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Hipocrisia do cristianismo cultural resgata ‘mitos da Idade do Bronze’

Rituais sem fé não preservam identidade, mas alimentam ilusões. Sem provas históricas de Jesus, insistir nessas lendas é rejeitar a razão e convidar o retorno do obscurantismo


Jan Bryxí
jornalista e escritor

O cristianismo cultural parece inofensivo. Dizem que significa celebrar o Natal, participar de casamentos na igreja ou chamar a Europa de “cristã” mesmo quando a crença desapareceu. Mas por trás dessa ideia se esconde uma ilusão perigosa. Ela preserva mitos da Idade do Bronze. Mantém viva uma visão de mundo que pertence a pastores, sacerdotes e governantes de tribos antigas. E corre o risco de arrastar a sociedade de volta para as trevas.



Tradição sem crença

Cristianismo cultural significa rituais sem fé. As pessoas não acreditam mais no céu ou no inferno, mas batizam seus filhos. 

Deixam de ir à igreja, mas defendem a “cultura cristã”. Imaginam que manter símbolos preservará a identidade. 

Na realidade, estão apenas alimentando a hipocrisia. Uma cultura que se apega a mitos nos quais não acredita mais não é cultura. É negação.

Mitos da Idade do Bronze

O cristianismo nasceu de mitos que remontam às Idades do Bronze e do Ferro. Histórias da criação que negam a ciência. Contos de milagres, castigos e governantes divinos. Mitos de pecado, sacrifício e tormento eterno. 

Essas histórias não foram escritas com razão. Foram criadas para controlar, explicar raios e manter tribos sob o efeito do medo. Preservá-las hoje é como ensinar astrologia nas escolas. Não faz sentido.
Nenhum dos escritores conhecia Jesus de fato.

Nenhum escritor que nos deixou um texto sobre Jesus realmente o conheceu. Não existe um único documento contemporâneo de sua época. Filo de Alexandria, que escreveu detalhadamente sobre a vida e os costumes judaicos, jamais o mencionou. 

Nem outros historiadores que viveram perto o suficiente para terem notado sua existência. Nem mesmo sua suposta família deixou qualquer registro. O silêncio é mais eloquente que a fé.

Os Evangelhos surgiram décadas depois. Foram escritos em grego, não na língua que Jesus supostamente falava. A autoria permanece incerta. Seu propósito não era registrar fatos, mas construir uma teologia. 

Contradições sobre sua genealogia, local de nascimento e testemunhas da ressurreição revelam como as tradições se transformaram à medida que as histórias se propagavam.

As cartas de Paulo são ainda mais claras. Ele nunca conheceu Jesus. Ele construiu sua versão da figura por meio de visões e reinterpretações. Isso não é biografia. Isso é criação de mitos.

A implicação é simples. O que temos não é história confiável. O que temos é uma lenda. O Jesus que moldou a cultura foi um símbolo, não um homem documentado por seus contemporâneos. A fé o criou. A escrita o amplificou. A realidade permanece ausente.

A ilusão da identidade

Os defensores do cristianismo cultural dizem que se trata de identidade. Argumentam que a Europa sem o cristianismo perderia suas raízes. Mas as raízes podem ser veneno, assim como alimento. 

O cristianismo queimou bruxas, lançou cruzadas e silenciou pensadores. Combateu a medicina, a astronomia e a filosofia. 

Sua herança é tanto sangue e ignorância quanto arte e música. Defendê-lo como identidade é defender correntes como se fossem joias de família.

O retorno às trevas

Cada vez que o cristianismo recuperou o poder, trouxe consigo sofrimento. Inquisições, guerras religiosas, conversões forçadas. Sempre que os governantes precisavam de obediência, os sacerdotes a forneciam. 


Dizer que devemos preservar o cristianismo cultural é convidar esse passado de volta ao presente. É flertar com a Idade das Trevas, quando o medo reinava sobre o conhecimento. Uma sociedade que abraça o cristianismo cultural não está avançando. Está retrocedendo para as trevas.

Moralidade sem cristianismo

Alguns argumentam que o cristianismo cultural nos legou a moralidade. Alegam que valores como compaixão, honestidade e justiça provêm dele. Mas a moralidade é mais antiga e abrangente que o cristianismo. 

Os seres humanos possuíam códigos antes de Jesus. A justiça existia na Mesopotâmia, a ética na Grécia, a compaixão no budismo. 

O cristianismo distorceu a moralidade, tornando-a seletiva e atrelando-a ao poder. Justificou a escravidão, a tortura e o genocídio. 

As verdadeiras conquistas da humanidade — os direitos humanos, a liberdade, a democracia — surgiram apesar dele, não por causa dele.

Uma alternativa melhor

A sociedade não precisa do cristianismo cultural para sobreviver. Temos guias melhores. O humanismo racional, a ciência e a ética secular nos dão uma base mais sólida. A filosofia nos ensina a questionar. A psicologia explica o comportamento. 

A história mostra o preço da ignorância. A identidade não precisa de mitos. Ela precisa de verdade, conhecimento e criatividade. O futuro pertence àqueles que ousam abandonar ilusões ultrapassadas.

Identidade cultural além da crença

Mesmo quando a fé desmorona, a cultura persiste. As pessoas se apegam aos símbolos de religiões nas quais já não acreditam. Autodenominam-se judeus culturais, cristãos culturais ou muçulmanos culturais. É uma identidade sem verdade. É uma tradição sem convicção.

Steven Pinker oferece um exemplo. Ele é um ateu secular, mas se autodenomina um judeu cultural, valorizando a herança, o debate e o humor da tradição judaica. Ele não reza, mas aceita o rótulo.

O mesmo acontece com o cristianismo. Alguns ateus se autodenominam cristãos culturais. Richard Dawkins, um dos críticos mais ferrenhos da fé, admitiu sentir-se cristão na cultura. Ele aprecia canções natalinas, catedrais e a ética cristã como história, não como crença. 

Outros mantêm o título porque foram criados nessa fé. Mantêm a música, mas descartam os milagres.

O problema do patrimônio sem verdade

Essa persistência da identidade mostra que o mito pode sobreviver mesmo quando ninguém acredita nele literalmente. Mas também mostra o quão perigoso isso é. As pessoas protegem ilusões porque se sentem confortáveis ​​com elas. Chamam-nas de patrimônio. Chamam-nas de cultura. Mas, no fim, estão preservando ideias que nunca fizeram sentido, escritas por pessoas que nunca conheceram o homem que glorificavam.

A verdade é brutal. Ninguém que escreveu sobre Jesus o conheceu de fato. O que transmitiram foi mito, não biografia. E quando ateus se autodenominam cristãos culturais ou judeus culturais, demonstram como é difícil eliminar a mitologia quando ela se disfarça de identidade.

Conclusão

O cristianismo cultural não é uma nostalgia inofensiva. É uma armadilha que preserva mitos primitivos, esconde a hipocrisia e acarreta novos sofrimentos. Não oferece verdade, justiça ou progresso. Não devemos nos apegar a ele. Devemos rejeitá-lo. 

O caminho a seguir é claro. O livre pensamento, a cultura secular e a razão devem substituir a sombra da religião. Só então a humanidade poderá escapar da escuridão que o cristianismo cultural ainda carrega em seu nome.

Esse texto foi publicado originalmente no site do Freethinkers International com o título Should we be culturally Christian?



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