Universidade boa é coisa cara e brasileiro não tem dinheiro

Título original: Casa Grande

por Luiz Felipe Pondé para Folha

Sou um acadêmico. Adoro dar aula, estudar, participar de seminários. O milagre de ver os olhos de um aluno transparecer a experiência do conhecimento é um prazer imenso. Todo dia agradeço a Deus pela coragem de ter trocado a medicina pela filosofia, ainda que, no fundo, continue vendo o mundo com os olhos do médico.

A medicina impregna a alma com a percepção da fragilidade da fronteira entre fisiologia e patologia.

Mas nem por isso deixo de ver que minha tribo padece de contradições específicas, e que, em nosso caso, podem ser bem dramáticas, uma vez que somos responsáveis pela produção de grande parte do conhecimento público.

Uma dessas contradições é a relação entre universidade e elite. Para alguns, universidade é elite e pronto, e só assim realiza bem sua função. Sou um desses. Já na Idade Média, fosse Paris, Oxford ou Salamanca, era coisa de elite.

O pensador conservador e historiador das ideias americano Russel Kirk, já nos anos 50 (recomendo fortemente a leitura do seu livro "Academic Freedom", de 1955), advertia-nos acerca da "proletarização" das universidades, na medida em que ela passava a ser uma opção de ascensão social para a classe média e "gente sem posses".

Hoje, isso é fato. A forma como "carreira salarial" e "produção acadêmica" se relacionam e se confundem no cotidiano da gestão universitária na forma de "critério de qualidade" é uma prova cabal do argumento de Kirk. O fato é que quase sempre a discussão sobre "reconhecimento da produtividade" só vale se for materializado em ganho salarial, apesar das tentativas de maquiarmos o fato. No fundo, é quase tudo uma polêmica sobre folha de pagamento.

Mas não é disso que quero falar. A relação entre universidade e elite tem outras nuances que apontam para as contradições do mundo contemporâneo e sua relação com a ideia de "democratização do ensino". A vocação da universidade no cenário da democracia se confunde com a ideia de universalizar a formação superior ao mesmo tempo em que deve formar quadros técnicos de gestão da sociedade, da ciência e da cultura superior.

Daí que seja comum minha tribo tomar a palavra pública em favor da "democratização do ensino" e da "democracia nas instâncias internas da universidade". Aqui surgem duas das contradições às quais me refiro.

A primeira tem a ver, no Brasil, com a abertura de universidades às centenas e em quase toda esquina, quase sempre com qualidade duvidosa. "Universidades a R$ 399,90 por mês."

Contra essa tendência, colegas gritam, com razão, denunciando a má formação em questão. Mas o fato é que democratização significa quase sempre "barateamento do produto". Para muita gente pobre cursar universidades públicas ou particulares de renome e tradição é impossível, seja pelo restrito número de vagas, seja pelo alto custo financeiro.

A verdade é que o caráter elitista travestido de "democrático" da minha tribo revela aqui a falsidade de sua natureza e a alienação típica de quem vive regado a leite de pato na casa grande. Não se pode democratizar garantindo "vinho francês pra todo mundo". Basta vermos o barateamento do voto à medida que a democracia brasileira assimila suas classes C e D.

Universidade boa é coisa cara e brasileiro não tem dinheiro.

A segunda é pior ainda. Muitos de nós mentimos sobre a "democracia" e a transparência interna da universidade.

Devido muito ao hábito oligárquico de nosso país, "estrelas" da elite das grandes universidades, publicamente "implicadas" com democracia e transparência, no cotidiano da universidade agem como o mais comum "senhor da casa grande", buscando garantir gerações futuras do quadro docente dentro do seu grupo de discípulos, realizando um verdadeiro "bullying" contra integrantes de grupos institucionalmente mais frágeis.

A universidade é dilacerada por lobbies internos que fazem dela um exemplo típico das oligarquias da "casa grande e senzala". O uso da burocracia interna faria qualquer "peemedebista" chorar de inveja. Quem for inocente que atire a primeira pedra.

