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Trecho do livro sobre a Igreja Universal do Reino de Edir Macedo

O jornalista Gilberto Nascimento narra
 em seu livro, 'O reino', a trajetória do bispo
 Edir Macedo e a fundação da
Igreja Universal. Leia abaixo, trecho
 exclusivo concedido  à Agência Pública pela
editora Companhia das Letras. 



Início dos anos 1990. O bispo Edir Macedo e o pastor Ronaldo Didini ocupavam salas contíguas no prédio da tv Record, na avenida Miruna, próximo ao aeroporto de Congonhas, em São Paulo. A Igreja Universal do Reino de Deus comprara a emissora havia pouco mais de um ano. O líder da igreja, recém-chegado dos Estados Unidos, passava a dar expediente na empresa das dez da manhã às sete da noite.

Certo dia, ao sair de sua sala, Didini escutou um barulho estranho. Procurou Macedo, não o encontrou. Então ouviu um gemido vindo do banheiro. “Abri a porta e o bispo estava ajoelhado com a cara no chão, orando e chorando. Ele levantou o rosto e olhou para mim. Fechei a porta e saí. Depois ele me chamou, parecia ter chorado muito. Disse que naquela hora estava falando com Deus.” E Macedo contou ao pastor que clamara: “Senhor, eu não sou nada. Sou pior que um verme. Não sei mais o que fazer. Ajude-me. Estou desesperado. Só o Senhor pode resolver”. Então desabafou para Didini: “É humanamente impossível pagar a Record. São problemas de todos os lados. O que vamos fazer? Não sei como resolver”.

Havia várias parcelas a serem saldadas, e a emissora — tecnologicamente obsoleta e precisando de investimentos — acumulava uma dívida astronômica. O poderoso bispo vivia um momento de fragilidade. Ao se prostrar e se humilhar, disse que pretendia demonstrar a Deus a insignificância da criatura diante do criador. Em outros momentos, em cultos e em programas de rádio, Macedo definiu-se como “o estrume do cavalo do bandido”, “um monte de nada, como ser humano”. Mas era mestre em virar o jogo: numa postagem em seu blog, anos depois, deu a receita para transformar fraqueza em força. Citando a Bíblia, disse que o poder “se aperfeiçoa na fraqueza”, como pregava o apóstolo Paulo.

O jovem de família católica do município fluminense de Rio das Flores, ex-escriturário da Loteria do Estado do Rio de Janeiro, a Loterj, começou sua igreja em uma funerária e hoje comanda um império religioso, empresarial e midiático. Edir Macedo é um dos raros homens no mundo — e o único no Brasil — a ter sob os seus domínios uma igreja, uma rede de tv, um partido político e um banco.

Os mecanismos que impulsionaram o crescimento vertiginoso de sua organização foram questionados por adversários e pela Justiça. O bispo se considera perseguido, como Jesus: declara ser vítima de ataques e armações da mídia — liderada pela tv Globo — e da Igreja católica. Contudo, soube fazer da perseguição uma aliada e expandiu a denominação por mais de uma centena de países: “Eu agradeço aos meus adversários, aqueles que me odeiam, aqueles que querem o meu mal. Porque, quanto mais me perseguem, mais eu cresço”.

Certa vez, o bispo disse que ter encontrado Deus foi muito melhor do que fazer sexo. “Foi um prazer tão grande que é até indescritível. Muito mais gostoso do que o gozo de um homem com uma mulher.” Ele crê no que prega: pelo menos é o que afiança o delegado Darci Sassi, que, em 1992, o manteve sob seus cuidados durante onze dias numa cela do distrito policial de Vila Leopoldina, em São Paulo — o religioso fora acusado de estelionato, charlatanismo e curandeirismo.

