é totalmente laico
maio de 2013

Religião no Estado laico

Em Bangladesch, muçulmanos pedem pena de morte para ateus

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Ativistas gritavam palavras de ordem
como 'ateus devem ser enforcados' 
Cerca de 200 mil islâmicos fizeram no sábado (4) uma manifestação em Daca, capital de Bangladesh, pedindo a aprovação de uma lei da blasfêmia que condene à morte ateus e críticos do profeta Maomé.

O protesto foi convocado pelo grupo fundamentalista Hefatjat-e-Islam. Houve confrontos. Os ativistas jogaram pedras em policiais, que reagiram com gás lacrimogênio e disparo de balas de borracha.

Os manifestantes usaram explosivos caseiros para incendiar cerca de 30 veículos. Três pessoas morreram e pelo menos 45 ficaram feridas, de acordo com informações oficiais.

Os ativistas percorreram pelo menos seis grandes avenidas, fechando parte do comércio. Eles gritavam palavras de ordem como “Um ponto, uma exigência: ateus devem ser enforcados!” e “Deus é o maior!”.

Os seguidores do Hefatjat-e-Islam têm estado exaltados por causa das postagens anônimas de ateus na internet.

Neste ano, é a segunda manifestação dos fundamentalistas reivindicando morte aos ateus. Em fevereiro, o blogueiro ateu Ahmed Rajib foi assassinado a facadas por supostos fundamentalistas.

Bangladesh é um país asiático com 154 milhões de habitantes — a maioria é muçulmana, mas o regime de governo é democracia parlamentar laica.

Autoridades governamentais têm rejeitado as pressões dos muçulmanos fanáticos para a aprovação de uma lei da blasfêmia com o argumento de que a legislação do país é liberal secular.





Fontes: agências internacionais.

Sete países têm lei de pena de morte a ateus, revela relatório
dezembro de 2012

Ateísmo

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