Leia íntegra de texto sobre aborto de revista para a qual Damares pede punição

Leia abaixo a íntegra do texto “Como é feito um aborto seguro”, da revista AzMinas, à qual a ministra Damares Alves (Mulher, Família e Direitos Humanos) quer punir criminalmente porque ela entende que se trata de uma “uma apologia ao crime e pode colocar as meninas e mulheres em risco”.
Damares enviou uma representação ao Ministério Público, que analisa se é o caso de inquérito criminal.

A ministra mais uma vez demonstrou estar desinformada ou má intencionada, porque o texto da revista informa que o aborto no Brasil só é permitido em caso de estupro, risco de vida da mulher ou anencefalia do feto.

Talvez a ministra gostasse de censurar o trecho do texto que se refere como ocorre a interrupção da gravidez de acordo com redomendações da OMS, nos países em que o procedimento é permitido.

Segue a íntegra.





por Helena Bertho
para AzMinas

Primeiro ou o médico explicou que ela tinha duas alternativas para fazer o aborto: ele poderia dar os remédios para quem ela deveria se isolar ou fazer um procedimento de cerca de uma hora na clínica. Os medicamentos usados ​​menos invasivos, mas ela sente mais dor. Mas ele explicou que as opções são seguras. Para não sentir dor, ela escolheu o procedimento.

Assim, foi para a clínica, onde foi encaminhado para uma conversa com uma psicologia para saber se era sua escolha mesmo. Depois, foi para uma sala médica, onde foi feito um ultrassom que constatou uma gestação de nove semanas e, em seguida, deu dois testes de misoprostol para que tomasse.

Espere então dez minutos, quando foi encaminhado para uma segunda sala, onde o médico apresentou diversos métodos anticoncepcionais e ela usou o subcutâneo, que foi aplicado em toda a hora. Por fim, foi uma terceira sala, onde foi aplicada anestesia e a respiração intrauterina foi realizada.

“Senti um pouco de dor, como uma cólica mais forte. Depois ele fez um ultrassom para checar se estava tudo bem. Tinha terminado e eu senti um enorme sofrimento. Então me deram algumas orientações e eu digo andando ”. Essa é uma história de como aconteceu o aborto do estudante de direito Rebeca Mendes, 32 anos, em uma clínica na Colômbia, onde o aborto é legalizado.

Ela usou a Justiça ou o direito de fazer o procedimento no Brasil , mas teve seu pedido negado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e, por isso, buscou ajuda para fazer o aborto no exterior. “Os profissionais eram todos muito humanizados e preparados para atender”. Na época, Rebeca tinha um emprego temporário, fazia faculdade com bolsa e já criava sozinha seus dois filhos. Sem condições para bancar uma viagem, ela teve uma ajuda de uma organização internacional.

Rebeca queria que todas as mulheres brasileiras que decidissem interromper uma gestação tivessem uma experiência que ela teve, por causa da luta pela descriminalização do aborto no Brasil e está fundando uma organização para levar mulheres para abortar no exterior, como ela fez.

No entanto, atualmente mulheres que não têm condições de viajar, encaram uma situação bem diferente no Brasil. Para ajudar na redução de danos ao aborto, consulte aqui as informações da Organização Mundial de Saúde (OMS) e especialistas na área.

O aborto no Brasil hoje

Atualmente, o aborto no Brasil é crime, com três exceções. Uma lei permite que uma mulher interrompa a gravidez apenas nos seguintes casos:

Vítimas de estupro;

Quando há risco de vida na mulher;

Anencefalia do feto (ausência ou má formação do sistema cerebral).

Nesses casos, uma mulher pode procurar um dos hospitais da rede de referência que realiza o aborto legal . Há 176 hospitais registrados no Ministério da Saúde como provedores de serviços de aborto legal para vítimas de estupro no Brasil, segundo ou Mapa do aborto legal. Mas ainda existem dificuldades para obter o atendimento, conforme mostrado nessa reportagem.

É importante saber que o uso de estupro não é necessário apresentar boletim de ocorrência por direito ao procedimento. A Norma Técnica de Atenção Humanizada ao Abortamento , Ministério da Saúde, informações sobre o Código Penal não exige nenhum documento para a prática de aborto nos casos de estupro e que uma mulher não é obrigada a notificar o fato à Polícia. “Deve orientar-se a tomar as providências e os responsáveis ​​judiciais cabíveis, mas, caso ela não faça, não pode ser negada ou abortada”, orienta o Ministério da Saúde.

Em todas as demais situações, fazer um aborto ou ajudar um aborto é um crime previsto no Código Penal Brasileiro e pode ser punido com prisão de um a três anos para uma mulher que aborta e até 10 anos para quem realiza o procedimento.

Como é feito ou aborto quando é legalizado

Como leis em relação ao aborto, selecione muito ao redor do mundo. Existem países em que ele é completamente proibido; outros que possuem leis com algumas exceções, como o Brasil; alguns que usam variáveis ​​socioeconômicas para permitir e outros que são completamente legalizados. Nesse mapa do Center for Reproductive Rights, é possível ver como está em todo o mundo. Em alguns países, uma mulher pode tomar o medicamento para fazer aborto em casa, caso da Escócia .

