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É possível se sentir honesto receitando remédio sem fundamentação científica?

A medicina alternativa seduz ao se apresentar como humana, holística e centrada no paciente. Ao promover teorias sem respaldo científico, porém, seus praticantes corrompem a base de toda medicina: a honestidade


Edzard Ernst
professor emérito da Escola de Medicina da Península, na Universidade de Exeter, Inglaterra
professor


Na minha opinião, a honestidade deveria ser a base da vida – e isso, claro, inclui a área da saúde. Os pacientes confiam sua saúde aos médicos acreditando que os diagnósticos são precisos, os tratamentos são eficazes e as recomendações são baseadas em evidências confiáveis. 


Uma vez que a honestidade é comprometida, a confiança foi quebrada, o consentimento informado torna-se impossível, a relação terapêutica está corrompida e a qualidade dos cuidados de saúde torna-se questionável.

A chamada medicina alternativa está sendo promovida como humana, holística e centrada no paciente. 

Como indivíduos racionais, devemos nos perguntar: essas características são verdadeiras? 

Embora a maioria dos praticantes da medicina alternativa provavelmente acredite estar ajudando seus pacientes, as diversas modalidades sob o guarda-chuva dessa "especialidade" se baseiam em alegações que são imprecisas e, possivelmente, desonestas.

Quatro exemplos populares podem ilustrar esse padrão.


1 - Acupuntura

A acupuntura tradicional baseia-se nos mitos dos meridianos, pelos quais supostamente flui o qi, uma energia vital. Apesar de inúmeras pesquisas, nenhuma estrutura anatômica correspondente aos meridianos jamais foi identificada, nem a existência do qi foi comprovada.

A acupuntura moderna (ocidental) evita esse problema abandonando suas explicações tradicionais em favor de teorias neurofisiológicas que parecem mais convincentes. 

Isso, claro, é uma admissão implícita de que o fundamento original da acupuntura está incorreto. 

Ao mesmo tempo, muitos praticantes continuam a exibir mapas de meridianos, diagnosticar distúrbios de qi e anunciar tratamentos baseados em conceitos que sabem ser irreconciliáveis ​​com o nosso conhecimento atual.

Ambos os tipos de acupuntura fazem muitas alegações sobre benefícios para a saúde. Se as analisarmos cuidadosamente, constatamos regularmente – como discutido em várias publicações anteriores – que elas não são sustentadas por evidências sólidas e são falsas.

A desonestidade cotidiana no campo da acupuntura não reside necessariamente na mentira consciente, mas na apresentação de mitos, na omissão da verdade e na substituição do conhecimento médico por meras ilusões, transformando uma linguagem de tom científico em absurdos pseudocientíficos sempre que isso se mostra vantajoso e lucrativo.

2 - Quiropraxia

A quiropraxia teve origem na afirmação de D.D. Palmer de que a maioria das doenças resulta de "subluxações" vertebrais que obstruem o fluxo da força de cura inata do corpo. Esse conceito não tem nenhuma semelhança com o significado ortopédico de subluxação e nunca foi comprovado.

No entanto, parcelas consideráveis ​​da profissão quiroprática (os "tradicionalistas") continuam a diagnosticar essas lesões místicas, muitas vezes alegando detectá-las por meio de exames de raio-X ou palpação, apesar da baixa confiabilidade e da falta de validação objetiva. 


Os pacientes são frequentemente informados de que a correção dessas subluxações resolverá as causas principais de problemas que vão desde asma e distúrbios digestivos até o bem-estar geral ou o desempenho atlético.

Muitos quiropráticos (os "misturadores") estão agora ansiosos para se distanciar publicamente dessas crenças irracionais. No entanto, a educação em quiropraxia, as organizações profissionais e o marketing continuam a promovê-las porque o modelo de negócios da quiropraxia depende delas.

Tanto os quiropráticos tradicionais quanto os que misturam técnicas fazem muitas alegações sobre saúde. 

Se investigadores independentes as examinarem, descobrirão regularmente que elas não são apoiadas por evidências sólidas e são falsas. 

Ambos os tipos de quiropráticos garantem aos pacientes que suas manipulações da coluna vertebral são seguras. Ambos tendem a ignorar o fato de que isso está longe de ser verdade.

Assim, a profissão quiroprática ocupa uma posição desconfortável: publicamente, adota evidências, enquanto simultaneamente se baseia em conceitos que as evidências não conseguiram comprovar; e publicamente, favorece a medicina baseada em evidências, enquanto lucra com alegações de saúde que não são sustentadas por evidências confiáveis.


3 - Naturopatia

A naturopatia busca ser vista como uma medicina que trabalha "com a natureza", utilizando modalidades terapêuticas fornecidas por ela. 

