quarta-feira, 16 de abril de 2014

Internet aumenta número dos não crentes nos Estados Unidos

do MITT Technology Review

Mais norte-americanos passaram a declarar não ter
 religião com o aumento da audiência da internet

Em 1990, cerca de 8% da população dos Estados Unidos não tinha nenhuma preferência religiosa. Em 2010, esta porcentagem mais que duplicou, chegando a 18%. Estamos falando de uma diferença de 25 milhões de pessoas que de algum modo perderam sua religião.

Isto coloca uma pergunta óbvia: Por quê? Por que os norte americanos estão perdendo a fé?

Atualmente, há uma resposta possível graças ao trabalho de um cientista em informática do Colégio de Engenharia Olin de Massachusetts (Estados Unidos), Allen Downey, que fez uma detalhada análise dos dados. Ele afirma que a diminuição é o resultado de vários fatores, mas o mais polêmico deles é o crescimento da internet. Chega à conclusão de que o aumento no uso da internet nas últimas duas décadas provocou uma diminuição significativa da filiação religiosa.

Os dados de Downey provêm da General Social Survey, uma pesquisa sociológica muito respeitada realizada pela Universidade de Chicago (EUA), e que mede com frequência as atitudes e as características demográficas da população desde 1972.

Desde aquela época, a General Social Survey perguntou à população coisas como: “qual é a tua preferência religiosa?”, e “em que religião cresceste?” Também reúne dados sobre a idade de cada entrevistado, o nível de educação, o grupo socioeconômico, etc. E na era da internet, pergunta quanto tempo cada pessoa passa on-line. O conjunto total de dados que Downey utilizou consiste nas respostas de quase 9.000 pessoas.

O enfoque de Downey consiste em determinar como se relaciona a queda da filiação religiosa com outros elementos da pesquisa, tais como: a educação religiosa, o status socioeconômico, a educação e assim sucessivamente.

Ele descobriu que a maior influência na filiação religiosa é a educação religiosa, ou seja, as pessoas criadas em uma religião são mais propensas a estar filiadas a essa religião mais tarde.

No entanto, o número de pessoas com educação religiosa diminuiu desde 1990. Há uma clara relação entre isto e a inevitável queda no número de pessoas que mantêm a religião mais adiante em suas vidas. De fato, a análise de Downey mostra que este é um fator importante. Contudo, não explica a totalidade da diminuição nem de longe. De fato, os dados só explicam aproximadamente 25% da queda.

Também mostra que a educação em nível universitário se correlaciona com a diminuição. Uma vez mais, não é difícil ver como o contato com um grupo mais amplo de pessoas na universidade pode contribuir para a perda da religião.

Desde a década de 1980, a porcentagem de pessoas que recebe educação de nível universitário aumentou de 17,4% para 27,2% na década de 2000. Assim, não é de se estranhar que isto se reflita na queda dos números das filiações religiosas atuais. Mas embora a correlação seja estatisticamente significativa, representa apenas cerca de 5% da queda, razão pela qual deve haver algum outro fator.

E é aí que entra em jogo a internet. Também na década de 1980 o uso da internet era praticamente zero, mas em 2000 53% da população passa duas horas por semana on-line e 25% navega mais de sete horas.

Este aumento coincide estreitamente com a diminuição da filiação religiosa. De fato, Downey calcula que pode supor aproximadamente 25% da queda.

É um resultado fascinante. Implica que a partir de 1990, o aumento do uso da internet teve uma influência na filiação religiosa tão grande quanto a queda na educação religiosa.

Chegados a este ponto, seria preciso falar sobre a natureza destas conclusões. O que Downey encontrou são correlações e qualquer estadista dirá que as correlações não implicam causalidade. Se A se correlaciona com B, pode haver várias explicações possíveis. Pode ser que A cause B, B poderia causar A, ou algum outro fator poderia causar tanto A como B.

Mas isso não quer dizer que seja impossível tirar conclusões a partir das correlações, apenas que é preciso observá-las com cuidado. “A correlação proporciona evidência a favor da causa, sobretudo quando podemos eliminar explicações alternativas ou há razões para acreditar que são menos prováveis”, afirma Downey.

Por exemplo, não é difícil ver que a educação religiosa provoca uma filiação religiosa no futuro. No entanto, é impossível que a correlação funcione pelo contrário. A filiação religiosa mais adiante na vida não pode causar uma educação religiosa (embora possa influenciar a opinião que uma pessoa tenha sobre sua educação).

Também não é difícil ver que passar tempo na internet pode levar a uma desfiliação religiosa. “Para as pessoas que vivem em comunidades homogêneas, a internet oferece oportunidades para encontrar informação sobre pessoas de outras religiões (ou nenhuma), e para interagir com elas em nível pessoal”, assinala Downey. “Pelo contrário, é mais difícil (mas não impossível) imaginar possíveis razões pelas quais a desfiliação poderia causar um aumento no uso da internet”.

Evidentemente, também existe outra possibilidade: que um terceiro fator não identificado provoque tanto um maior uso da internet como a desfiliação religiosa. Mas Downey descarta esta possibilidade. “Controlamos as variáveis na maior parte dos candidatos óbvios, entre elas a renda, a educação, o status socioeconômico e o meio rural/urbano”, afirma.

Se existe este terceiro fator, deve ter características específicas. Teria que ser algo novo cuja prevalência tenha aumentado durante os anos 1990 e 2000, assim como a internet. “É difícil imaginar qual poderia ser esse fator”, assegura Downey.

Isso deixa poucas dúvidas sobre a razoabilidade da sua conclusão: “O uso da internet diminui a possibilidade da filiação religiosa”, assinala.

Mas há algo mais. Downey encontrou três fatores: a diminuição da educação religiosa, o aumento da educação de nível universitário e o aumento do uso da internet, que, em conjunto explicam 50% da queda da filiação religiosa.

Mas, o que acontece com os outros 50%? Nos dados, o único fator que se correlaciona com isto é a data de nascimento, posto que as pessoas nascidas mais tarde são menos propensas a ter uma filiação religiosa. Mas, como assinala Dowley, o ano do nascimento não pode ser um fator causal. “Desse modo, cerca da metade da mudança observada permanece sem explicação”, afirma.

Isso nos deixa diante de um mistério. A diminuição da educação religiosa e o aumento do uso da internet parecem ser as causas pelas quais as pessoas perdem a fé. Mas há algo mais sobre a vida moderna que não se reflete nestes dados e que está tendo um impacto ainda maior.

Com tradução de André Langer para IHU Online.






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