Ateus precisam se unir para se opor aos religiosos e políticos que flertam com a teocracia

> RICARDO OLIVEIRA DA SILVA
Professor do Curso de História da UFMS

No ano de 2013, no auge do ativismo ateísta brasileiro da primeira metade da década de 2010, o professor Marcos Afonso, palestrante no II Encontro Nacional dos Ateus – Edição Rio Branco/Acre, afirmou que o ateu que fica preso apenas na discussão sobre evidências, sem levar em conta o todo social no qual está inserido, é apenas um cartesiano.

Marcos Afonso chamava atenção naquele momento para a necessidade de os ateus desempenharem uma função propositiva nas realidades sociais em que estão inseridos.

Penso que essa reflexão é central quando se indaga sobre a existência e a atuação de um ativismo ateísta, o qual, de 2013 para o tempo presente, conheceu um sensível declínio no Brasil.

Uma das características que se encontra nas sociedades contemporâneas é a organização de grupos em prol de um ativismo que busca o atendimento de demandas sociais e políticas. Em um primeiro momento, parece não fazer muito sentido falar em ativismo ateísta, pois se falaria de uma população que é definida apenas por não acreditar em Deus.

Contudo, como destaco a partir de minhas pesquisas sobre história do ateísmo, a descrença em Deus é um componente de uma circunstância mais ampla que envolve ateus e ateias.

É possível verificar que em sociedades marcadamente religiosas, atitudes de desconfiança e hostilidade historicamente foram direcionadas para quem manifestava dúvidas ou rejeitava a existência de um mundo religioso.

Nesse sentido, um dos primeiros passos que um ativismo ateísta pode dar é o de combater o preconceito e os estereótipos depreciativos criados em torno dos ateus e ateias, como a ideia de que ateu não possui moral.

A denúncia e crítica ao preconceito direcionado ao ateísmo se insere, no meu ponto de vista, a defesa do respeito as pessoas manifestarem, sem sofrer represália, sua descrença religiosa e sua visão de mundo alternativa aquela baseada na ideia de existir um Deus. 

Por isso o tema do Estado laico é importante para o ativismo ateísta. Como parte do vocabulário político moderno, a ideia de Estado laico se refere a uma instituição que possui entre seus objetivos garantir a liberdade de crença e de descrença religiosa de forma equânime.

Ao se falar em Estado laico, o que é realçado é uma dimensão política do ativismo ateísta, que igualmente pode focar no livre-pensamento, como na promoção de uma educação que não significa eliminar o conhecimento das ideias religiosas entre a população, mas que não cerceie o conhecimento de um ensino e de valores éticos seculares.

Nos pontos que apresentei não falei que o ativismo ateísta deve “converter” pessoas ao ateísmo, pois não considero que isso deva ser o papel do ativismo ateísta.

O respeito à diversidade de crenças como base para o princípio da tolerância nas relações humanas é o que defendo como profícuo e salutar no engajamento social dos ateus e ateias.

A crítica as ideias e instituições religiosas por parte do ativismo ateísta são importantes quando o foco é destacar o papel social delas como promotores de opressão e preconceitos.

Por isso atualmente o tema da laicidade ganha evidência no meio ateísta, já que vivemos um contexto histórico onde o governo federal flerta e busca apoio em grupos religiosos que explicitamente se opõem ao Estado laico para auferir benefícios próprios. Inclusive o lema da campanha presidencial de Bolsonaro em 2018 foi “Deus acima de todos”.

Em 2013, quando ocorreu o Encontro Nacional de Ateus – Edição Rio Branco/Acre, o ativismo ateísta estava em ascensão. Poucos anos depois, ele perdeu força.

Divergências políticas e na forma de modelar o engajamento social foram fatores que colaboraram para esse declínio. Porém, hoje, é mais do que urgente que o meio ateísta busque dialogar entre si e com outros setores da sociedade, inclusive religiosos, para se opor aos desejos de teocracia que povoam os sonhos de conservadores religiosos e políticos.

E, parafraseando um antigo pensador do século XIX, com a consciência de que pode soar como clichê, finalizo o artigo com a sentença: “Ateus e Ateias do Brasil, uni-vos!”

> O título original desse artigo é "Qual o papel do ativismo ateísta?"