O que Sheldon Cooper diria do Nobel da Espiritualidade de Marcelo Gleiser?

O gentil Gleiser resistiria
 à sinceridade contundente
 de Sheldon? 

por Ademir Luiz
para Bula Revista

[opinião] O astrofísico brasileiro Marcelo Gleiser ganhou o Prêmio Templeton 2019, criado em 1972, no valor de polpudas 1, 1 milhão de libras esterlinas. Trata-se de uma espécie de Nobel da Espiritualidade.

Entre os vencedores anteriores estão personalidades como Madre Teresa de Calcutá, premiada em 1973; o Dalai Lama, vencedor em 2012, e o arcebispo Desmond Tutu, de 2013.

Foi um grande passo para o homem e alguns passos atrás para a ciência. De acordo com Heather Templeton, presidente da Fundação John Templeton, o objetivo da láurea é celebrar figuras eminentes que professem a “visão que ciência, filosofia e espiritualidade são expressões complementares que a humanidade precisa para abraçar o mistério e explorar o desconhecido”. Muito bonitinho, mas não convence muito os membros da comunidade científica que não são convidados para festas badaladas, cheias de modelos e celebridades pop.

O biólogo britânico Richard Dawkins, no livro “Deus, Um Delírio”, ironizou que o prêmio geralmente é concedido “a um cientista que está preparado para dizer algo legal sobre religião”. Geralmente são esses que ficam mais populares, ganham os melhores cachês para palestras e convites VIP para as melhores baladas. Afinal, é sempre bom ter um cientista cheios de títulos e condescendência para ajudar a refutar seu amigo ateu chato.

Marcelo Gleiser sempre foi um mestre nessa arte. Respeitadíssimo em sua área de atuação, professor de Física Teórica do Dartmouth College, em Hanover (EUA), em 2006 aceitou apresentar uma série de divulgação científica no programa dominical Fantástico, o “Poeira das Estrelas”, uma espécie de Cosmos com o carimbo da Globo. Ganhou bastante visibilidade desde então. Na sátira “Tirando a Poeira das Estrelas”, os humoristas do Casseta & Planeta Urgente deduziram que Marcelo Gleiser “cansou de ser físico e decidiu ser astro”.

Além de hilária essa piada pode conter o único fiapo de explicação possível para o artigo “Ateísmo Radical”, que Gleiser publicou na edição de 26 de novembro de 2006 da “Folha de S. Paulo”. No texto, estranhamente, o astrofísico astro ataca, de forma gratuita, três respeitabilíssimas personalidades do mundo científico: Sam Harris, Daniel Dennett e, claro, Richard Dawkins.

Usa como mote a publicação dos livros “O Fim da Fé”, de Harris, “Quebrando o Feitiço”, de Dennett, e “A Desilusão de Deus”, de Dawkins. Todas as obras propõem debates pragmáticos acerca da dicotomia entre fé e razão.

Gleiser entendeu que o objetivo dos trabalhos é outro: recriar “uma polarização destrutiva”. Reage categórico: “a ciência não deve se propor a tirar Deus das pessoas. Se é essa a sua guerra, então ela já perdeu”. 

A principal vítima de sua ira é o zoólogo britânico Richard Dawkins, autor dos best-sellers “O Gene Egoísta” e “O Relojoeiro Cego”, a quem acusa de acreditar que “a ciência é um clube fechado, onde só entram aqueles que seguem os preceitos do seu ateísmo, tão radical e intolerante quanto qualquer extremismo religioso”. Indignado, Gleiser pergunta: “Será esse o modo de resolver o embate entre ciência e religião?”.

Não é preciso ser vencedor do Nobel em Física para perceber que Gleiser está dançando em terreno minado. Não quanto a sua defesa da religião. Cada um abraça as causas que achar que deve. Seu equívoco está em atacar o discurso científico de Dawkins usando batidos argumentos teológicos. Ora, a ciência é evolutiva por definição. Suas verdades são provisórias. Nada tem de intolerantes ou radicais. Einstein demonstrou que o modelo de universo de Newton não era exato. Hubble fez o mesmo com Einstein. Não houve guerras santas por conta disso. Apenas se somou conhecimento. 

Com dogmas religiosos acontece o contrário. Sustentados por elucubrações teológicas, não admitem contestação. Gleiser acusa Dawkins de não se dirigir a religiosos, que já possuem a mentalidade moldada pela teologia específica de seu credo, mas a indecisos, com o objetivo maquiavélico de levá-los ao ateísmo: leia-se levá-los ao “mau”.

