Figurativamente, a igreja de Nossa Senhora de Aparecida está enlameada pelo padre Rupnik, autor da obra, cuja punição vendo sendo cozinhada a banho maria para Igreja. Imagem gerada por IA.
A cerimônia terá transmissão pela Rede Aparecida de Comunicação e a bênção é concedida à distância, como ocorreu nas fachadas anteriores.
Rupnik é acusado por ao menos 20 mulheres da Comunidade Loyola, fundada por ele na Eslovênia, de abusos sexuais, psicológicos e espirituais cometidos ao longo de quase quatro décadas.
Ele foi expulso da Companhia de Jesus em junho de 2023 e responde a julgamento canônico no Dicastério para a Doutrina da Fé, cuja fase preliminar já foi concluída.
Anos antes, chegou a ser brevemente excomungado por absolver, em confissão, uma mulher consagrada com quem mantinha relações sexuais — a pena foi suspensa após ele confessar e se arrepender.
Duas semanas após a festa em Aparecida, Leão XIV visitará o Santuário de Lourdes, na França, entre os dias 25 e 28 de setembro, onde encontrará um cenário oposto ao brasileiro.
O bispo de Tarbes e Lourdes, dom Jean-Marc Micas, decidiu cobrir de forma permanente todos os mosaicos de Rupnik na fachada da Basílica do Rosário, não apenas durante a passagem papal.
A medida encerra um processo gradual: em 2024 o santuário deixou de iluminar as obras durante as procissões noturnas; em março de 2025, tapou com painéis as portas laterais decoradas por Rupnik.
Segundo Micas, a chegada de Leão XIV precipitou a decisão final — e não por acaso: meses antes, o papa já havia agido pessoalmente contra a imagem do padre nos veículos vaticanos.
Em entrevista à revista francesa Paris Match, Micas revelou que foi o próprio Leão XIV quem ordenou a retirada das reproduções dos mosaicos de Rupnik do site oficial Vatican News.
Segundo o bispo, o papa relatou o episódio em audiência privada concedida a ele em 26 de junho de 2025, poucas semanas após sua eleição. Micas descreveu o pontífice como muito determinado no tema.
A remoção ocorreu de forma silenciosa, sem comunicado oficial: imagens que ilustravam o calendário litúrgico e festividades marianas no portal vaticano simplesmente deixaram de aparecer.
Vaticanistas notaram a mudança já nas primeiras semanas do pontificado, mas só agora, mais de um ano depois, veio à público que a ordem de retirada partiu diretamente do papa.
A revelação frustra o argumento recorrente em setores da Igreja que comparam Rupnik a Caravaggio para justificar a manutenção de suas obras em espaços de culto e devoção.
No Brasil, essa comparação é usada pela professora Wilma Steagall De Tommaso, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), pesquisadora dedicada à arte sacra contemporânea.
De Tommaso defende a separação entre obra e autor: para ela, os mosaicos não pertencem a quem os produziu, mas à comunidade de fiéis e à história da Igreja que os encomendou.
Segundo a professora, retirar os murais dos santuários equivaleria a apagar a fé de quem reza diante deles — postura que ela aproxima de atos de censura e iconoclastia.
Ela lembra que Caravaggio, pintor leigo do século 17 acusado de assassinato, seguiu expondo obras em templos católicos mesmo após o crime, e usa o caso como paralelo histórico.
A comparação ignora uma diferença central: Rupnik é padre, vinculado por voto sacramental à mesma instituição que hoje investiga denúncias de dezenas de supostas vítimas dele.
De Tommaso coordena a Sala Marko Ivan Rupnik na PUC-SP e ministra cursos e palestras específicas sobre os mosaicos de Aparecida desde pelo menos 2020, segundo seu currículo acadêmico.
Em março de 2022 — quando as denúncias contra o padre já eram públicas e amplamente noticiadas — ela conduziu um curso on-line sobre os mosaicos da fachada norte da basílica.
Na ocasião, chamou Rupnik de homem muito culto, grande líder e grande pai espiritual, entre outros elogios.
Sua produção acadêmica sobre o padre manteve o mesmo tom apologético mesmo depois da expulsão dele da Companhia de Jesus, ocorrida em junho de 2023 por recusa ao voto de obediência.
Em novembro daquele ano ela publicou o texto Queda e redenção na arte cristã: uma reflexão sobre a beleza que salva, tratando a obra de Rupnik sob viés espiritual e estético.
Outros artigos sobre os mosaicos assinados por ela seguiram sendo publicados em 2025, tanto em site pessoal quanto no portal acadêmico off-lattes, sem menção às acusações contra o autor.
Não há registro público de qualquer manifestação da professora dirigida às mulheres que denunciaram o padre, nem de referência às acusações em seus cursos sobre a obra dele.
Enquanto Aparecida segue sem se posicionar sobre o autor da obra e Lourdes decide pela cobertura definitiva, outros santuários com mosaicos de Rupnik adotaram caminhos intermediários.
Em Fátima, terceiro grande templo mariano com painéis do padre, o santuário não removeu nem cobriu a obra, mas suspendeu o uso da imagem em material promocional desde que soube das denúncias.
Nos Estados Unidos, os Cavaleiros de Colombo cobriram fisicamente com papel a obra de Rupnik no Santuário Nacional São João Paulo II, em Washington, e em outro templo em Connecticut.
