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Religião, ateísmo, teoria da evolução e astronomia

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Criacionistas tiram proveito da crise da teoria da evolução

por John Dupré

Aqueles que acreditam que um ser sobrenatural criou o universo nunca constituíram um desafio intelectual à teoria evolucionista.

Mas os criacionistas, quer sejam fundamentalistas bíblicos ou crentes no “design inteligente”, representam uma ameaça ao pensamento científico. Na verdade, o talento especial traiçoeiro do criacionismo reside na sua capacidade de reinventar a evolução à sua própria imagem, como um sistema de crenças dogmáticas — e, portanto, a antítese da ciência.

Os criacionistas estão certos numa coisa: ao contrário da impressão que é dada em muito o que se escreve sobre o assunto, a teoria da evolução está em crise. Mas isto é um desenvolvimento positivo, pois reflete o progresso não linear do conhecimento científico, caracterizado por aquilo que Thomas Kuhn descreveu no seu influente livro The Structure of Scientific Revolutions como “mudanças de paradigma”.

Durante os últimos 70 anos, o paradigma dominante na ciência evolucionista tem sido a chamada “nova síntese”. Amplamente divulgada nos últimos anos pelo biólogo evolucionista de Oxford, Richard Dawkins, a nova síntese combina a teoria de Darwin da seleção natural com a genética mendeliana, o que explica a hereditariedade.

A atual crise na ciência evolucionista não implica a completa rejeição deste paradigma. Em vez disso, ela ocasiona uma reorganização progressiva, muito importante, do conhecimento existente, sem comprometer os princípios fundamentais da teoria evolucionista: os organismos vivos de hoje desenvolvem-se a partir de organismos significativamente diferentes do passado distante; os organismos diferentes podem partilhar antepassados comuns; e a seleção natural tem desempenhado um papel crucial neste processo.

Outras suposições estão, no entanto, sob ameaça. Por exemplo, na representação tradicional da evolução, “árvore da vida”, os ramos se afastam sempre, nunca se fundem, o que implica que a linhagem das espécies segue um caminho linear e que todas as mudanças evolucionistas ao longo deste caminho ocorrem dentro da linhagem que está a ser traçada. Mas um exame de genomas — particularmente dos micróbios — mostrou que o movimento dos genes entre organismos com relações de parentesco afastadas é um importante catalisador da mudança evolucionista.

Além disso, a nova síntese presume que os principais motores da evolução são pequenas mutações geradas ao acaso dentro de uma espécie. Mas indícios recentes sugerem que as grandes mudanças, causadas pela absorção de uma porção de material genético estranho, podem ser significativas. Na verdade, a absorção de organismos inteiros — tais como as duas bactérias que formaram a primeira célula eucariótica (o tipo de célula mais complexa encontrada em animais multicelulares) — pode gerar uma grande e crucial mudança evolucionista.

O que desestabiliza ainda mais a teoria evolucionista é a crescente percepção de que muitos fatores, não apenas o genoma, determinam o desenvolvimento de um organismo individual. Ironicamente, tal como a descoberta da estrutura do DNA — inicialmente elogiada como o ato final no triunfo da nova síntese — levou a uma melhor compreensão do funcionamento dos genomas, também acabou por enfraquecer a crença no seu papel único em orientar o desenvolvimento biológico.

Aqueles que durante muito tempo lamentaram a omissão do desenvolvimento a partir de modelos evolucionistas — uma crítica antiga feita durante décadas sob a bandeira científica da biologia evolucionista do desenvolvimento (“evo-devo”) — juntamente com a persistência de que o desenvolvimento de organismos se baseia numa grande variedade de recursos, têm sido ilibados.

Recentes desenvolvimentos na biologia molecular pregaram o último prego no caixão do determinismo genético tradicional. Por exemplo, a epigenética — o estudo das modificações hereditárias do genoma que não envolvem alterações do código genético — está aumentando. E os vários tipos de pequenas moléculas RNA são cada vez mais reconhecidos como formadores de uma camada reguladora por cima do genoma.

Além de enfraquecer as teorias da evolução centradas no gene que têm dominado a consciência pública por várias décadas, estes desenvolvimentos exigem novas estruturas filosóficas. As tradicionais visões reducionistas da ciência, com os seus pontos de convergência nos mecanismos “em pirâmide”, não são suficientes na busca da compreensão da causalidade dedutiva e circular e de um mundo de processos aninhados. Isto nos traz de volta ao ponto por onde começamos.

Repensar radicalmente a teoria evolucionista atrai, invariavelmente, a atenção dos criacionistas, que alegremente anunciam que se os profissionais defensores do darwinismo não chegam a um acordo, o conceito deve ser afastado. E, os evolucionistas, confrontados com esta reação, tendem a colocar as carroças em círculo e a insistir que todos estão de acordo.

Mas nada mais demonstra tão claramente que a ciência e o criacionismo são polos opostos do que a última suposição de que os sinais do desacordo falharam. De fato, o desacordo — e as percepções mais profundas que resultam dele — permite novas abordagens para a compreensão científica. Para a ciência, ao contrário dos sistemas de crenças dogmáticas, o desacordo deve ser incentivado.

O atual contratempo na teoria evolucionista — e a nossa incapacidade de prever onde é que a área do saber estará em 50 anos — são um motivo de comemoração. Devemos deixar os criacionistas com as suas convicções ocas e encarar com felicidade as incertezas inerentes, numa abordagem verdadeiramente empírica para compreender o mundo.

Este texto foi publicado no jornal português Público. John Dupré é professor de Filosofia da Ciência e diretor do ESRC Center for Genomics in Society, na Universidade de Exeter, no Reino Unido.

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