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Saiba como o sistema imunológico reage ao Covid-19 e pode até matar o paciente

Deutsche Welle   Como qualquer vírus, o coronavírus é pouco mais do que uma cápsula em torno de um núcleo de material genético e algumas proteínas. Para se multiplicar, ele precisa de um hospedeiro na forma de uma célula viva. Uma vez infectada, ela executa o que o vírus ordena: copiar informações, montá-las, e depois liberar as cópias do agente patogênico.

Mas isso não passa despercebido. Em alguns minutos, o sistema imunológico do organismo reage com sua resposta inerente: granulócitos, fagócitos e células exterminadoras naturais fluem das vias sanguínea e linfática para combater o vírus. Eles são apoiados por inúmeras proteínas do plasma sanguíneo, que servem como substâncias mensageiras ou ajudam a destruir o patógeno.

No caso de muitos vírus e bactérias, essa primeira atividade do sistema imunológico já é suficiente para combater o invasor. Isso geralmente acontece com muita rapidez e eficiência. Sentimos que o sistema está funcionando: ficamos resfriados, com febre.

Um subconjunto das proteínas sinalizadoras que normalmente são secretadas pelas células infectadas são os interferons. O Sars-Cov-1, vírus responsável pela epidemia de Sars em 2003, parece ter inibido a produção de um desses interferons, tendo, assim, pelo menos retardado a ação das células do sistema imunológico. 

CIENTISTAS TENTAM ENTENDER
A LÓGICA DO COVID-19, QUE
VEIO PARA FICAR


Até agora não está claro até que ponto isso também vale para o Sars-Cov-2. Os interferons apoiam a defesa corporal contra o vírus e estão sendo agora testados como terapia em estudos clínicos.

Em algum momento, no entanto, a resposta do corpo é tão forte que seu efeito pode ser contraproducente. Por exemplo, numerosas células do sistema imunológico fluem para os pulmões e fazem com que a fina barreira pela qual o oxigênio do ar normalmente passa para o sangue fique espessa. As trocas gasosas ficam restritas; no pior caso, a respiração artificial é necessária.

Às vezes, a reação do sistema imunológico pode ser exagerada e atingir também células saudáveis. Esse também pode ser o caso do coronavírus. Portanto, também estão sendo testados medicamentos que suprimem uma resposta imunológica excessiva e que já são conhecidos no tratamento de doenças autoimunes.

O equilíbrio entre processos imunológicos protetores e por demais agressivos no combate ao coronavírus é um aspecto desconhecido que ainda precisa ser pesquisado, diz Achim Hörauf, diretor do Instituto de Microbiologia Médica, Imunologia e Parasitologia da Universidade de Bonn.

O sistema imunológico adquirido começa a agir com algum atraso. Este varia de pessoa para pessoa e depende do que cada uma vivenciou e com quais patógenos entrou em contato. Enquanto as células T (células do sistema imunológico e leucócitos) ajudam a destruir as células infectadas, as células B formam anticorpos que podem manter o vírus sob controle.

No caso do coronavírus, esses são anticorpos neutralizantes que se ligam à proteína de pico (proteína spike) que o vírus usa para entrar no hospedeiro, ou seja, na célula humana. 

Os anticorpos neutralizantes têm como alvo específico a proteína spike. Nosso sistema imunológico se lembra dos anticorpos que produziu e, portanto, está preparado para uma nova infecção com o mesmo invasor.

Existe imunidade? Quanto tempo dura?


Uma boa notícia: é muito provável que possa se criar imunidade. Isso fica sugerido pela semelhança com outros vírus, dados epidemiológicos e experimentos com animais.

Os pesquisadores infectaram quatro macacos rhesus, uma espécie próxima aos humanos, com Sars-Cov-2. Os macacos apresentaram sintomas de Covid-19 (a doença causada pelo coronavírus), desenvolveram anticorpos neutralizantes e se recuperaram após alguns dias. 

Quando os animais recuperados foram infectados novamente pelo vírus, eles não desenvolveram mais sintomas: estavam imunes.

A má notícia: não se sabe (ainda) quanto tempo a imunidade dura. Isso depende se um paciente foi bem-sucedido na criação de anticorpos neutralizantes. 

Hörauf estima que a imunidade deva durar pelo menos um ano. Nesse período, cada novo contato com o vírus age como uma vacina de reforço, que pode prolongar a imunidade.

"O vírus é tão novo que ninguém possui uma resposta imune razoável", diz o imunologista. 

Ele acredita que seja improvável que uma pessoa adquira imunidade vitalícia, afirmando que esse "privilégio" é reservado a vírus que permanecem no corpo por um longo tempo e dão ao nosso sistema imunológico uma oportunidade quase permanente de conhecê-lo. 

