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Religião, ateísmo, teoria da evolução e astronomia

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Livro de Hitchens é exemplo de como um ateu enfrenta a morte

por Sandra Gonçalves
do site português Diário Digital

No Brasil, o livro foi lançado com
o nome de "Últimas palavras"
"Mortalidade", o último e inacabado livro de Christopher Hitchens, acaba de chegar às livrarias pela D.Quixote [em Portugal]. São as últimas 104 páginas que escreveu, sabendo que ia morrer em breve, de cancro do esófago, o que acabou por acontecer a 15 de dezembro de 2011. Tinha 62 anos. Nem mais uma palavra dele desde então. Hitchens, que durante três décadas registrou cada momento, mesmo debaixo de fogo dos seus inimigos religiosos (era um ateu confesso), nunca se deixou deter em vida, nem mesmo quando submetido à quimioterapia. Neste livro, observamos a outrora crepitante fogueira a apagar-se sobre si mesma. Mas as centelhas continuam a iluminar a noite.

"Mortalidade" é um pequeno livro composto por sete artigos que Hitchens enviou para a Vanity Fair a partir da  "Tumorlândia", como ele descrevia a ala de oncologia. Aqui encontramos os artigos mais introspectivos que alguma vez escreveu. Um relato honesto e sem contemplações dos males da doença que o vitimou, um exame às convenções sociais que rodeiam o cancro, e o ato final de uma vida dedicada à escrita e à polêmica.

Neste testemunho final, o colunista e crítico literário, e ainda autor de 17 livros sobre política, literatura e religião, conta na primeira pessoa como foram os seus últimos 16 meses de vida, já a sofrer com os efeitos dos tratamentos. Mas nem assim resignou-se ao fatalismo (ou hipocritamente ao falso conforto do otimismo conferido pela fé).

"Mortalidade" é uma coleção de textos que aborda uma variedade de temas, embora incontornavelmente a maioria seja sobre o fato de estar a morrer e o sofrimento, mas sem nunca negligenciar a graciosidade narrativa que o notabilizou, a sua intelectualidade e a inspiração.

"Mortalidade" pode muito facilmente ser depressivo, especialmente quando se chega ao posfácio, de Carol Blue, sua mulher, que escreve que tanto em palco como fora dele "o meu marido era impossível de superar".

Um escritor que improvisava em casa jantares de oito horas, com uma mesa apinhada de embaixadores, repórteres, dissidentes políticos, estudantes universitários e crianças. Cotovelos chocavam-se e quase que não havia espaço para pousar o copo de vinho. Christopher Hitchens levantava-se para fazer um brinde e era capaz de se estender numa animada, fascinante, histérica e divertida récita de poesia ou de quintilhas humorísticas, num apelo às armas por uma qualquer causa, e anedotas. "Que bom que é sermos nós", dizia.

O que observamos em "Mortalidade" é um homem que se aproxima da morte com dignidade; estoicamente aceita-a e recusa que o cancro o impeça de escrever. Mas o mais inesperado é quando relembra-nos que a morte não é exclusiva – todos passam por ela. A morte, enfatiza, é o derradeiro equalizador, mas mesmo assim Hitchens encoraja-nos a apostar em servir um propósito.

Hitchens era considerado a melhor companhia do mundo. Leitor ávido, emanava curiosidade de todos os seus poros. Ficava até de madrugada acordado a beber e a conversar, alterando entre as grandes questões do dia e os pequenos mexericos. Era preciso aproveitar ao máximo a sua presença, uma vez que no dia seguinte já não iria haver oportunidade de repetir o momento. Hitchens tinha já uma reserva de avião para um destino qualquer. É consensual. Todos os que conviveram com ele descrevem-no assim.

Cada capítulo deste testemunho assume a forma de uma fuga. O tema é a morte, a sua própria morte, e a voz, à medida que se vai avançado nas páginas, vai mudando com a proximidade dos últimos dias. 

"Ao longo da minha vida, já tinha acordado, mais de uma vez, com a sensação de morte. Nada, no entanto, me havia preparado para a madrugada de junho em que acordei a sentir-me realmente preso dentro do meu próprio cadáver." Assim começa o livro.

Logo de seguida, conta que foi diagnosticado com cancro do esófago, a mesma doença que matou o seu pai com 79 anos. Hitchens está apenas com 61. E fica desde logo claro que fará de tudo para viver. "Tinha verdadeiros planos para a próxima década… Será que não viverei para ver os meus filhos casarem? Para ver as Torres Gêmeas erguerem-se de novo? Para ler ou até mesmo escrever os obituários de Henry Kissinger e Joseph Ratzinger?»

E assim começa a batalha. Todavia, nunca perde a calma nem uma honestidade absoluta. Mesmo a enfrentar uma morte agonizante, não deixa nunca de ter humor. A dada altura escreve: "Quando ficamos doentes, as pessoas enviam-nos CD. A maioria, pela minha experiência, de Leonard Cohen."

Há uma boa dose de sofrimento, e o leitor vai acompanhando a perda gradual das suas capacidades à medida que vai sendo submetido a todos os tratamentos possíveis. Quando a esperança começa a escassear, apercebe-se de tudo o que irá perder.

Com os braços, mãos e dedos quase paralisados, escreve: "À semelhança da ameaça de perder a voz, que atualmente apenas existe graças a injeções dadas diretamente nas minhas cordas vocais, sinto a minha personalidade e identidade a dissolverem-se." Neste momento, as mãos já não respondem ao estímulo da mente.

A última seção de  "Mortalidade' é constituída por frases fragmentadas, deixadas inacabadas com a morte do escritor… Uma grande perda.





Trecho do livro 'Últimas Palavras'

Na última entrevista, Hitchens falou da relação Igreja-nazismo
dezembro de 2011

Christopher Hitchens


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