Para direcionar como políticas públicas nos países que permitem uma interrupção da gravidez, uma Organização Mundial da Saúde contém uma orientação técnica para abortar o seguro que trata de tudo: desde os procedimentos para uma interrupção até as orientações sobre contracepção que devem ser dadas à mulher após o procedimento.

O médico ginecologista e professor da Faculdade de Saúde Pública da USP, Jefferson Drezett, explica que o aborto legal no Brasil é feito de acordo com essas orientações. Ele dirigiu por 24 anos ou hospital Pérola Byington, em São Paulo, referência em realização de aborto legal no país.

Uma mulher que busca aborto legal aqui no Brasil tem a possibilidade de fazer uma respiração intrauterina ou tomar o Misoprostol (mais conhecido como Cytotec, seu nome comercial), dependendo da idade gestacional e de outros fatores de saúde. Entenda como é usado cada protocolo.
Antes do aborto

Antes de tudo, é preciso fazer um exame de sangue Beta-HCG quantitativo para confirmar a gravidez. Além disso, o OMS recomenda fazer um ultrassom para ver o tempo da gravidez e também se não estiver no útero.

Caso seja identificado que uma mulher tem uma gravidez ectópica (quando está fora do útero), ela não é viável e representa um risco à vida da mulher, portanto, uma interrupção da gestação é garantida pela lei. O procedimento deve ser feito por um médico, ou o uso de medicamentos nesse caso é perigoso.

Se você não estiver no útero, ou então o aborto pode ser feito por meio da respiração intrauterina ou com remédios.

Onde o aborto é legal, como mulheres sempre passam por uma conversa com psicólogo antes para:
Explicar o que será feito e os riscos envolvidos;
Ter certeza de que ela quer fazer o procedimento;
Garantir que ela não está sendo forçada a abortar - se alguém estiver forçando uma mulher a abortar, no Brasil, ela pode ligar para 180 e fazer uma denúncia.

Aborto com remédios

O aborto com remédios, se feito de forma correta, é um método seguro. A OMS indica duas possibilidades para o aborto com remédio. O primeiro é feito com o uso combinado de dois remédios, o Misoprostol e o Mifepristone. No entanto, como um Mifepristone não é encontrado em todo lugar, existe um protocolo do OMS também seguro para aborto com o uso somente do Misoprostol. No Brasil, nem para aborto legal a Mifepristone está disponível.

Também conhecido como Cytotec (nome comercial ou qual era vendido no passado no Brasil), “o Misoprostol deixa o colo do útero mais macio e fácil de abrir, ao mesmo tempo em que produz contração, para uma expulsão da gestação por um colo mais preparado ”, explica o médico Jefferson Drezett.

Além da interrupção da gravidez, o Misoprostol é usado no SUS para indução de parto, tratamento de hemorragia uterina e amolecimento antes do parto. Segundo dados obtidos via Lei de acesso à Informação pela Revista AzMina , o Ministério da Saúde gastou R $ 18 milhões na compra do Misoprostol em 2018. A venda, no entanto, é feita somente para o Ministério da Saúde no país.

A compra do Misoprostol por mulheres no Brasil ocorre apenas por meio do mercado ilegal ou de algumas ONGs internacionais que enviam medicamentos para mulheres que solicitam, como Mulheres ajudam mulheres , Mulheres na Web e Safe2Choose .

Drezett reforçou a importância do Misoprostol, que no Brasil foi comercializado no passado com o nome de Cytotec, um medicamento para tratamento de doenças gastrointestinais. “O Misoprostol quando chegou ao Brasil, a primeira maneira legal com Cytotec, e agora a maneira clandestina, foi responsável por uma dramática (a palavra é essa) redução de complicações por aborto inseguro”, diz o especialista.

Segundo ele, use um comprimido, ainda que sem orientação médica, é melhor que outros métodos primitivos e perigos que são usados ​​em abortos clandestinos, como inserção de sonda e outros objetos dentro do útero ou uso de ervas e substâncias tóxicas.

A médica Debora Anhaia explica em vídeo que o remédio tem menos riscos de infecção do que um procedimento cirúrgico, principalmente considerando o cenário das clínicas clandestinas no Brasil.

No entanto, esse remédio não pode ser usado por qualquer mulher e nem de qualquer forma.
Como recomendar Misoprostol

Segundo o manual do OMS, o Misoprostol pode ser tomado com segurança por mulheres até 23 semanas de gestação, depois disso não há dados suficientes. O ideal é que o procedimento tenha uma orientação e acompanhamento de um profissional de saúde.

A OMS recomenda o uso de remédio isolado (sem Mifepristone) de duas formas: sublingual ou vaginal. O sublingual é feito colocando os comprimidos sob a língua e esperando meia hora para engolir. O uso vaginal consiste em inserir o comprimido no fundo do canal vaginal, onde ele encontra o útero e espera meia hora deitada.