Nos anos 1990, opositores evangélicos viam em Macedo um homem disposto a tudo, determinado a morrer pelo que crê, e dotado de um sentimento messiânico. Sua atuação à frente da Universal fazia dele menos um pastor, o que cuida de suas ovelhas cotidianamente, e muito mais um evangelista — aquele que “abre caminhos”. O bispo defendia a ideia de que seus seguidores, ao ajudarem a igreja a divulgar a mensagem de Jesus Cristo, firmavam um compromisso com o Criador e adquiriam automaticamente o direito de se sentir como “sócios de Deus”. Em um de seus livros, detalhou: “As bases de nossa sociedade com Deus são as seguintes: o que nos pertence (nossa vida, nossa força, nosso dinheiro) passa a pertencer a Deus; e o que é d’Ele (as bênçãos, a paz, a felicidade, a alegria e tudo de bom) passa a nos pertencer, ou seja, passamos a ser participantes de tudo o que é de Deus”.

Macedo buscava sacramentar essa “sociedade” no dia a dia, inclusive junto aos familiares. Incentivava-os a se desapegar de seus bens e a entregá-los a Jesus. Amarílio Macedo, seu tio, contou uma história exemplar. Ao morrer, a avó materna deixou como herança o sítio onde a família foi criada, no vilarejo do Abarracamento, em Rio das Flores. O terreno foi dividido em lotes, que foram distribuídos entre todos os filhos. Com o tempo, um deles, Ivanir, irmão de Amarílio, foi adquirindo ou negociando cada lote com os demais. Acabou ficando com toda a área. No início dos anos 2000, Ivanir contraiu um agressivo câncer de intestino. Ao saber da doença, Edir propôs um negócio: prometeu que o tio seria curado se doasse o sítio à Universal, naquele momento uma das principais denominações neopentecostais do país. O doente ouviu a proposta e ficou de pensar. Não pensou rápido o bastante: morreu antes de dar uma resposta ao sobrinho.

Para Macedo, quando o fiel faz sua doação ou paga o dízimo, Deus contrai uma obrigação com ele e repreende “os espíritos devoradores que desgraçam a vida do ser humano nas doenças, acidentes, vícios, degradação social e em todos os setores da atividade humana que fazem sofrer”. Ao dar provas de sua fidelidade a Deus, o fiel pode exigir uma contrapartida divina e expressar o desejo de prosperidade não como quem pede ou suplica, mas como quem reivindica um direito.

Líder carismático, Macedo alimenta o culto à sua personalidade. Amado e odiado, conquista admiradores e rivais com a mesma facilidade. Ambicioso, para alcançar o que deseja é capaz de atropelar quem estiver pela frente. Criou a máxima “para Jesus, até gol de mão vale”, segundo o pastor dissidente Carlos Magno de Miranda, o primeiro a fazer denúncias públicas contra ele, em 1990.

Seu perfil é de empreendedor, não de gestor. Não está à frente da administração rotineira dos negócios ou da igreja, mas acima, acompanhando e fiscalizando. E sobretudo exalando autoridade. Delega poderes e confia a condução de tarefas a assessores, tanto que se um subordinado o procura pedindo orientação, pode ouvir uma reprimenda: se um bispo ou pastor ocupa determinado cargo, ele explica, é para tomar conta da instituição, trazendo soluções e não problemas. “De problemas, eu tô cheio. Então não liga para perguntar nada, você resolve”, dizia aos subalternos.

Macedo dá chances a quem vem de baixo e quer crescer. O ex-pastor da Universal Ronaldo Didini afirma ser grato pela ajuda recebida, diz ter aprendido muito com ele. “Foi muito parceiro, durante muito tempo. Me apoiou e segurou minhas broncas na igreja”, disse o pastor, a quem o bispo, em momentos de lazer e descontração, chamava de “malandro”, tratamento que não raro reservava a seu círculo mais íntimo.

Se ajuda quem deseja subir, Macedo pode ser implacável com figuras que ameacem seu brilho. São imediatamente catapultadas. Vão para o “exílio”, ou uma espécie de “geladeira eclesiástica”, como definiu o cientista de religião Leonildo Silveira Campos. O bispo costuma dizer que, ao dar a corda para a pessoa, “ela vai usar para se salvar ou se enforcar”. Não perdoa quem ousa traí-lo ou desobedecê-lo, ou quem abandona no meio do caminho a missão de “salvar almas”.

