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Duvivier escreve em jornal americano que o Estado laico não pegou no Brasil

'Bancada não equivale a um
 lobby cristão, mas a deputados
 que vão ao Congresso com
 a Bíblia na mão'

O New York Times publicou um artigo de Gregorio Duvivier no qual o humorista do Porta dos Fundos diz que Jair Bolsonaro não merece sequer a alcunha de "Trump dos Trópicos", porque, diferentemente do presidente americano, ele defende a ditadura militar e tem com herói um dos torturados daqueles tempos, o Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra. 

Duvivier tentou explicar aos americanos o que é e como opera a bancada parlamentar evangélica, algo peculiar ao Brasil, um país supostamente laico.

Ele também escreve sobre o grupo de extrema-direita cristã que jogou duas bombas na sede do Porta do Fundo por causa do curta em cartaz no Netflix que apresenta Jesus como gay.

Segue parte do texto de Duvivier.

"[...] Para além do amor à ditadura, existe outra camada da nossa política que pra vocês talvez soe surpreendente: o estado laico é um conceito que não pegou debaixo do Equador, assim como ir à praia de shorts (por aqui, a sunga e a teocracia seguem sendo tendência).

Pra vocês terem uma ideia, existe uma bancada evangélica no congresso.

A bancada não equivale simplesmente a um lobby cristão, tampouco significa que tenham alguns deputados que sejam cristãos.

A bancada consiste em mais de 80 deputados que vão ao congresso com a Bíblia na mão e votam de acordo com ela.

Muitos são pastores, alguns são policiais, alguns são pastores e policiais, como o pastor sargento Isidório — que ficou famoso por alegar que cura dependentes químicos com um porrete. Deu certo com ele: além de ex-drogado, Isidório também se diz ex-gay, curado por Cristo.

Algo que talvez dê a dimensão do nosso problema com laicidade: o nome mais citado durante o impeachment de Dilma Rousseff foi Deus. Não, ele não fez nenhum depósito suspeito, nem encontraram nenhum e-mail no nome dele, mas ao que parece foi ele que pediu, pra uma centena de deputados brasileiros, pra que a presidenta fosse retirada do cargo.


Fizemos um especial de Natal pra Netflix sobre a juventude de Jesus: A Primeira Tentação de Cristo. Porchat, o roteirista, partiu do fato de que a Bíblia tem uma elipse de trinta anos. Jesus tem 12 anos e — plim — de repente está com 30 trinta. Por que não dizem nada sobre sua juventude? O que estavam tentando esconder?

Aventamos uma hipótese: Jesus amava homens. Não fomos os primeiros a supor isso, claro. Antes de nós, Marcos, o evangelista, já tinha narrado, em texto apócrifo: “O jovem veio até ele, usando um vestido de linho sobre seu corpo nu. E ficou com ele naquela noite, pois Jesus lhe mostrou o mistério do reino de Deus”.

A bancada evangélica talvez não conheça esse trecho, assim como certamente não conhece Monty Python, Mel Brooks, South Park e outros tantos que já fizeram humor, antes de nós, com as vacas sagradas da cristandade.

Hoje tem, no Brasil, uma dúzia de ações e petições pedindo a retirada do conteúdo do ar.

O Ministério Público acatou um pedido de um grupo católico exigindo não apenas censura, mas também quer que a gente pague dois milhões de reais, dois centavos pra cada católico do Brasil.

Não me pergunte o porquê dos dois centavos. Fiquei na dúvida se eu, batizado na igreja católica, tenho também direito aos dois centavos. Não fiz, no entanto, primeira comunhão, será que tenho direito a um centavo apenas? Quem fez crisma pode pleitear um terceiro centavo?

Isso para nós não é novo — ao longo de oito anos colecionamos processos de grupos religiosos em todo o Brasil.

O que mudou foi que, desde que esse presidente tomou posse, os ataques têm tomado outras formas. Por exemplo, na madrugada do dia 24 de dezembro, um grupo de mascarados tentou incendiar nossa sede com coquetéis molotov. O vigia conseguiu apagar o fogo e ninguém se machucou.

No dia seguinte, um grupo chamado Comando de Insurgência Popular da Família Integralista Brasileira reivindicou a autoria do ataque.

Integralismo foi um movimento dos anos 30 simpático ao nazismo — sim, tinham muitos brasileiros simpáticos a um movimento que os mandaria, por serem mestiços, pra um campo de concentração.

O movimento, acreditávamos, tinha morrido — junto com a sífilis e a tuberculose. Mas assim como ambas está de volta ao Brasil de Bolsonaro.

O humor, claro, não é o único afetado pelo governo. O filme "A Vida Invisível", do qual participo como ator, ganhou o prêmio Un Certain Regard, em Cannes, mas no Brasil foi impedido de passar num órgão público.

A então diretora da Ancine, a Agência Reguladora do Cinema, alegou que o produtor seria comunista. Quem conhece o mercado sabe que isso não faz sentido: nada pode ser menos comunista que um produtor de cinema.

Os órgãos públicos — todos — estão sendo trocados por “pessoas leais ao governo” — pra usar uma expressão do próprio Bolsonaro. O presidente já disse que não é a favor da censura, mas sim de proteger os “valores cristãos”.

Não é preciso atacar a cristandade, no entanto, pra ser demitido. Quando o diretor do INPE divulgou dados sobre desmatamento, o presidente o exonerou — talvez outro inimigo dos valores cristãos seja a realidade."

Íntegra do texto.




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Comentários

  1. Mais um arrumando desculpas para ir morar em Los Angeles, feito o Wagner Moura, outro esquerdista de ocasião. Verdadeiros humoristas feito Jô Soares, Chico Anysio, Juca Chaves e tantos outros enfrentaram feito homens, durante 20 anos, o governo militar, sem ficarem com choramingos. Bastou Duvivier e sua cambada do Porta dos Fundos levarem uns coqueteizinhos molotov pra amarelarem, para irem atrás da polícia pedir proteção, atrás da polícia, que, na boca de esquerdistas babacas feito eles, é um órgão de repressão a serviço do regime.
    Patético, este cara. Patético.

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    Respostas
    1. Quem não compactua com nova presidência automaticamente é rotulado como esquerdista.

      Nenhum dessa ascensão de conservadores "água com açúcar" consegui elaborar um argumento sem mencionar os mais novo chavões dessa turma se se auto-intuito "direita".

      Todos os clichês na estrutura do argumento sempre vem seguido de "comunismo, esquerdismo, socialismo, cuba, Venezuela, marxismo cultural e etc".

      Vagabundo é aquele cidadão do senso-comum que acredita entender toda engrenagem politica e vive reproduzindo clichês para enviesar seu espectro politico.

      Direita e esquerda são essências para sociedade. Só que essa turma de retardados em ascensão acredita que Direita está intrinsecamente ligado a sua crença religiosa em especifico quando na verdade direita e conservadorismo abacar muito mais. Portanto não é exclusivamente defesa de uma unica crença em especifico.

      A moda dos políticos não é falar de suas proposta até porque maioria não entende de economia. Logo a nova tática é se autodenominar "politico religioso" aonde o GADO já abre os dentes.

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Paulo Lopes é jornalista
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