Acusação absolutamente falaciosa. Na verdade, Dawkins dirige seus argumentos a quem quiser ouvir. Afinal, é um divulgador científico. Pressupõe-se que o público almejado pelo divulgador científico é formado por todos aqueles que não são cientistas profissionais, em seu respectivo campo de pesquisa. Ou seja: quase todo mundo.

 Entrevistado pela revista “Veja”, Dawkins afirmou que: “Eu jamais proporia qualquer forma de proibição à atividade religiosa. A resposta está na atividade à qual me dedico: a educação. Quanto mais educação houver, mais teremos discussões racionais e pensamento inteligente, e mais difícil será para a religião sobreviver”. 

Que ninguém duvide que a maioria dos ateus teve formação religiosa. Se mudaram de opinião não foi devido a uma conspiração ateísta, e, sim, pela racionalização que fizeram dos elementos constitutivos de sua fé. A ciência não é um clube fechado. É apenas um clube com regras. Neste caso, Gleiser parece querer seguir a lógica de Groucho Marx: “Não quero entrar para um clube que me aceita como sócio”.


Nenhuma maioria se
sente mais minoria
que a dos religiosos


O grande perigo que Gleiser corre é o de desautorizar a si mesmo em sua tentativa de desautorizar seus colegas cientistas.

Ele acusa Dawkins de “negar a necessidade que a maioria das pessoas tem de associar uma dimensão espiritual às suas vidas”. Imagino se ele seria tão compreensivo se um de seus alunos norte-americanos, país onde o Criacionismo é forte, em uma avaliação sobre o Big Bang, relacionasse a explosão que espalhou matéria pelo universo com a imagem de uma divindade humanoide e barbuda, gritando Fiat Lux no vácuo. Ele seria “intolerante” como Dawkins e presentearia o carola com um zero, tachando-o de “cientista incompetente”, ou aceitaria que o estudante é apenas mais um que se “entrega à natureza e aos seus mistérios”?

Mas outra pergunta é mais importante: o que justifica uma atitude tão anticientífica vinda de um homem sério e competente como Marcelo Gleiser? Não sei, mas imagino que seja um efeito colateral da fama proporcionada pela série “Poeira das Estrelas” e seus desdobramentos. 

Um “físico” tem apenas responsabilidades acadêmicas, já um “astro” precisa agradar sua plateia. Em nosso mundo pós-moderno, multicultural, ser um racionalista pragmático é politicamente incorreto.

Não há nada mais em moda do que o discurso da tolerância. E, atualmente, nenhuma maioria se sente mais minoria do que a dos religiosos. Os crédulos são confrontados diariamente com evidências científicas que jogam por terra séculos e séculos de verdades místicas. Para eles a única defesa possível é a negação. Acusar a ciência de arrogante, de fanática, de fria, de desumana. Ser cientificista tornou-se sinônimo de bitolado. Virou xingamento.

Se Gleiser decidiu atrelar-se a essa tendência, custo crer que tenha sido por convicção. Foi por inércia? Afinal, Gleiser é um “corpo” posto em movimento. Tende a permanecer em movimento, não em linha reta, mas na trajetória que impor menor resistência. 

Astrofísicos ateus existem aos montes. Agora, astrofísicos ateus, porém jovens, galãs, engajados, com sotaque carioca carregado e o doce discurso da tolerância à diversidade na ponta da língua, isto é um sonho da mídia. É fantástico! E 1,1  milhão de libras esterlinas sempre vão bem. 

Nada mais confortável do que ser um idealista que lucra com seu ideal. Neste clube é sempre bom entrar.

Só fico imaginando como Gleiser se explicaria para um colega menos cavalheiro que Dawkins. Um Sheldon Cooper da vida real. 

Em sua sinceridade esmagadora talvez esse “Sheldon” dissesse: “Ainda existe esse Nobel da Espiritualidade? E deram para um físico brasileiro? Pelo menos o doutor Lattes e o doutor Oliveira não mancharam suas reputações com isso. Um fato curioso sobre o Brasil é que os nativos dizem que Deus é brasileiro. Lá Deus não joga dados, Deus joga capoeira. Bazinga!!!!!”

Originalmente, o texto foi publicado com o título "Marcelo Gleiser, não conte para Sheldon Cooper de seu prêmio". A montagem a acima das fotos é deste site.




