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O ebola está de volta – e também a exploração dos charlatões da cura

O consumo de cebola crua, gengibre ou pimenta-da-guiné não previne infecções. Essas “curas naturais” não são validadas pelo método científico


Edzard Ernst
professor emérito da Escola de Medicina da Península, na Universidade de Exeter, Inglaterra
professor

Durante surtos da Doença do Vírus Ebola (EVD), organizações de saúde pública como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) combatem as “infodemias”, ou seja, a disseminação de informações falsas e práticas de medicina alternativa sem comprovação científica que contaminam as redes sociais.


Como essas práticas são ineficazes e frequentemente perigosas, as autoridades emitem alertas contra o seu uso. Aqui estão apenas alguns exemplos das muitas alegações que podem ser encontradas:

— Tomar banho ou beber soluções de água salgada quente e altamente saturada pode eliminar o vírus Ebola pelo suor ou matá-lo (Fung et al., 2016). 

As agências de saúde pública desaconselham veementemente essa prática. Ela não previne nem trata a doença pelo vírus Ebola e pode causar doenças graves e morte por hipernatremia aguda (Vijaykumar et al., 2019).

— Soluções contendo nanopartículas de prata atuam como poderosos antimicrobianos naturais capazes de neutralizar o vírus Ebola dentro do organismo (Fung et al., 2016). 

A OMS declarou explicitamente que a nanoprata é um composto sem eficácia comprovada contra o Ebola. 

As autoridades recomendam evitar esses produtos, pois o acúmulo de prata pode causar danos irreversíveis aos órgãos e uma condição chamada argiria (que deixa a pele permanentemente azulada/acinzentada).

— O consumo de grandes quantidades de itens botânicos específicos, como cebola crua, gengibre ou pimenta-da-guiné, pode prevenir infecções (Nsoesie & Oladeji, 2020). Essas “curas naturais” não possuem efeitos terapêuticos capazes de interromper a replicação viral da família dos filovírus. 

Confiar nelas cria uma falsa sensação de segurança, o que atrasa a triagem e o tratamento de suporte necessários para salvar vidas, com base em evidências científicas (Fridman et al., 2025; Nsoesie & Oladeji, 2020).

— A doença do Ebola tem sido atribuída a maldições espirituais ou feitiçaria que só podem ser revertidas por meio de práticas tradicionais de purificação espiritual (Bedrosian et al., 2016). 

Organizações de saúde pública trabalham em conjunto com as comunidades locais para que estas abandonem essas práticas. 

O atraso na intervenção médica em busca de cura espiritual tradicional aumenta drasticamente a transmissão comunitária e impede que os pacientes recebam terapias antivirais de última geração e reposição de fluidos, reduzindo as taxas de sobrevivência (Obol & Nzedibe, 2024).

— Um homeopata comercializava “remédios eletrônicos” online, alegando que a “assinatura energética” de um remédio poderia ser digitalizada em um arquivo de áudio (Moffitt, 2018). 

Ele afirmava que ouvir um arquivo MP3 específico, com um chiado característico, poderia estimular o sistema imunológico do corpo a combater o Ebola. Isso levou a uma investigação do Conselho Médico da Califórnia sobre a licença do médico por promover remédios online não científicos e sem comprovação científica (Moffitt, 2018).

— Alguns quiropráticos afirmam que manipulações da coluna vertebral podem prevenir infecções por Ebola, porque desalinhamentos interferem no sistema nervoso. 

Como o sistema nervoso coordena as respostas imunológicas, esses desalinhamentos enfraquecem a capacidade do corpo de reconhecer e destruir o vírus Ebola (Terry Chiropractic Boulder). 

As pessoas “não têm nada a temer além do próprio medo” em relação a surtos se mantiverem suas colunas devidamente alinhadas para maximizar sua imunidade inata natural. 

Autoridades globais de saúde pública e instituições científicas renomadas rejeitam veementemente essas afirmações. Não há nenhuma evidência científica confiável que demonstre que a manipulação manual da coluna vertebral aprimore a competência imunológica ou proteja um indivíduo contra o Ebola (Côté et al., 2020).

— A infecção por Ebola exige tratamento médico imediato e profissional. Os tratamentos incluem terapia com anticorpos monoclonais, juntamente com cuidados intensivos de suporte. Recorrer a remédios encontrados na internet atrasa significativamente o tratamento clínico adequado e aumenta o risco de mortalidade.



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