A história é feita por poucos porque a maioria é medíocre
julho de 2010

Artigos de Luiz Felipe Pondé.

Comentários

  1. "Para alguns, universidade é elite e pronto, e só assim realiza bem sua função. Sou um desses. Já na Idade Média, fosse Paris, Oxford ou Salamanca, era coisa de elite."

    Precisamos levar os valores medianos e arcaicos da Idade Média até quando?

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  2. Leandro, infelizmente para você, Pondé tem toda a razão. Estude alguns anos a Idade Média e compreenderá o porquê.

    J.Neto

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  3. Infelizmente, sou obrigado a concordar. Existe, hoje em dia uma enorme fatia da população que gasta seu precioso tempo e dinheiro minguado para conseguir uma formação universitária que, na verdade, não lhe servirá para nada. Para esses, um bom curso técnico (mais barato e mais rápido) seria uma ótima garantia de futuro (entenda-se: um bom emprego). Porquê no fundo se trata disso mesmo. Todo mundo quer virar "dotô" para ganhar um salário melhor. E, na prática, isso obviamente nem sempre acontece.
    Não é preconceito, é apenas constatação do óbvio. Só a título de exemplo: aqui na minha cidade eu vejo jovens advogados andando de terno e gravata num sol de trinta graus para ganhar uns mil reais por mês, e olhe lá. Enquanto que um operador de colheitadeira (que não precisou ficar cinco anos na faculdade, nem passar pelo tormento do exame da OAB) ganha por volta de três a quatro mil reais por mês.
    O ensino universitário para todos é uma grande enganação. É um nivelamento por baixo.
    Desde os gregos antigos as sociedades são guiadas por uma elite. Sempre funcionou assim, e todas as tentativas de mudar esse quandro nunca acabaram bem.

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  4. Luis é a reencarnação de Schopenhauer, um pouco confuso ainda, mas nota -se a semelhança!

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  5. Caro Leandro,você ainda não conhece a lógica Pondeana, onde (+) vale (-), esqueça tudo o que aprendeu até aqui, não vai servir pra nada, valores como solidadariedade, igualdadae de oportunidades, não existem na lógica Pondeana,o que vale é o canibalismo, quem tema mais deve ter mais e basta. Certamente você deve ser um old petista.

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  6. E Paulo, calado sobre o Exame da Ordem dos advogados?

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  7. Paulo Vieira da Costa25 de janeiro de 2011 14:56

    Os estacionamentos das universidades públicas, estão lotadas de carrões dos estudantes ricos que melhor estão preparados para passar no vestibular.Para o estudante pobre sobra a FACÚ, muitas com professores que dão arrepio e falam até "pobrema" e a cada dia o MEC libera mais FACÚs para políticos,recentemente foi o Demótenes Torres que teve o processo da sua FACÚ analisado e aprovado em 45 dias, agora é só começar encher, pegar os contratos assinados e fazer dinheiro no banco do Brasil. Ex.Mensalidade R$200 x 6 meses=R$1.200 x 40 coitados = R$480 mil por turma. Paga R$20,00 a hora aula ao professor "pobrema" transformando a educação em um negócio muito melhor que o tráfico de drogas.

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  8. Paulo, se você não tem opinião formada a respeito do assunto cobrado pela leitora acima( como eu também não tenho)-sem querer dar pitaco, mas já dando, ofereça o espaço pra que ela faça defesa da sua idéia,

    Wander

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  9. Wander, a sua sugestão está aceita.

    Fica aqui o convite a Denise e a outros leitores que me cobram um posicionamento favorável aos advogados na questão do exame da OAB para que escrevam posts assinados sobre o assunto.

    Os textos podem ser enviados por intermédio deste formulário.

    O espaço, obviamente, também está aberto a quem defende a Ordem.

    Talvez esta seja uma oportunidade para que eu tenha uma opinião formada sobre o tema.

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  10. Em apenas um parágrafo o Paulo falou tudo o que ficou faltando no texto do Pondé.

    Ari Neto

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