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Por que essa máscara, Damares? Mulher Maravilha é liberada, bissexual, pagã!

Maria Fernanda Guimarães. A ignorância é uma bênção, diz a sabedoria popular. Discordo. Se ignorância for bênção, prefiro a maldição que a conhecença traz. Mas para a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, a ignorância é de imensa valia. É o que essa máscara da Mulher Maravilha indica.

DAMARES ALVES AO LANÇAR
CAMPANHA PARA INCENTIVAR
CRIANÇAS A USAR MÁSCARAS


Há uma semana, ela apareceu com  máscara da Mulher Maravilha. Diana, nome da personagem, é tudo o que a ministra execra. Mulher Maravilha é sexualmente liberada, teve casos com vários homens e mulheres, sendo já exibida como bissexual. E ainda  é oriunda do paganismo.

Em primeiro lugar, deixe eu esclarecer. Não sou especialista no universo de comics. Ao contrário, Sou o que se chama uma espectadora eventual.  Certamente, deve haver leitores deste site muito mais qualificados a opinar sobre o assunto.  Mas já vi  estórias o suficiente para saber que Damares e Mulher Maravilha são  água e óleo. Por isso, espanta-me ver a ministra com essa máscara.

Vejamos.

Wondy  diminutivo em inglês de Wonder Woman, a Mulher Maravilha — o alter-ego de Diana Prince, na verdade a Princesa Diana,  da  ilha das Amazonas, nunca foi celibatária. Ao contrário.

Além do seu namorado de sempre, Steve Trevor, já se envolveu romântica ou sexualmente com Batman, com quem aparece com dois filhos em Batman Cavaleiro das Trevas; Órion (filho de Darkside), Aquaman, Superman (várias vezes) e até com seu arqui-inimigo, o dr. Psycho.

MULHER MARAVILHA NÃO É MESMO
UMA MOÇA 'RECATADA E DO LAR'.
JÁ NASCEU LIBERADA E PAGà

Além disso, ela é totalmente pagã, com genealogia no Olimpo.

Na versão original, tinha sido esculpida em barro e tomado vida com a bênção dos deuses.

Na versão do século XXI, é filha de Zeus com Hipólita, a rainha das amazonas.

Então, é uma semi-deusa.  Em ambas as versões, ela mantém as características de cada um dos deuses olímpicos.  Ela tem a beleza de Afrodite, a sabedoria e a estratégia de Atena, a velocidade de Hermes, a força de Héracles. Como filha de Zeus, pode dardejar raios, o que apareceu em algumas edições. Ela tem ainda a intuição de Gaia.  O que nada tem a ver com as crenças de Damares Alves.

Há uns amalucados que dizem ser a Mulher Maravilha uma metáfora de Jesus Cristo e apontam  "aproximações teológicas" nas histórias. Uma loucura!  Pode procurar na Internet em inglês ou Português. Você vai achar os doidos.

O que talvez esses teólogos não saibam — e Damares Alves com seu "mestrado em Bíblia" certamente ignora por completo —é que a Mulher Maravilha é criação de William Moulton Marston, psicólogo, teórico, inventor e escritor, que tinha o pen name de Charles Moulton.

Dentre suas invenções, a mais destacada é o detector de mentiras: esses que aparecem em todos filmes e seriados policiais. 

Poliamor e Bissexualismo


O que pouca gente sabe é que William Moulton Marston vivia com duas mulheres ao mesmo tempo:  a  sua esposa oficial, a advogada Elizabeth Holloway Marston, co-criadora de Wonder Woman, e mais uma,  sua ex-aluna Olive Charles Byrne, que também inspirou a personagem.  Também morava na mesma casa, ocasionalmente, sua outra amante, Marjorie Wilkes Huntley. E os filhos de Wlliam com Elizabeth bem como os filhos dele com Olive. Um rolo!

Será que Damares Alves é uma defensora do poliamor? 