Como o coronavírus é um vírus de RNA (e não de DNA), ele não pode se instalar permanentemente no corpo, explica o parasitologista.

O imunologista Stefan Meuer, da Universidade de Heidelberg, acrescenta que, como todos os vírus, o coronavírus também sofrerá mutação. Ele suspeita que esse possa ser o caso em 10 a 15 anos.



"Em algum momento, a imunidade adquirida não será mais útil, porque vai surgir outro coronavírus, contra o qual a proteção agora desenvolvida não ajudará porque o vírus mudou de tal forma que os anticorpos não serão mais eficazes. E aí também nenhuma vacina vai ajudar."

Como se pode aproveitar a resposta dos anticorpos do sistema imunológico?

Os pesquisadores já estão coletando plasma de pessoas que superaram uma infecção por Sars-Cov-2 e o estão usando para tratar pacientes com Covid-19 de forma limitada. O princípio por trás disso: a imunização passiva. Os estudos realizados até o momento mostraram resultados positivos, mas foram realizados apenas em poucas pessoas.

A imunização passiva é aconselhável quando o sistema imunológico de um paciente já começou a agir contra o vírus, diz Hörauf. 

"Quanto mais tempo se puder deixar o paciente agindo sozinho contra a infecção, antes de se iniciar a imunização passiva, melhor o resultado", diz o cientista.

 Mas é difícil identificar esse momento, observa, acrescentando que apenas através da imunização ativa pode-se estar protegido a longo prazo.

É possível ser infectado por coronavírus ou adoecer de Covid-19 várias vezes?

"Pelo que sabemos, isso não é possível com o mesmo patógeno", responde Hörauf. Mas é possível ser infectado por outros coronavírus ou vírus da cepa Sars ou Mers, se suas proteínas de pico forem diferentes, explica o parasitologista, afirmando que, "no que diz respeito à atual pandemia, pode-se presumir que as pessoas que passaram pela Covid-19 não vão mais adoecer disso nem transmitir o vírus".

A partir de quando uma pessoa não é mais contagiosa?

Um estudo realizado com os primeiros pacientes de Covid-19 na Alemanha mostrou que, a partir do oitavo dia após o surgimento dos sintomas, não são encontrados mais vírus capazes de se multiplicar e que possam ser cultivados em cultura celular, mesmo que até 100 mil cópias por amostra tenham sido detectadas no teste do coronavírus (PCR).

Isso pode vir a alterar as atuais recomendações de quarentena. Seria possível, por exemplo, liberar mais cedo os pacientes dos hospitais, o que poderia elevar a capacidade de leitos desocupados.

Hoje, segundo o Instituto Robert Koch, os pacientes podem receber alta hospitalar se apresentarem duas amostras de PCR negativas da garganta em 24 horas. No caso de terem tido um curso severo da doença, devem permanecer em isolamento doméstico por mais duas semanas. Para cada liberação, seja no hospital, seja no isolamento caseiro, é preciso ficar sem sintomas por pelo menos 48 horas.

Por que as pessoas reagem de forma diferente ao vírus?

Enquanto algumas pessoas apresentam apenas um resfriado leve, outras necessitam de respiração artificial ou até mesmo morrem de Covid-19. Idosos e indivíduos com doenças pré-existentes são mais suscetíveis ao vírus. Por quê? Essa é a pergunta do momento.

Ainda levará muito, muito tempo para entender os fundamentos mecanicistas e biológicos que determinam que algumas pessoas são afetadas muito mais do que outras, disse a virologista Angela Rasmussen à revista The Scientist. 

"O vírus é importante, mas a resposta do hospedeiro é pelo menos tão importante, se não mais importante", disse seu colega Stanley Perlman à mesma revista.

Meuer diz que as diferentes configurações e atividades de nosso sistema imunológico respeitam um princípio fundamental da sobrevivência. 

"Se fôssemos todos iguais, o mesmo vírus poderia acabar com toda a espécie humana de uma só vez." Devido à ampla variedade genética, é absolutamente normal que algumas pessoas morram de uma doença viral, enquanto outras nem a percebam, explica o imunologista da Universidade de Heidelberg.

Hörauf também presume a existência de variantes imunológicas de origem genética. Como uma pneumonia intersticial é observada no caso de uma infecção por coronavírus, uma reação excessiva do sistema imunológico pode ser a explicação, diz.

Mas também é possível que as pessoas sejam infectadas com doses diferentes de vírus, o que leva a diferentes transcursos da doença, diz o parasitologista, apontando que a robustez do corpo e dos pulmões também faz diferença. Atletas têm mais capacidade pulmonar do que fumantes de longa data.

A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.




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