O lado autoritário parece penetrar também na esfera privada. Embora sempre ao lado da esposa, Ester, a quem muito elogia — “A gente depende muito um do outro. […] Sem ela eu viro um legume”, confessou —, e mesmo com a relativa liberalidade nos costumes em sua igreja, mantém uma postura patriarcal. A mulher diz ser submissa a ele. Na visão do bispo, o homem deve mandar em casa e a mulher precisa ser boa mãe e dona de casa, além de falar pouco e ser discreta no vestir. 

No templo, exerce um completo domínio da plateia. Como comunicador, chegou a ser comparado a animadores de auditório, ao estilo de Silvio Santos. “Eu não tenho o sorriso dele, eu não tenho a gargalhada dele, eu não tenho o jeito dele, não. Ele é um excelente comunicador, e eu tenho a minha fé”, rebateu. No púlpito, é uma pessoa dócil e tranquila; fora dele, se exaspera, fica nervoso, e tenso quando contrariado.

O poderoso conglomerado Universal, com suas rádios, tvs e empresas de ramos diversos, foi erguido, apesar do grande poder delegado em atividades rotineiras, sob o estilo autocrático de Macedo. Suas ordens e orientações, transmitidas de qualquer parte do mundo, a qualquer momento, são imediatamente cumpridas, sem qualquer contestação. O bispo adota um pensamento cartesiano, binário: busca sempre o sim ou não. Maquiavélico, também alimenta intriga entre os subordinados.

A rotina de Macedo começa às oito horas da manhã, já pendurado ao telefone cuspindo ordens. Quando busca resolver um problema, tudo tem de ser decidido na hora, diz a mulher. Não se constrange em acordar bispos, pastores ou assessores às quatro da madrugada para tirar uma dúvida ou cobrar o resultado de alguma tarefa. Seu poder imperial, sua obstinação e a fixação por grandes conquistas garantiram o crescimento de seu reino na terra.

A estrutura da Universal é montada em torno do bispo. Funciona como uma pirâmide, de cujo topo Macedo exerce o poder supremo e se impõe como figura mística, o grande e único líder. A centralização da autoridade exige súditos obedientes e leais, e foi assim que o bispo manteve a unidade da instituição, facilitou a rapidez das decisões e a expansão de seu projeto. “Eu não fundei igreja. Eu fundei uma escola, eu fundei uma universidade que ensina a vida. Que ensina os caminhos da salvação, os caminhos da eternidade.”

Se, como diz Didini, a estrutura centralizadora da Universal foi copiada da Igreja católica, ela conseguiu ir além de Roma no âmbito da outorga de poderes à figura máxima: seu líder tem poderes maiores que o papa. Os bispos da Universal podem brigar entre si, mas a instituição não quebra, com Macedo no manejo das rédeas, inconteste. Embora os católicos tenham como figura máxima o sumo pontífice, há grande fragmentação entre eles, a começar pelas diversas ordens religiosas. Macedo já atribuiu a diáspora de fiéis da Igreja católica ao fato de o catolicismo possuir “um braço esquerdo e um direito”, referindo-se às suas correntes políticas: “Jesus disse: nenhuma casa dividida poderá permanecer”.

No início dos anos 1990, o bispo causava polêmica ao defender que o dinheiro não é vil, ao contrário, deve ser usado a serviço de Deus, constituindo um “veículo de felicidade”. Seria elemento precípuo da vida espiritual, a ser sacrificado para a aquisição de bênçãos.

 Segundo ele, o dinheiro possibilita atingir determinado ponto na escala de poder, o qual só pode ser superado por meio da política. Quando dinheiro e política se cruzam, atinge-se um patamar superior na estrutura de poder. Elegendo representantes para o Legislativo e o Executivo, a igreja obteria maior participação e mobilização dos fiéis, acarretando um crescimento da denominação, com a aquisição de mais veículos de comunicação. Encontros de bispos e pastores enfatizavam o caminho a ser trilhado. Macedo ressaltava que quanto mais emissoras de rádio e tv a igreja tivesse, mais ela seria respeitada.





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Paulo Lopes é jornalista
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