A organização Women on Web, que ajuda mulheres ao redor do mundo a abortar, reforma que na vagina ou o misoprostol leva até quatro dias para se dissolver e pode ser encontrada nos restos do remédio caso a mulher tenha problemas e tenha alguma recorrência em um hospital.

Uma quantidade remota variável de acordo com o tempo de gestão e nem toda mulher pode usar o Misoprostol. Drezett explica que mulheres com problemas circulatórios e cardíacos podem ter complicações, como aquelas que cicatrizam no útero de cesárea ou em outra cirurgia anterior ou fazem uso de anticoagulantes.

Na imagem abaixo, é possível conferir como dosagens de Misoprostol que o OMS recomenda. Como as pílulas podem ser de 200 ug (microgramas), 400 ug ou até 800 ug. Como as pílulas costumam ser bancadas e têm formato circular ou hexagonal.


Segundo o médico Jefferson Drezett, um índice de sucesso do Misoprostol é de 85% dos casos.
Os efeitos do Misoprostol no corpo

Se tudo correr bem, uma mulher que tomar o Misoprostol vai sentir cólicas fortes e ter um sangramento mais intenso que uma menstruação. A Fundação Orientame, que realiza abortos legais na Colômbia, explica que é comum ter filhos, diarreia, calafrios, vômito e dor de cabeça durante o aborto.

Segundo Drezett, o processo até a expulsão completa do processo pode levar até dois dias. Para controlar o dor, é recomendado o uso do Ibuprofeno uma hora antes de começar a tomar o Misoprostol e novas doses a cada três horas se persistir.
O atendimento pós-aborto no Brasil

Os hospitais brasileiros devem atender as mulheres que recebem complicações com aborto, seja ele espontâneo ou não. Vale lembrar que tudo que está aqui no profissional de saúde está sujeito a um médico, por que médicos e enfermeiros não podem fazer denúncia de mulheres que fizeram aborto ilegal - no entanto, existem casos de mulheres denunciadas por médicos no Brasil.



Uma norma técnica do Ministério da Saúde orienta o atendimento humanizado a todas as mulheres que buscam serviços de saúde após um aborto (seja ele espontâneo ou não). É explicado como proceder caso haja um aborto incompleto, infecção e hemorragia, sem julgamento ou preconceitos com uma mulher.

Apesar dessas orientações, as mulheres ainda encaram uma realidade diferente ao buscar ajuda. A enfermeira e epidemiologista Emanuelle vai estudar como é o atendimento às mulheres que buscam atendimento após o aborto nos serviços de saúde. “Independentemente do tipo de aborto, elas são maltratadas, passadas por dificuldade no atendimento. Meu estudo fez uma observação entre mulheres negras e brancas e mesmo sendo um estigma que atinge todas as mulheres, atinge de forma mais potente como mulheres negras, principalmente como pretas ”, conta.
A aspiração manual intrauterina

O aborto cirúrgico pode ser feito até 12 semanas de gestação e o OMS recomenda a respiração intrauterina manual (AMIU) como procedimento, pois é considerado mais seguro que a curetagem. Nenhum procedimento de respiração, cânulas de plástico são inseridas dentro do útero e usadas para esvaziar-lo. É usado anestesia local ou apenas remédios para dor. A OMS não recomenda anestesia geral para esse procedimento.

“O procedimento é feito pela manhã, no almoço ela pode ir para casa. Não tem dor, recebe anestesia, é muito seguro e tem ótima recuperação ”, explica o médico Jefferson Drezett.

Outro método conhecido é a curetagem, que não é recomendado pelo OMS, por ser mais perigoso. Drezett explica que a curetagem é um processo mais agressivo e demorado que a respiração.

No entanto, uma curadoria ainda feita no Brasil e como o aborto é crime, para casos de aborto legal é difícil ter certeza de qual método uma clínica clandestina vai usar e isso pode colocar a vida da mulher em risco.
Depois do aborto, prevenir a gravidez

O manual do OMS também tem orientações para depois do aborto. Além de indicar remédios para evitar dor, explicar os sintomas possíveis e os sinais de alerta, os médicos devem orientar como mulheres que não têm relações sexuais, nem inserem objetos na vagina, até que pare ou sangre.

Outra recomendação é que as mulheres recebam informações sobre métodos contraceptivos para evitar uma nova gravidez indesejada, como foi o caso de Rebeca Mendes, que colocou o implante contraceptivo já na clínica.

Para abortos realizados ainda no primeiro trimestre e sem complicações, o OMS considera seguras as seguintes opções de contraceptivos:

Pílula,

Adesivo anticoncepcional,

Anel anticoncepcional,

DIU,

Anticoncepcional injetável,

Anticoncepcional,

Implante anticoncepcional,

DIU de cobre e hormonal,

Camisinha,

Diafragma.

Com paineis ilustrativos da revista.



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EDITOR DESTE SITE

Paulo Lopes é jornalista profissional diplomado. Trabalhou no jornal centenário abolicionista Diário Popular, Folha de S.Paulo, revistas da Editora Abril e em outras publicações. WhatsApp de contato.