Fala de Bento 16 sobre celibato foi manipulada por inimigos do papa Francisco

Publicado quando Ratzinger
 desistiu do comando da Igreja,
cartoon acima continua atual.


por Juan Vicente Boo
para ABC

[texto opinativo] É um ataque contra Francisco, disfarçado de defesa do celibato.

Já faz seis meses que Bento XVI não está em condições de escrever e apenas de falar, como constataram pessoas que o visitaram. Possivelmente mantém sua extraordinária lucidez, porém as conversas, imprecisas, não devem passar dos dez minutos, para não mencionar suas dificuldades de visão, audição e enfraquecimento geral.

O livro assinado por Bento XVI e o cardeal Robert Sarah, lançado ao rugir de bumbos e pratos ontem pelo jornal Le Figaro e meio conservadores norte-americanos e italianos é uma manipulação editorial e midiática na qual o papa emérito não teve participação alguma, segundo manifestaram ontem fontes muito próximas a Joseph Ratzinger.

Tudo parece indicar uma grave manipulação de Bento XVI por parte do cardeal guineense, prefeito da Liturgia e um dos principais opositores visíveis a Francisco.

“Das profundezas de nossos corações”, apresentado como uma defesa fervorosa do celibato sacerdotal frente à proposta de ordenação sacerdotal de diáconos permanentes indígenas formulada em outubro pelo Sínodo da Amazônia era em realidade uma manobra contra Francisco que pegou o Vaticano completamente de surpresa.

Já faz seis meses que Bento XVI não está em condições de escrever e apenas de falar, como constataram pessoas que o visitaram. Possivelmente mantém sua extraordinária lucidez, porém as conversas, imprecisas, não devem passar dos dez minutos, para não mencionar suas dificuldades de visão, audição e enfraquecimento geral.

Ao final de uma jornada de perplexidade, na qual o departamento de Comunicação do Vaticano preferiu inicialmente minimizar o impacto do inusitado gesto de Bento XVI e o prefeito da Liturgia, e reiterar a firme postura de Francisco em favor de manter o celibato, fontes muito próximas ao Papa emérito “descobriram o bolo”.

Bento XVI não escreveu esse livro com o cardeal Sarah, não viu nem aprovou a capa, nem o feto de que se apresentasse como escrito “a quatro mãos”.



Aparte da foto demasiado ostentosa, era muito estranho que assinasse “Bento XVI” quando, mesmo ainda Papa, assinava “Joseph Ratzinger — Bento XVI” sua grande obra “Jesus de Nazaré”, precisamente para deixar claro que não era um livro de magistério, mas sim uma reflexão pessoal.

O que ocorreu foi que há alguns meses Bento XVI trabalhava em um texto sobre o sacerdócio e o cardeal Sarah pediu para vê-lo. O papa emérito deixou sabendo que o prefeito da Liturgia estava escrevendo um livro sobre o sacerdócio e, provavelmente, pensando que o utilizaria somente como “background”.

A partir daí, tudo é obra do cardeal guineense e de seu publicitário, Nicolas Diat, junto com as editoras Fayard, da França, Ignatius Press, dos Estados Unidos, e Cantagalli, da Itália.

Apesar que seja correto defender o celibato, o modo de fazê-lo era uma falta de respeito às igrejas orientais e ao papa Francisco, a quem corresponde a decisão final em consciência, livre de pressões midiáticas que os próprios autores do livro denunciavam, porém, também praticavam com esse lançamento.

A edição norte-americana leva como subtítulo alarmante: “Sacerdócio, celibato e a crise da Igreja Católica”. O adiantamento do conteúdo em tom catastrófico pelo jornal Le Figaro recorda o lançamento mundial do manifesto do ex-núncio nos Estados Unidos Carlo Maria Viganò, que pedia a renúncia do papa Francisco sobre bases absolutamente falsas.

Um texto atribuído a Bento XVI afirma que “da celebração diária da Eucaristia, que implica um estado permanente de serviço a Deus, nasce espontaneamente a impossibilidade de um laço matrimonial”. O cardeal Sarah fala inclusive de “padres de segunda classe”.

A realidade histórica é que sempre existiram padres casados, do mesmo modo que continuam existindo nas Igrejas ortodoxas e também nas 23 Igrejas católicas do rito oriental.

De fato, a introdução dos padres casados na Igreja latina foi feita por Bento XVI, em 2009, com a constituição apostólica que criou os ordinariatos para padres e fieis anglicanos que vinham à Igreja Católica mantendo seu rito e tradição.

Com tradução de Wagner Fernandes de Azevedo para IHU Online, com charge de Rodrigo. 





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EDITOR DESTE SITE

Paulo Roberto Lopes é jornalista

profissional diplomado. Trabalhou

no jornal centenário abolicionista

Diario Popular, Folha de S.Paulo,

revistas da Editora Abril e

em outras publicações.

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