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Comentários

deuses Existem? disse…
Religião & Ciência?
“A ciência tem provas sem certeza. Os teólogos têm certeza sem qualquer prova.”
- Ashley Montagu
Mito:
Ateus adoram a ciência. A tecnologia é a sua igreja, a evolução é o seu credo, Darwin é o seu profeta, e os cientistas são os seus sacerdotes.
Resposta de Christopher Hitchens:

“Nós não nos baseamos unicamente na ciência e na razão, porque esses são fatores mais necessários que suficientes, mas desconfiamos de tudo o que contradiga a ciência ou afronte a razão. Podemos diferir em muitas coisas, mas respeitamos a livre investigação, a mente aberta e a busca do valor das ideias”.

A definição de ciência apresenta alguns problemas para as pessoas. Todo mundo parece ter uma ideia do que é ciência. A ignorância sobre a ciência não é uma opção viável, mas infelizmente não é muito difícil encontrar apologistas religiosos espalhando mal-entendidos. A ciência é mais bem definida pela metodologia científica, uma compreensão exata da ciência também significa entender por que a ciência é superior à fé, intuição, ou qualquer outro método de aquisição de conhecimento.

Mais respostas:

Teístas religiosos acreditam que todos tem algum tipo de religião e por vezes, concluem que a religião que os ateus adoram deve ser a ciência. Ciência não é apenas humanismo secular e ceticismo, mas também é responsável por derrubar muitos dos mitos, doutrinas e crenças que têm sido fundamentais para as religiões. Ciência tem conflitos com as religiões não por que é uma religião em si, mas porque as religiões conflitam geralmente com a realidade.
A característica mais comum e fundamental da religião é a crença em seres sobrenaturais geralmente, mas nem sempre em deuses. Poucas são as religiões que não têm essa característica, mas a maioria das religiões é fundada sobre crenças. A ciência envolve a crença em seres sobrenaturais como deuses? Não! Muitos cientistas são teístas e ou religiosos de diversas maneiras, enquanto muitos outros não são. As escolhas religiosas dos cientistas não têm nenhuma validade científica. O valor da opinião de um cientista é proporcional às evidências que ele apresenta. Cientistas também se deixam iludir por religiões. A própria ciência como disciplina e profissão é ateísta e secular, não promove nenhuma crença religiosa ou teísta. A diferença entre o Ateísmo e o Teísmo, tem grande significado, no ceticismo, razão, lógica, e ciência de um lado e fantasia, intuição, submissão e tradição de outro lado.
Ciência é provavelmente a instituição mais importante e influente no mundo moderno, utilizando o método científico que deu à humanidade mais conhecimento, mais benefícios e mais vantagens do que qualquer outra coisa no passado incluindo a religião. Alguns teístas religiosos viriam a ver paralelos entre as duas mesmo para o ponto onde eles pensam que a ciência serve a totalidade ou parte das mesmas funções que a religião faz por eles e usado para fazer por toda a sociedade.
Nenhuma das opções acima torna a ciência uma religião, no entanto. As definições da religião são geralmente divididas em duas categorias: materiais e funcionais. As definições de fundo procuram identificar uma "essência" básica que existe em todas as religiões. As escolhas mais comuns incluem a crença em deuses ou crença em algo "sagrado". Embora essas definições sempre confiem em algo que não se aplica a algumas religiões, nenhuma delas descreve qualquer "essência" da religião que se aplica à ciência.
Definições funcionais da religião buscam identificar as funções sociais, políticas ou psicológicas que as religiões possuem para os seres humanos. Escolhas comuns para isso incluem fornecimento de estrutura social, o ensino moral, criar comunidades. Muitas das instituições sociais que criam a estrutura social ou criam comunidades estão fortemente influenciados pela ciência. Isso não é porque a ciência é intrinsecamente religiosa, no entanto, mas porque a ciência no mundo moderno não pode ser ignorada.
deuses Existem? disse…
ALGUMAS DIFERENÇAS ENTRE RELIGIÃO E A ESPIRITUALIDADE:
A espiritualidade pode ser definida como uma "propensão humana a buscar significado para a vida por meio de conceitos que transcendem o tangível, à procura de um sentido de conexão com algo maior que si próprio". O maçom é um Ser livre, ou seja, pode ser um livre pensador, livre caminhante e de bons costumes, que significa ético, buscador de uma moral mais espiritualizada. (Texto abaixo readaptado de Pierre Teilhard de Chardin e Guido Nunes Lopes ).

