Por que não há políticos ateus nos EUA, embora haja mais sem religião?

Houve diversificação
 na apresentação de
 candidatos, mas os ateus
 permanecem ausentes


por David Smith
para The Guardian

A eleição presidencial nos EUA produziu o mais diversificado campo de candidatos da história. Há mulheres, negros e um homem abertamente gay. Existem bilionários, socialistas e um guru de autoajuda. A visão do senador Bernie Sanders, de Vermont, sobre a religião não está particularmente clara, mas não há nenhum ateu conhecido.

Os não crentes continuam sendo muito poucos na política norte-americana. No Congresso, o único a “sair do armário” publicamente como tal foi Jared Huffman, um democrata que representa o segundo distrito da Califórnia e um dos principais defensores do impeachment de Donald Trump.

Huffman anunciou no fim de 2017 que ele é um humanista, não um ateu. Em uma entrevista em seu escritório no Capitol Hill, ele se caracterizou como “não religioso, humanista, espiritual, embora sem nenhum dogma em particular. Eu sou um errante espiritual. ‘Buscador’ seria uma palavra perfeitamente boa também”.

Perguntado sobre como ele definiria “espiritual”, Huffman disse: “Estou interessado na moral e nos valores que nos mantêm unidos, nas coisas que ao longo do tempo foram realmente os fundamentos de muitas religiões, mas eu acho que muitas coisas da religião organizada não funcionam para mim, a ponto de eu realmente não poder encontrar o meu espaço nela”.

Huffman, 55 anos, não deseja imitar militantes como Richard Dawkins ou Christopher Hitchens.

“O ateísmo parece trazer consigo a noção de ser antirreligião, ao contrário de não religioso”, disse ele. “Eu prefiro ‘não religioso’ porque quero que todos façam suas próprias escolhas religiosas. Eu não sou contra o fato de se ter uma religião.”

“Eu nunca chamaria a religião de algo categoricamente ruim. Eu vejo muitas coisas boas ocorrendo por parte das pessoas de fé e até da religião organizada. Eu acho que a encíclica do papa Francisco foi uma das afirmações de maior impacto sobre as mudanças climáticas e a natureza nos últimos tempos e tenho visto outras manifestações de liderança realmente grandes em questões morais importantes por parte das pessoas de fé. Tenho visto muitas coisas nojentas e imorais também. Então, é uma verdadeira mistura.”

Uma pesquisa da Gallup publicada em maio testou a disposição dos estadunidenses de votar em candidatos presidenciais de certos grupos. Cerca de 96% disseram que estavam dispostos a votar em um candidato negro, seguidos por aqueles que votariam em um católico e hispânico (95% cada), em uma mulher (94%), em um judeu (93%), em um cristão evangélico (80%), em um gay ou lésbica (76%), em alguém com menos de 40 anos (71%), em um muçulmano (66%) e em alguém com mais de 70 (63%).

A parte de baixo da tabela trazia um ateu (60%), seguido de uma coisa considerada ainda pior: um socialista (47%). No entanto, a porcentagem de norte-americanos dispostos a votar em um ateu foi mais de três vezes maior do que os 18% registrados pela Gallup em sua primeira mensuração, em 1958.

A maioria dos candidatos democratas em 2020 faz referências à sua fé. O ex-vice- presidente Joe Biden, católico, usa o terço do seu falecido filho Beau em seu pulso esquerdo. A senadora Elizabeth Warren, de Massachusetts, metodista, disse em junho: “Minha fé anima tudo o que faço”. O prefeito de South Bend, Pete Buttigieg, episcopaliano, foi elogiado por reivindicar a religião para a esquerda, enquanto Marianne Williamson declarou: “A minha religião é o judaísmo, a minha espiritualidade é universal”.

Então, o que aconteceria se um candidato de 2020 fosse um não crente?

“Eu acho que eles sofreriam críticas”, disse Huffman. “No nível político nacional, ainda existe a noção de que você tem que expressar algum tipo de fé. Não estou dizendo que alguém esteja fingindo isso no campo presidencial, mas ainda há essa noção de que é uma das coisas que você precisa fazer.”

No Congresso, também, os cristãos ainda estão super-representados quando comparados com o público em geral, de acordo com o Pew Research Center. Cerca de 23% do público dizem que são ateus, agnósticos ou “nada em particular”.

O número de membros não cristãos do Congresso agora é de 63, diz o Pew, composto por 34 judeus, três muçulmanos, três hindus, dois budistas, dois Universalistas Unitários e 19 — incluindo a senadora Kyrsten Sinema, do Arizona — que não quiseram especificar uma filiação religiosa.

Huffman, que se insere na última categoria, se dá melhor com alguns colegas do que com outros.

