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Religião, ateísmo, ciência, etc.

domingo, 20 de maio de 2012

É um erro atacar ferozmente a religião como um todo

do leitor Gustavo Henrique Milaré (foto) em resposta a
Influência positiva da religião, se houve, ficou no passado

Gustavo Henrique Milaré
Cognite Tute, você claramente subestima o papel essencial que a religião teve no passado ao dar a ela o crédito por "garantir união de grupo, reforçar laços e algumas outras necessidades, mas não mais que isso". Oras, como seria sequer possível existir a sociedade se as pessoas não se reunissem em grupos? Um homem do século XXI com uma boa educação passa por, no mínimo, 11 anos estudando, fora a formação cultural. E eis que então um homem que teve acesso a uma formação ideológica inacessível à maioria da população de hoje é capaz de dizer: "Ah, mas eu não preciso de religião na minha vida."

É muito fácil dizer isso, não é?

De fato, depois que a sociedade está toda construída e de toda a formação que você recebeu, você é capaz de finalmente capaz de "libertar-se" da religião. Perfeitamente, assim como você também não precisa mais de uma lança para caçar. Mas será mesmo que o que foi construído a partir da religião seria possível de se construir de alguma outra forma?

Vejamos. Pegamos alguns bebês e os colocamos numa grande ilha, longe de qualquer contato com a civilização. E esperamos milhões de anos. Como faríamos para impedir que eles criassem uma religião sem influenciá-los com a nossa cultura? Não há nenhum registro de uma sociedade sem religião em toda a História e dizer que alguma poderia ter existido é anacronismo.

O fato é que a religião teve papel fundamental na formação dos Estados e das leis. Ela foi um mecanismo rudimentar, mas eficiente, de transmissão e conservação do conhecimento acumulado. Não é à toa que em rituais religiosos encontram-se práticas associadas à higiene e à prevenção de doenças, como no judaísmo, ou que as divindades centrais do hinduísmo que descrevem o processo como a sociedade se constrói (Brahma), se mantém (Vishnu) e se transforma (Shiva).

Tome, por exemplo, a escravidão, tortura e outras práticas perversas perpetuadas pelas instituições religiosas há alguns séculos. Foi bem difícil para os questionadores reverterem este quadro. Entretanto, passam-se os séculos e a religião toma para si a posição contrária às mesmas práticas perversas que antes ela defendia, com o mesmo rigor, dificultando o regresso à selvageria, conservando os valores morais que eles lutaram tanto para estabelecer!

Imagine como esta característica de conservação de valores morais foi importante para a antiguidade.

É uma pena para a História que o catolicismo tenha se tornado um sistema ditatorial e imutável, herança maldita do Império Romano. Durante a Idade das Trevas, Vishnu (a Igreja Católica) assassinou Shiva (os hereges). A dinâmica e diversidade revolucionária do cristianismo dos primeiros séculos só vieram a renascer recentemente com a Reforma Protestante. Não é à toa que ainda hoje ele defende uma ideologia arcaica: o cristianismo não é religião digna dos tempos modernos. Comparem cristianismo e islamismo com judaísmo, budismo e espiritismo nas questões éticas contemporâneas como homossexualidade, aceitação de outras crenças, valorização da ciência, secularismo...

Dizem que religião é antiquada, contrária à razão, mas subestimam a capacidade de mutação e adaptação da religião. O pastor Gondim não é um caso isolado, ele representa um fenômeno que surgiu em resposta ao avanço da secularização: o irenismo. O irenismo é muito mais ameaçado à religião arcaica e irracional do que o ateísmo.

Enquanto ateus antirreligiosos fixam-se no que a religião é ou foi, não veem o que a ela está se tornando. Teorizam que é impossível que a religião se torne racional e não percebem que, na verdade, isso já está acontecendo. É um erro atacar feroz e imprudentemente a religião como um todo, espalhando o sentimento de aversão e ódio. Isso é pensamento anti-irenista. A religião deve ser atacada pelo lado podre, não pelo lado renovador.

Autor de ‘Religião para Ateus’ critica o radicalismo ateísta.
outubro de 2011

Ateísmo.     Posts de leitor.

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