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Estudo mostra como ateus e pessoas não religiosas enfrentam momentos de crise, como o luto

Ajuda entender pela perspectiva da ciência os ciclos da natureza e que sofrimento e isolamento são experiências universais


Valerie van Mulukom 
cientista de cognição, Universidade de Coventry, Inglaterra 

The Conversationl
plataforma de informação produzida por acadêmicos e jornalistas

O ditado “Não há ateus em trincheiras” sugere que em tempos estressantes as pessoas inevitavelmente se voltam para Deus (ou mesmo para deuses). Na verdade, os não crentes têm o seu próprio conjunto de cosmovisões seculares que podem proporcionar-lhes consolo em tempos difíceis, tal como as crenças religiosas o fazem para os que têm mentalidade espiritual.

O objetivo da minha pesquisa para o programa Understanding Unbelief era investigar as visões de mundo dos não crentes, uma vez que pouco se sabe sobre a diversidade destas crenças não religiosas e quais as funções psicológicas que elas desempenham. 
Eu queria explorar a ideia de que, embora não tenham crenças que se referem ao sobrenatural, os não crentes mantêm posturas ontológicas, epistemológicas e éticas distintas sobre a realidade. E que essas visões de mundo seculares fornecem significado equivalente, ou mecanismo, equivalente ao dos religiosos para enfrentamento de questões semelhantes. 

O número de não crentes está crescendo, com pelo menos 450-500 milhões de ateus declarados em todo o mundo — cerca de 7% da população adulta global. 

Como os não crentes podem incluir não apenas ateus, mas também agnósticos e os chamados “não religiosos”, os sem filiação religiosa, o número deles provavelmente é substancialmente maior. 

Portanto, uso a expressão 'não crentes' para indivíduos que não acreditam em Deus e para aqueles que não se consideram religiosos.

Racionalizando o medo da morte

A ideia de que crenças ou visões de mundo nos apoiam em tempos difíceis é a base da Teoria da Gestão do Terror, que se baseia no fato de que tememos a morte porque estamos conscientes do futuro — e, portanto, de nossa própria morte inevitável. 

Esse medo pode ser tão grande que pode nos paralisar quando tentamos viver o dia a dia.

Mas podemos administrar esse medo — por meio da crença em Deus e na vida após a morte, por exemplo, mas igualmente através do conhecimento de que a morte é natural.


É mais fácil suportar
a angústia quando há
sentimento de desapego
FOTO: TAL BEERY

Sabendo que um dia morreremos, as cosmovisões reforçam as nossas crenças e as identidades que construímos em torno delas, e podem proporcionar conforto — proporcionando-nos a chamada imortalidade simbólica, por exemplo, ou sentimentos de ligação a algo maior do que nós mesmos. 

Aqui, é o significado da crença, e não o seu conteúdo (religioso), que é importante: entre os não crentes, o aumento do stress e a lembrança da própria mortalidade estão associados a um aumento da crença na ciência.

Crenças seculares em todo o mundo

Com uma equipe de colaboradores internacionais, desenvolvi um inquérito online para perguntar aos não crentes sobre as cosmovisões, crenças ou compreensões do mundo que são particularmente significativas para eles. Reunimos 1.000 respostas de pessoas do Reino Unido, EUA, Holanda, República Tcheca, Dinamarca, Finlândia, Turquia, Brasil, Canadá e Austrália.

Descobrimos que nestes dez países, as seis crenças e visões de mundo mais comuns eram aquelas baseadas na ciência, no humanismo (ou na crença na humanidade e na capacidade humana), no pensamento crítico e no ceticismo (incluindo o racionalismo), em ser gentil e cuidar uns dos outros, e crenças na igualdade e nas leis naturais (incluindo a evolução).

Essa sobreposição foi impressionante. Apesar das enormes diferenças geográficas e culturais, descobrimos que essas categorias surgiram repetidamente. 

As cosmovisões frequentemente mencionadas incluíam declarações como: “Acredito no método científico e nos valores éticos do humanismo. Rejeito todas as crenças que não sejam baseadas em evidências” e “Temos uma vida. Temos esta oportunidade única de desfrutar do nosso breve momento ao sol, ao mesmo tempo que fazemos o melhor que podemos para ajudar os nossos semelhantes e proteger o ambiente natural para as gerações futuras.”

Mas também encontramos variação. Embora as respostas de países como os Países Baixos e a Finlândia se tenham centrado particularmente no cuidado da Terra, as respostas de países como os EUA e a Austrália centraram-se na melhoria geral do bem-estar humano.

Visões de mundo de apoio

Também pedimos aos não crentes que pensassem em momentos difíceis nas suas vidas: quando alguém próximo deles morreu; quando eles ou alguém próximo sofreu uma lesão grave (um acidente) ou descobriu que tinha uma doença física grave; quando se sentiram particularmente sozinhos ou desconectados dos outros; e quando se sentiram acentuadamente deprimidos.

Quando solicitados a recordar se alguma das suas cosmovisões foi útil nestes momentos, descobrimos que o que mais ajudou foram as cosmovisões baseadas na ciência, no desapego e na aceitação. 


Estas incluíam crenças na naturalidade da morte, na aleatoriedade da vida, no humanismo, no livre arbítrio e na assunção de responsabilidades. Por exemplo, as pessoas sugeriram que saber “que os membros da família vivem nos seus descendentes, por traços de personalidade e memórias” ajuda a lidar com um luto, enquanto suportar uma doença “era apenas aleatoriedade. Coisas assim acontecem.”

As crenças sobre a natureza da vida e da morte ajudaram muitos, incluindo a visão de que “o sofrimento e o isolamento são experiências universais” e que esses estados passarão: “As coisas mudam e esta situação nem sempre será assim”. 

Muitos indicaram que uma visão de mundo humanística era muito importante para eles, valorizando “as minhas relações com as pessoas próximas de mim e compreendendo que a vida pode ser demasiado curta, por isso devemos valorizar a única vida que sabemos que temos”.

Como os ateus reagem

Mas como essas visões de mundo ajudam em tempos de crise? Na maioria das vezes, os entrevistados disseram que ajudaram a lidar com a situação, reduziram a ansiedade, criaram um aumento da sensação de controle e de ordem e explicaram ou deram significado à situação.

Muitos participantes falaram que compreender uma situação difícil foi fundamental para aceitá-la e enfrentá-la.

Um deles disse que “ajuda quando há compreensão do processo de perda, para seguir em frente”.

Outro argumentou que “a minha crença na ciência explicava o que estava acontecendo e eu também confiava na medicina moderna e que, por isso, poderia superar a depressão, uma condição que responde ao tempo e aos cuidados”.

O que esta investigação sugere é que as visões do mundo e as crenças, sejam elas religiosas ou seculares, podem proporcionar conforto e significado mesmo nas situações mais difíceis.

> Esse texto foi publicado originalmente em inglês.

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