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Religião, ateísmo, ciência e astronomia

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Religiões tendem a se evaporar no Ocidente, afirma Dennett

Pesquisador disse que a
rápida difusão de informações
está liquidando as crenças  
Ao longo de séculos, as religiões, principalmente na Europa e América do Norte, vêm se enfraquecendo, em um processo que se acelerou nas últimas décadas por causa da rápida disseminação da informação digital.

Se a atual tendência se mantiver, as religiões do Ocidente vão evaporar, restando apenas bolsões de intensa atividade religiosa, o que poderá ser fonte de tensão e conflito.

Essa previsão é do professor e pesquisador Daniel C. Dennett (foto), do Centro de Estudos Cognitivos da Universidade Tufts e influente militante do ateísmo.

Em artigo publicado no The Wall Street Journal com o título "Por que o futuro das religiões é sombrio", Dennett destacou que um em seis norte-americanos já é none (sem religião) e que em 2050 essa proporção será de um em quarto, de acordo com estudo do Pew Research Center.

“Igrejas estão sendo fechadas às centenas e suas instalações aproveitadas como habitação, escritório, restaurantes ou simplesmente abandonadas”, escreveu.

Para ele, as religiões só vão conseguir escapar da extinção se houver uma comoção mundial, como uma guerra pela disputa por água ou por petróleo ou ainda colapso da internet, além de alguma catástrofe natural no momento inimaginável. A população, assim, ficaria em um solo adubado pela miséria e medo, solo em que as religiões florescem melhor.

Dennett escreveu que, como demonstram recentes estudos, a religião quase sempre recua quando se elevam a segurança e o bem-estar das pessoas.

Ele disse que no século 16 o insuspeito teólogo francês João Calvino (1509-1564), que teve grande influência na reforma protestante, já suspeitava disso, porque constatou que as pessoas prósperas eram menos dependentes da Igreja.

Dennett argumentou que a Igreja, como qualquer outra instituição ou mesmo pessoa, precisa atuar com um mínimo de privacidade, ficar longe de olhares curiosos, para poder controlar suas atividades sem muita interferência. 

Foi assim que fundadores de instituições religiosas conseguiram manter segredos com o propósito de controlar seus rebanhos, o que não é mais possível na Era da Informação, disse Dennett.

De acordo com ele, o que corrói a religião não é apenas a disponibilidade de novas informações, mas também o rápido compartilhamento delas entre as pessoas.

Além disso, para a desgraça da religião, a tecnologia que propicia a rápida difusão das informações potencializa o poder subversivo do riso, disse.

Dennett deu o exemplo do episódio do “South Park” que satirizou a Igreja de Jesus Cristo Cristo dos Santos dos Últimos Dias — a Igreja dos Mórmons.

O episódio mostrou a todos, incluindo os mórmons, o quanto essa religião é cômica, absurda e ridícula.

Para Dennett, isso pôde ter aumentado a lealdade de alguns seguidores, mas com certeza abalou a confiança de outros, levando-os a considerar que a crença em um deus pode ser apenas uma ilusão de melhoria de vida.

Ele lembrou que John McCarthy (1927-2011), um dos criadores da inteligência artificial, certa vez disse: “Quando vejo uma ladeira, meu instinto é o de construir um terraço”.

E é isso o que os teólogos têm feito por centenas de anos, afirmou o professor. “Eles têm construídos terraços na expectativa de que vão conseguir salvaguardar para sempre as suas doutrinas da chuva de informações.”

Algumas denominações religiosas são obrigadas a defender a “verdade infalível” que há em cada frase da Bíblia, mas isso está se tornando embaraçoso, porque as pessoas estão ficando cada vez mais questionadoras por causa da abundância de informações.

Dennett observou que, em consequência disso, hoje dia quase ninguém acredita no Deus furioso do Antigo Testamento.

Ainda que existam crentes que usem a frase “temente a Deus”, o Deus do Antigo Testamento foi substituído por outro amoroso, indulgente e destinatário de orações.

Dennett escreveu que, como os líderes religiosos estão tentando encontrar uma maneira de impedir o desaparecimento de suas instituições, “se tivermos sorte” e se o padrão de vida da humanidade continuar a subir, as igrejas podem evoluir para comunidades humanistas e clubes sociais, entidades dedicadas a boas obras, sem resquícios de suas doutrinas.

Mas “se tivermos azar de ocorrer calamidades”, escreveu Dennett, a miséria fornecerá bastante combustível para o renascimento de algumas religiões e a invenção de outras.





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