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Genes guardam memória de mundos antigos, diz Dawkins em novo livro

O biólogo evolucionista, o genoma é comparável a um palimpsesto, pergaminho medieval raspado e reescrito várias vezes


A editora portuguesa Gradiva lançou nesta terça-feira "O Livro Genético dos Mortos", novo livro do biólogo evolucionista britânico Richard Dawkins, autor de "O Gene Egoísta" (1976). No Brasil, o livro encontra-se em pré-lançamento e chegará às livrarias em novembro.

A tese central é que o corpo, o comportamento e os genes de cada animal funcionam como um arquivo codificado dos ambientes em que seus ancestrais viveram e sobreviveram ao longo de milhões de anos.


Para Dawkins,
um biólogo do
futuro, com
tecnologia
avançada e
domínio do
registro fóssil,
poderia "ler"
um organismo
como um livro
que descreve
desertos,
oceanos e
florestas
desaparecidos.

O exemplo que abre a argumentação é o de um lagarto cuja pele camuflada reproduz as cores e a textura do solo de um deserto ancestral, descrição gravada pela seleção natural ao longo de gerações.

O mecanismo dispensa autor. Predadores que não enxergaram os lagartos mais bem camuflados deixaram-nos se reproduzir, e cada geração passou a copiar a paisagem com um pouco mais de precisão.

O biólogo compara o genoma a um palimpsesto, pergaminho medieval raspado e reescrito várias vezes, no qual camadas antigas de texto continuam parcialmente legíveis sob as mais recentes.


Baleias e golfinhos guardam no DNA a herança de ancestrais terrestres aparentados aos hipopótamos. Os vertebrados carregam marcas dos peixes dos quais descendem, como olhos preenchidos por líquido.

Outros exemplos vão das tartarugas, que saíram do mar para a terra e depois voltaram, ao dragão-marinho-folhado, que imita algas, e aos cucos, cujas fêmeas põem ovos que copiam os da espécie hospedeira.

Tatuzinhos-de-jardim e milípedes-bola, cujas linhagens se separaram há mais de 400 milhões de anos, desenvolveram a mesma defesa de se enrolar em bola, sinal de pressões ambientais semelhantes.

O livro dá continuidade à visão gene-cêntrica consolidada em "O Gene Egoísta", segundo a qual a seleção natural atua sobretudo no nível do gene, e não para o bem da espécie ou do organismo.

O subtítulo, "Um devaneio darwiniano", assume o caráter especulativo de parte da obra. Ler um genoma de ponta a ponta como se lê um livro ainda depende de avanços da genética que não existem hoje.

Publicado em 2024 pela Yale University Press como "The Genetic Book of the Dead", o título foi eleito livro de ciência do ano pelo The Times e incluído entre os melhores do gênero pelo Financial Times.

O biólogo Nathan Lents, do John Jay College, em Nova York, escreveu em resenha que se preparou para contestar afirmações sem sustentação e não encontrou "nada para questionar" na parte científica.

Resenhas de leitores apontaram, porém, repetições em relação a livros anteriores de Dawkins, como "O Relojoeiro Cego" (1986) e "A Escalada do Monte Improvável" (1996).

Diferentemente de "Deus, um Delírio" (2006), o novo livro não trava embates diretos com a religião. Cada exemplo, no entanto, mostra que a complexidade da vida dispensa um projetista inteligente.

No Brasil, a evolução segue sob pressão. Em 2020, o criacionista Benedito Guimarães Aguiar Neto assumiu a presidência da Capes, órgão federal de pós-graduação.

Em 2021, o Ministério da Educação nomeou uma professora criacionista para coordenar materiais didáticos, como noticiou o Paulopes.

Dawkins foi professor de Compreensão Pública da Ciência na Universidade de Oxford de 1995 a 2008 e fez doutorado sob orientação de Nikolaas Tinbergen, Nobel de Medicina em 1973.

Aos 85 anos, Dawkins segue associado ao chamado Novo Ateísmo, ao lado de Sam Harris, Christopher Hitchens (1949-2011) e Daniel Dennett, morto em abril de 2024, aos 82 anos.

Naquele ano, ele gerou polêmica ao se declarar "cristão cultural" à rádio britânica LBC, por gostar de hinos e canções de Natal. Setores religiosos trataram a frase como recuo.

Na mesma entrevista, Dawkins afirmou que não acredita em nenhuma palavra da fé cristã.

A edição portuguesa, da coleção Ciência Aberta, tem 360 páginas, tradução de Jorge Pereirinha Pires e ilustrações de Jana Lenzová, mulher do autor.



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