A implicação é clara: tratamentos naturais são mais seguros, mais suaves e inerentemente superiores à medicina convencional, que se baseia em substâncias sintéticas e é repleta de riscos.

Essa apelação à natureza é intelectualmente desonesta porque a própria natureza, obviamente, não oferece nenhuma garantia de segurança ou eficácia. 

Arsênico, ricina, beladona, ondas de calor, tsunamis e inúmeros organismos infecciosos são inteiramente naturais e, ao mesmo tempo, perigosos. 

Observa-se que muitas das conquistas da medicina, como vacinas ou novos medicamentos, são produtos da ciência moderna, e não da natureza intocada.

A maioria dos diversos tratamentos naturopáticos carece de evidências convincentes de eficácia, embora o material promocional dos naturopatas tente fazer crer o contrário. 

Frequentemente, destaca séculos de uso tradicional, relatos de sucesso ou conceitos falaciosos como desintoxicação ou restauração do equilíbrio. Essas alegações criam uma ilusão de legitimidade científica sem fornecer as evidências rigorosas esperadas da medicina convencional.

A desonestidade no campo da naturopatia reside em apresentar conceitos falaciosos como conhecimento médico e em fazer inúmeras alegações de saúde que estão longe de serem baseadas em evidências.

4- Homeopatia


Poucas fraudes ilustram a desonestidade fundamental com tanta clareza quanto a homeopatia. Suas principais alegações — de que semelhante cura semelhante e de que as substâncias se tornam mais potentes quando diluídas (potencializadas) — são incompatíveis com a ciência.

Esses fatos não impedem que inúmeros homeopatas comercializem remédios feitos com inúmeros materiais (e alguns itens imateriais, como o vácuo, por exemplo) para inúmeras doenças. 

Em vez de admitir a verdade, os homeopatas tendem a enfatizar a satisfação do paciente, a tradição ou as limitações da medicina convencional. 

Seu objetivo não é informar o público com honestidade, mas sim impulsionar seus negócios de venda de medicamentos falsos aos seus pacientes.

Alguns homeopatas afirmam que a homeopatia funciona por meio de mecanismos ainda não compreendidos pela ciência. 

Tais argumentos, na prática, pedem aos pacientes que aceitem alegações extraordinárias sem evidências convincentes. O que eles nunca revelam ao público é que mais de dois séculos de pesquisa não conseguiram produzir evidências clínicas robustas que demonstrem efeitos da homeopatia além do efeito placebo em sequer uma única doença ou sintoma humano.

A desonestidade no campo da homeopatia reside em apresentar conceitos falaciosos como ciência sólida, fazendo inúmeras alegações de saúde como sendo baseadas em evidências sólidas e, assim, causando danos incalculáveis ​​ao impedir que pacientes confiantes recebam tratamentos eficazes.

Existe algum padrão?

Esses quatro exemplos (eu poderia, é claro, ter escolhido quase qualquer outra forma de golpe) diferem em muitos aspectos, mas compartilham semelhanças impressionantes: 

empregam conceitos sem respaldo científico

usam linguagem científica (ignorando os padrões científicos quando lhe convém);  

citam seletivamente estudos positivos, enquanto ignora ou descarta evidências negativas; 

retratam o ceticismo como uma mentalidade fechada, em vez de uma atitude razoável e produtiva para alcançar o progresso; 

Cada golpe incentiva os pacientes a acreditarem que estão recebendo cuidados de saúde baseados em evidências, quando claramente não estão.

Isso significa que todo profissional de saúde alternativa que pratica charlatanismo age com malícia? Não. Conheço muitos que acreditam sinceramente no que praticam. 

Autoengano, viés de confirmação, incentivos financeiros e identidade profissional podem reforçar crenças. E a crença sincera pode tornar os charlatães mais socialmente aceitáveis; ao mesmo tempo, também os torna mais perigosos!

Sejamos claros: a crença não é uma base suficiente para trabalhar como profissional de saúde, e os profissionais de saúde que praticam charlatanismo têm o dever ético de estarem plenamente informados sobre as evidências de suas ações.

A desonestidade fundamental em fraudes médicas não precisa assumir a forma de mentiras descaradas. Geralmente, é muito mais sutil, consistindo em apresentar especulações como fatos, anedotas como evidências, tradições como validação e teorias implausíveis como conhecimento médico. Ela prospera por meio da omissão. 

A medicina exige honestidade e os pacientes merecem transparência. Merecem saber quando os tratamentos são apoiados por evidências convincentes de eficácia e segurança, e quando os mecanismos propostos contradizem a ciência. 

Sem essa honestidade, os fundamentos éticos da assistência à saúde desmoronam.



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