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Diário de um coveiro: 'Você chega e vê uma mãe sozinha para sepultar o filho'

A jornalista Camila Appel, do blog 'Morte sem tabu', da Folha, colheu depoimentos de um coveiro de São Paulo por alguns dias, compondo um diário destes tempos de peste.

Seguem trechos:

 “Ainda não são 7 horas e eu vou começar minha jornada agora. Eu saio de casa e dou uma boa caminhada até o cemitério. Eu não faço oração nenhuma, não sei se vou sair, ou se vou ficar infectado. Eu não sei. Não penso em nada”.

“Bom dia. Sem frio nem calor. São seis e pouco. Comi bastante batata e um naco de banana. Vou para frente. Só penso em poder terminar. Meu corpo ta cansado de ontem ainda e de anteontem. Espero que o vírus não nos atinja, mas não tenho certeza não”.

'A MAIORIA DOS CORPOS VEM
DE FAMÍLIAS QUE NÃO TÊM
DINHEIRO NEM PARA COMER'

“Aqui as coisas vão chegando e indo numa coisa triste, mecânica e dolorosa. Já cedo, chegam duas pessoas com esse mal que ninguém sabe ao certo o que é. Acho que é vírus né? O que impera mesmo é o silêncio. O medo é tão denso que dá a impressão que dá para pegar com a mão. Todo mundo se evita”.

“Quando o corpo se decompõe, ele fica boiando na sua própria água, um líquido chamado chorume. Essa água vaza para o lençol freático. No caso dos Covid-19, a água não pode vazar, então os caixões precisam ser impermeabilizados. Eles são revestidos por um tecido impermeabilizante e os corpos são embalados em saco impermeável também. Se fosse empregado o sistema inglês, das covas já feitas de um material de pedra que já impede que logo líquido chegue até o lençol freático, evitaria tudo isso.”


“O processo de liberação do corpo de família pobre é mais burocrático, precisa de laudo da polícia… Ficaríamos com um monte de corpos parados, como é o caso da Itália. Só tem um crematório em São Paulo.”

“O trabalho é penoso. Você chega lá e vê uma mãe chegando sozinha, absolutamente só, para sepultar um filho, sem mais ninguém. Quem é que consegue tirar o caixão dessa mãe? Isso é penoso no mundo todo.”

“A qualquer momento o caixão vira e você toma um banho daquele caldo, daquele caldo de cadáver. Tudo isso deveria ser previsto. Mas o Brasil não conta nem com protocolo para sepultar né? Nenhum legislador imaginou que o próprio filho seria sepultador. Deveria ser obrigatório vacina contra hepatite, tétano e H1N1. A campanha da gripe por exemplo vai para todo o pessoal da saúde. Mas para quem lida com o cadáver que conte com a ajuda de Deus, nosso senhor Jesus Cristo, com Budha, Alá, Pai de Santo, tudo né? Essa é a ciência brasileira.”

Íntegra do texto.




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