Ele disse: “É uma conversa respeitosa dos dois lados. Falamos sobre espiritualidade e religiosidade. Juan Vargas [um democrata da Califórnia], por exemplo, é um católico profundamente religioso, e alternamos entre brincadeiras e conversas a sério sobre a teologia cristã e outras coisas o tempo todo. São conversas muito divertidas e ótimas”.

Com os republicanos do “Cinturão da Bíblia”, no entanto, é mais difícil.

“Acho isso um pouco mais tenso, porque eu acho que a marca evangélica está muito em desacordo com os meus valores agora”, disse ele. 

“Eu acho que as coisas que estão sendo feitas politicamente em nome do cristianismo evangélico são muito hipócritas e, francamente, irreconciliáveis com os ensinamentos de Jesus Cristo.”

“Posso não achar que Jesus Cristo é o filho divino de Deus, mas ele foi um grande mestre, e sou fascinado pelos seus ensinamentos, e há grandes lições e valores neles. Posso ter essa conversa com muitos dos meus colegas religiosos. É mais difícil com os evangélicos que estão na extrema direita e querem acreditar que a extrapolação desses ensinamentos por parte deles significa que eles são contra o casamento gay, que as mudanças climáticas são uma farsa e todas essas outras coisas com as quais eles tentam trabalhar em sua visão de mundo.”

Houve momentos bipartidários. Em junho de 2017, depois que o republicano Steve Scalise e outros foram baleados em um treino de beisebol, Huffman se uniu a seus colegas em oração.

Ele explicou: “Espero que eles não se importem. Felizmente, não ocorreu o pior. Eu não acho que haja algum mal que possa vir da oração. E há diversos tipos de oração. Há orações que são momentos de reflexão”.

Mas ele demarcaria uma fronteira, no entanto, quanto ao fato de rezar ao lado de membros do gabinete de Trump.

“Eu me sentiria tão assustado que acho que não existe uma palavra para descrever isso”, disse.

Perguntado se ele suspeita que o próprio Trump seja um ateu secreto, Huffman disse: “Eu acho que ele é um narcisista. Ele presta culto a si mesmo”.

Huffman cresceu em Independence, Missouri, antiga cidade natal de Harry Truman.

Independence também é um centro histórico para os mórmons. Huffman costumava ser um membro do presbitério do ramo conhecido como Igreja Reorganizada de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, agora “Comunidade de Cristo”, cuja sede mundial está na cidade. Mas, aos 19 anos, ele perdeu a fé.

“Quando você se digna a fazer essas grandes perguntas e não recebe respostas”, disse, “para muitos, tudo acaba nesse ponto.”

Huffman não acredita na vida após a morte, mas a perspectiva de um “vazio total para sempre” que assombrou o poeta Philip Larkin não parece incomodá-lo.

“Isto é tudo o que existe, então é melhor aproveitarmos ao máximo. Agora, se você quiser que eu seja um pouco mais abstrato, eu também acho que, em certo sentido, vivemos através das coisas boas que fazemos e das pessoas que influenciamos e, para aqueles que estão buscando algo mais do que apenas essa experiência temporal, eu diria que é a isso que eu gostaria de apontar.”

“Mas muitas pessoas obviamente são atraídas pela religião porque gostam da ideia de uma vida após a morte, e espero que elas a encontrem. De certa forma, a ideia de viver para sempre parece meio exaustiva para mim.”

Em 2007, o democrata Pete Stark, também do norte da Califórnia, anunciou que não acreditava em Deus. Desde então, Stark deixou o Congresso, mas Huffman acredita que ele ainda não está sozinho.

“Tenho muitos ‘companheiros de viagem’, muito poucos publicamente. Eu acho que ainda há um medo dessa sabedoria convencional de que ser ateu ou agnóstico ou não crente é, de alguma forma, a pior coisa possível na política. A minha experiência tem sido que não é assim, mas o modo como você faz isso importa.”

Embora as pesquisas atuais sugiram que os EUA terão o seu primeiro presidente feminino, gay ou muçulmano antes do seu primeiro presidente ateu, as atitudes estão mudando gradualmente.

Robert P. Jones, diretor executivo e fundador do Public Religion Research Institute, disse: “Eu acho que os estadunidenses estão lentamente se tornando ‘a-teísta’: o que significa que eles não acreditam em Deus, mas não são necessariamente ‘não religiosos’”.

“Eu acho que isso está lentamente se infiltrando na consciência norte-americana, essa maneira mais complexa de pensar a religião, e isso pode abrir um espaço mais interessante.”

Com tradução de Moisés Sbardelotto para IHU Online.


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EDITOR DESTE SITE

Paulo Lopes é jornalista profissional diplomado.
Trabalhou no jornal centenário abolicionista
Diario Popular, Folha de S.Paulo, revistas da
Editora Abril e em outras publicações.