Detalhes:  Olive Byrne era sobrinha de Margaret Sanger, a famosa feminista  e eugenista! (Mas esse rolo fica para ser contado em outra oportunidade)  após a morte por câncer de William Moulton Marston, em  1947,   Elizabeth e Olive continuaram a viver juntas até  Olive falecer, em 1985, aos 81 anos.  Elizabeth morreu só, em  1993, já com 100 anos completos   

Essa relação poliamorosa e depois a convivência de Elizabeth e Olive juntas certamente inspiraram diversas referências ao bissexualismo de Mulher Maravilha desde sua concepção que, claro, nasceu na ilha das amazonas.  Há um filme biográfico Professor Marston e as Mulheres Maravilhas (2017), direção de Angela Robinson, no Telecine Play. Você pode se divertir. 

Nos quadrinhos, a ilha oculta se chama Themyscira. De fato, o dramaturgo Ésquilo (525 a.C.-455 a.C.) conta que as amazonas se mudaram para Temiscira, no rio Termod, a atual Terme, no norte da Turquia.

Como viviam numa comunidade essencialmente feminina, outra versão do mito grego narra que anualmente as amazonas visitavam os gargáreos, uma tribo vizinha a fim evitar a  extinção.  As mulheres viviam sua sexualidade entre si. Na Grécia da Antiguidade, a Hélade, não havia julgamento moral na orientação sexual

Desde sua criação, Wondy causou perplexidade. Fez um imenso sucesso entre as meninas e mulheres no pós-Guerra e despertou fetiches no mundo masculino.

Sempre houve insinuações de bondage, carícias e intimidades sexuais entre mulheres, o que era normal para a discrição da época. Mulher Maravilha  apareceu em sua primeira aventura na revista All Star Comics #8 de dezembro de 1941. 

BONDAGES, CARÍCIAS, INTIMIDADES 
ENTRE MULHERES INTEGRAM A VIDA
DE WONDY DESDE SUA CRIAÇÃO 


Após 2011, no universo  DC Comics Bombshells,   a Mulher Maravilha e a Mera tiveram uma relação romântica explícita. Lembrando agora que Mera é a mulher de Aquaman, com quem Wondy teve um caso. Que triângulo! 

Na HQ  Wonder Woman 750, Mera confessa que Diana foi sua "primeira amiga e seu primeiro amor." Na edição #32 ela   revela que também foi o primeiro beijo de Diana.

Feminista, heroína ou vilã  


Na criação de Marston, Wondy não é feminista, é muito mais que isso. Feminismo é um  conjunto de movimentos  que discutem ser as mulheres psicológica e intelectualmente iguais aos homens, merecendo por isso respeito e ganhos idênticos.

Verdade que Mulher Maravilha teve nesses seus 79 anos vários renascimentos, refazimentos, reboots e outros termos de "reinvenção"  mundo comic. Em suma: dependendo de quem desenhava e escrevia, ela recebeu personalidades distintas. Até que as feministas se enfureceram, pois na década de 1970  Wondy estava numa onda de submissão.

Todavia, desde que  Marston a concebeu, as mulheres não devem ser apenas tão boas quanto homens: podem ser superiores a eles. Quando a Mulher Maravilha estreou em 1941, Marston proclamou:  "Francamente, a Mulher Maravilha é propaganda psicológica para o novo tipo de mulher que, acredito, deve governar o mundo. Com amor".

E sabe-se já, para Marston, amor não é um sentimento universal e sublime apenas. Para ele sempre tem um componente sexual. E as mulheres são sempre dominantes.

Isso não tem nada a ver com a ministra Damares Alves, que disse em 16 de abril de 2019 que na sua “concepção cristã” a "mulher deve ser submissa ao homem no casamento".

Heróis e  vilões  inspiram e modelam o mundo à sua maneira. Damares não está no panteão dos heróis.

Para as pessoas que batalham pela efetiva vivência do Estado laico, que leem no criacionismo só uma narrativa literária  e que desejam uma sadia e desmistificada educação sexual nas escolas,  a ministra "terrivelmente evangélica" é terrivelmente  vilã.  

Com informações de fontes variadas







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