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Religião, ateísmo, teoria da evolução e astronomia

sábado, 28 de julho de 2012

Jornal critica intolerância evangélica contra umbanda

Jornal diz que os fanáticos deveriam tirar lições da história do
cristianismo, no período em que foi perseguido pelos romanos

editorial do Jornal do Commercio, de Pernambuco

De tão antiga e tão arraigada à história de todos os povos, a intolerância religiosa se presta normalmente a estudos acadêmicos, mas quando se torna ato de agressão física ou moral a questão desce ao plano policial e é, sim, matéria jornalística. Como vem sendo desde o bárbaro assassinato de uma criança no que se divulgou como “ritual de magia negra” no interior de Pernambuco. Sinal para que grupos evangélicos saíssem do já conhecido teatro de condenações, a tela de TV, para a manifestação direta contra os seguidores de umbanda, com ameaças de violência e gestos de intolerância inaceitáveis.

Esse é um capítulo à parte na história contemporânea do nosso País, principalmente pelo crescimento das denominações pentecostais, que curiosamente associam o demônio às manifestações religiosas de matriz africana quando se trata de uma criação cristã. Todos os preconceitos que alimentam a intolerância religiosa recaem sobre expressões quase sempre desconhecidas, como o vodum e as entidades do panteão da religiosidade afro-brasileira, que recebemos como fruto de um dos capítulos mais sujos de nossa história: a escravidão.

Antes de condenar e perseguir práticas religiosas que desconhecem, esses grupos que atacam quem não reza pelo seu livro deveriam recorrer à história de suas próprias crenças para encontrar as mesmas formas de intolerância que fez a perseguição romana contra os cristãos, destes contra os judeus, a perseguição católica contra os protestantes, até as mais recentes manifestações da “religião” nazista.

Mais que atentar para a história das crenças, cabe lembrar aos fanáticos de todas as denominações que há princípios e leis que asseguram o direito de acreditar, ou não acreditar, em divindades, e que há punição assegurada pelo Estado – entidade sem religião – para quem viola essas normas. É por essas razões que causam inquietação as manifestações de grupos evangélicos contra os seguidores de umbanda, assim como é impensável se associar a práticas religiosas afro-brasileiras algo como ritual de magia negra, com sacrifícios humanos.

Também não podem os intolerantes – tão cuidadosos em pautar suas vidas pela Bíblia – desconhecer que esse livro contém muito sangue e até remete a manifestações que seriam não apenas criminosas do ponto de vista laico, como inaceitáveis na visão do religioso dos dias de hoje. Basta que recorram aos episódios que falam de sacrifício humano e de animais, culminando com o capítulo 9º da Carta aos Hebreus, onde trata do “sangue da nova aliança”. É um trecho coberto de sangue, com expressões como: “E, segundo a Lei, quase todas as coisas são purificadas com sangue, e sem derramamento de sangue não existe perdão”. Essa é a coluna ideológica com que fanáticos de todas as latitudes têm tentado legitimar seus atos, em quaisquer circunstâncias inaceitáveis em uma sociedade onde a liberdade de crença e culto e, sobretudo, o direito à vida, têm a proteção de todas as leis.





Transcrição do editoral do Jornal do Commercio.


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