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Descrença em Deus é quase inexistente no Brasil, mostra pesquisa

Levantamento do Iser com a Quaest aponta que quase a totalidade dos brasileiros crê em Deus; em 2023, o Ipsos registrou 89%, mas as metodologias diferentes impedem a comparação



Praticamente todos os brasileiros dizem acreditar em Deus: 98%, segundo pesquisa do Iser (Instituto de Estudos da Religião) em parceria com a Quaest. Ou seja, a descrença é quase inexistente no país.



O levantamento ouviu 15 mil pessoas de 16 anos ou mais em 412 municípios, entre 14 de janeiro e 10 de fevereiro de 2026. A margem de erro é de um ponto percentual. Os dados foram divulgados pela Folha de S.Paulo.

A pesquisa Global Religion 2023, do Ipsos, havia apurado índice menor: 89% dos brasileiros disseram crer em Deus ou em algum poder superior. Só 5% declararam não acreditar em nada disso, conforme noticiou o Paulopes.

A rigor, os dois percentuais não podem ser comparados. Foram obtidos por institutos diferentes, com metodologias diferentes, e não integram a mesma série. A diferença de nove pontos não indica alta da religiosidade.

O Iser/Quaest é um estudo nacional, com amostra grande e pergunta ampla sobre a existência de Deus. O Ipsos, feito em 26 países, padroniza as perguntas e oferece opções como "força superior" e "não sei".

No Ipsos, 70% dos brasileiros disseram crer no Deus descrito nas escrituras, como a Bíblia ou o Alcorão, e 19% numa força superior distinta dessa figura. Outros 4% não tinham certeza e 2% não responderam.

No ranking do Ipsos, o Brasil teve o segundo menor índice de ateus entre os 26 países. A média geral foi de 21%. Na Coreia do Sul, os que não creem em Deus somaram 44%; na Holanda, 42%; na Suécia, 39%.

Em 2007, pesquisa Datafolha registrara 97% dos brasileiros que diziam acreditar totalmente na existência de Deus. Também nesse caso a pergunta e a amostra eram outras, o que impede a comparação direta.

Sem religião não é sinônimo de ateu. Os que se declaram sem religião somam 14% da amostra do Iser/Quaest, e 88% deles afirmam ter fé. Os 12% restantes do grupo equivalem a cerca de 1,7% dos entrevistados.

Estudiosos já apontavam que essa categoria reúne perfis variados, de desigrejados a pessoas que transitam entre crenças, como mostrou o Paulopes em reportagem sobre a tipologia dos sem religião.

A crença não se limita ao Deus cristão. Embora 8 em cada 10 brasileiros sigam o catolicismo (50%) ou uma igreja evangélica (29%), 68% acreditam em espíritos e 37% em reencarnação, ideia que as duas rejeitam.

A reencarnação é aceita por 2 em cada 10 evangélicos e 4 em cada 10 católicos. Espíritas e seguidores de religiões afro-brasileiras aderem mais a essas crenças, reflexo do histórico sincretismo religioso do país.

O pastor Pedro Barreto, da Comunidade Batista do Rio, no Rio de Janeiro (RJ), contou à Folha que crê em espíritos bons e maus, que chama de anjos e demônios. Rejeita a reencarnação com base na Epístola aos Hebreus.

A pesquisa também mediu crenças sem comprovação científica. Afirmam já ter tido o pressentimento de que algo ruim iria acontecer 73% dos entrevistados, e 58% tratam a saúde com folhas e ervas.

O medo do mau-olhado atinge 2 em cada 3 brasileiros, e 47% acreditam em feitiço. Dois terços creem em demônio ou em figura equivalente do mal, base da chamada batalha espiritual pregada em igrejas pentecostais.

A Igreja Universal do Reino de Deus, por exemplo, associa problemas financeiros, familiares e de saúde a ações espirituais negativas, que classifica como feitiçaria e "amarrações".

Superstições de calendário têm menos adesão: 36% vestem branco no Ano-Novo para atrair paz, 31% batem na madeira para afastar o azar e 15% fazem simpatias na virada do ano para ter sorte.

A certeza de que existe céu ou paraíso é compartilhada por 8 em cada 10 brasileiros, índice que chega a 92% entre os evangélicos e a 64% entre os sem religião. E 73% usam versículos bíblicos como ensinamento.



Para a antropóloga Lívia Reis, do Iser, uma das coordenadoras do estudo, a crença no mal foi incorporada como repertório cultural, não só religioso, o que explica a batalha espiritual fora do pentecostalismo.

Segundo a pesquisadora, a religiosidade brasileira é fluida. Ela citou o caso de uma entrevistada que se dizia católica praticante, frequentava uma Assembleia de Deus e acreditava em reencarnação.

Os católicos se dividem entre 31% de praticantes e 19% de não praticantes. A religião é mais forte no Nordeste, sobretudo no Piauí (73%), e entre os mais velhos: 65% dos brasileiros com 60 anos ou mais.

Os evangélicos concentram-se no Norte, onde são 4 em cada 10 moradores, com destaque para o Amazonas (45%). Entre pretos e pardos, 31% são evangélicos; entre brancos, 26%. Os desigrejados somam 10% dos fiéis.

As Assembleias de Deus reúnem 32% dos evangélicos, e 7 em cada 10 fiéis desse segmento são pentecostais. Quanto mais jovem o entrevistado, maior a chance de ele se declarar evangélico.

As crenças pessoais não se confundem com os dados do Censo do IBGE, que mede filiação religiosa. Em 2022, os católicos caíram para 56,7% da população, ante 65,1% em 2010.

No mesmo período, os evangélicos subiram de 21,6% para 26,9%, e os sem religião, de 7,9% para 9,3%. O Censo registra a religião declarada, não se a pessoa acredita ou não em Deus.

Com informações de Folha de S.Paulo, Iser (Instituto de Estudos da Religião), Quaest, Ipsos, IBGE e com outras fontes.

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