*A religião e deuses não é apenas uma ou um, são milhares.
A espiritualidade é apenas uma.
*A religião é para os adormecidos e doutrinados.
A espiritualidade é para os curiosos que estão despertos.
*A religião é muleta para aqueles que necessitam que alguém lhes diga o que fazer e querem ser guiados.
A espiritualidade é ceticismo, racionalismo para os que prestam atenção à sua Voz Interior.
*A religião tem um ritual de iniciação, conjunto de doutrinas, regras dogmáticas a cumprir.
A espiritualidade te convida a raciocinar sobre tudo, a questionar e concluir sobre tudo.
*A religião ameaça e amedronta com a punição divina.
A espiritualidade lhe dá Paz Interior e a moral laica sem medo.
*A religião fala de pecado e de culpa e do conflito entre o bem e do mal.
A espiritualidade lhe diz: "aprenda com o erro"... o conflito é entre a ignorância e o conhecimento.
*A religião reprime tudo, impõe comportamentos, te faz iludido.
A espiritualidade transcende tudo, te faz verdadeiro!
A religião quando a pessoa está enferma é a fé de sentir-se na palma da mão de Deus. Entregar-se em confiança, à sua vontade, desejando em oração ardentemente a cura...
deuses Existem? disse…
A espiritualidade em caso de pessoa doente é a crença na bondade dos procedimentos da medicina, confiança na competência dos médicos, enfermeiros e auxiliares.
*A religião tem assessores de um Deus que lhe oferecem o Reino de Deus.
A espiritualidade é tudo e, portanto é só você e o Reino da sua Consciência.
*A religião inventa milagres e revelações, não indaga nem questiona e faz acreditar sem evidências.
A espiritualidade questiona, descobre, compara e confronta tudo com as Leis da Natureza.
*A religião é causa de perseguições, confrontos, divisões, guerras religiosas.
A espiritualidade é causa de União.
*A religião lhe busca para que
mitológicas, fábulas, superstições e lendas de um livro sagrado. acredite.
A espiritualidade você tem que buscá-la.
* A religião para você ser feliz tem que ser amigo de Jesus ou Deus/Jeová/Alá/Shiva.
A espiritualidade não lhe pede para seguir conselhos de amigos imaginários.
*A religião segue os preceitos e revelações
A espiritualidade busca a verdade em todos os livros.
*A religião se alimenta do medo do misterioso, da morte.
A espiritualidade se alimenta na Confiança e na Fé em si mesmo.
*A religião faz viver e acreditar adorar com fé em seres sobrenaturais e ilusórios.
A espiritualidade faz Viver na Consciência. Ciência, razão e livre investigação de um lado e fantasia, intuição, submissão e tradição na outra.
*A religião se ocupa com a superstição e sobrenatural, acreditar, seguir e fazer.
A espiritualidade se ocupa com o Ser em si. Tornar-se livre de rituais, martírios, oferendas, homenagens e provações.
*A religião alimenta o ego.
A espiritualidade nos faz evoluir.
*A religião nos faz renunciar ao mundo para sermos felizes no outro após a morte.
A espiritualidade nos faz aqui e agora, conviver com as Leis da Natureza, não renunciar a ela.
*A religião é tradição familiar, adoração, submissão.
A espiritualidade é Meditação e o Livre Pensamento.
*A religião não dá o Livre Arbítrio total.
A espiritualidade você tem liberdade de escolha e exerce o seu Livre Arbítrio.
*A religião sonha com julgamento divino, medo e culpa, salvação, a glória e com o paraíso do Reino dos Céus.
A espiritualidade nos faz viver a glória e o paraíso hoje.
*A religião vive com promessas do passado e do futuro que não serão cumpridas.
A espiritualidade dá Sentido à Vida vive no presente.
*A religião enclausura e anestesia nossa memória nos deixando na infância da ignorância.
A espiritualidade liberta nossa Consciência.
*A religião crê no misticismo, em fogo do inferno, anjos, arcanjos, alma, espírito e na vida eterna.
*A espiritualidade nos faz consciente da vida antes da morte não uma vida ilusória futura.
*A religião promete pessoas ressuscitarem, o paraíso, purgatório ou inferno para depois da morte.

A espiritualidade é praticar o Humanismo Secular Moderno encontrar "deus" em nosso Interior durante a vida, é nós tornarmos... homo Sapiens Deus!

Unknown disse…
Queria ver o que ele diria sobre a compatibilidade entre religião e Ciência se um aluno (ele dá aulas?) escrevesse em uma prova que não acredita no Big Bang porque crê que o universo foi criado em 6 dias, ou que não acredita na evolução porque o homem foi criado do barro e a mulher de uma costela...