O cardeal Sean O'Malley, então à frente da comissão antiabusos da Santa Sé, chegou a pedir que as obras deixassem de ser expostas por sensibilidade às vítimas do padre.
Já o Centro Aletti, ateliê fundado por Rupnik em Roma e hoje dirigido por outra pessoa, classificou publicamente a pressão para retirada das obras como cultura do cancelamento.
Procurado em ocasiões anteriores pela imprensa, o Santuário Nacional de Aparecida informou apenas que os mosaicos seguem sob liderança e execução do Centro Aletti.
A resposta evita qualquer menção direta a Rupnik, transferindo a responsabilidade institucional ao ateliê, hoje sob direção da artista italiana e teóloga Maria Campatelli.
As obras da fachada oeste, retomadas após breve suspensão em agosto de 2023, foram concluídas sem que o santuário brasileiro alterasse publicamente sua posição sobre o autor.
A pausa de 2023 havia sido comunicada em carta aberta do delegado jesuíta Johan Verschueren, no momento em que a Companhia de Jesus formalizou a expulsão de Rupnik da ordem.
Passados dois anos, o projeto Jornada Bíblica é concluído sem qualquer sinalização de que o santuário pretenda revisar o uso da obra de um padre acusado por tantas mulheres.
A fachada norte, primeira do conjunto, foi inaugurada em março de 2022 com o tema do Êxodo, reunindo cerca de quatro mil metros quadrados de mosaico aplicados por 26 artistas do Centro Aletti.
A fachada sul, dedicada à Páscoa de Cristo, começou a ser revestida em 2022 e teve sua conclusão definitiva anunciada apenas em 2025, já com o processo canônico contra Rupnik em curso.
A fachada leste, com cenas do livro do Gênesis, foi inaugurada em 17 de maio de 2025 — quando Rupnik já estava expulso da ordem jesuíta e enfrentava julgamento pelas denúncias.
Agora, a fachada oeste, dedicada ao Apocalipse, fecha o ciclo iniciado em 2019, consolidando o maior conjunto mundial de mosaicos assinados por um padre acusado de abuso sexual.
Para quem observa o caso fora da perspectiva de fé, o episódio expõe como decisões sobre manter ou remover obras religiosas seguem critérios internos, sem qualquer controle público.
O projeto Jornada Bíblica é financiado pela Campanha dos Devotos, arrecadação entre fiéis católicos de todo o Brasil — recursos que não passam por fiscalização de órgãos de defesa de vítimas.
Como entidade religiosa, o Santuário de Aparecida goza da imunidade tributária garantida pela Constituição, o que isenta de impostos o patrimônio erguido com a obra de Rupnik.
Essa isenção, prevista para templos de qualquer culto, segue sendo tema de debate entre defensores da laicidade do Estado, que questionam os limites da renúncia fiscal a instituições religiosas.
Nenhuma norma brasileira exige que entidades religiosas prestem contas públicas sobre como avaliam denúncias contra membros do clero antes de manter obras assinadas por eles.
Enquanto isso, o caso segue tratado internamente pela Igreja: o Dicastério para a Doutrina da Fé concluiu a fase preliminar do julgamento canônico, sem prazo definido para uma decisão final.
Rupnik fez várias viagens ao Brasil
Não há, até o momento, qualquer indicativo de investigação civil brasileira relacionada à conduta do padre durante as obras realizadas no país desde 2019.
Em fevereiro de 2023, a Pontifícia Universidade Católica do Paraná revogou o título de Doutor Honoris Causa que havia concedido a Rupnik um ano antes, em reconhecimento à sua obra artística.
Já a PUC-SP, onde De Tommaso leciona, manteve a Sala Marko Ivan Rupnik em funcionamento, sem qualquer revisão pública do espaço dedicado à obra do padre acusado.
Questionado sobre o caso em entrevista, o então papa Francisco resumiu sua posição em poucas palavras: disse não ter tido nada a ver com a manutenção das obras nos santuários.
A frase contrasta com o histórico do próprio pontificado de Francisco, sob o qual a proteção institucional a Rupnik se manteve por anos, segundo relatos de vítimas e investigadores.
É justamente esse contraste que a revelação sobre Leão XIV reforça: enquanto o antecessor evitava se posicionar publicamente, o atual papa agiu de forma direta e discreta contra a imagem do padre.
A ordem para retirar as imagens de Vatican News partiu semanas após a eleição de Leão XIV, mostrando disposição pessoal do pontífice mesmo sem qualquer nota oficial sobre o assunto.
Essa mesma disposição levou, agora, à decisão do bispo de Lourdes de cobrir definitivamente a fachada da basílica francesa antes da chegada do papa à cidade.
O contraste entre Lourdes e Aparecida chama atenção porque, em ambos os casos, a aprovação institucional do Vaticano ao andamento das obras é ampla e nunca foi publicamente questionada.
Em Aparecida, porém, não há qualquer sinal de ocultamento: o santuário segue promovendo doações e prometendo registrar em livro os nomes de quem contribuiu para o projeto.
Os murais com a assinatura de Rupnik continuam descritos na página oficial do santuário, que detalha significado, data de criação, materiais utilizados e artistas envolvidos em cada painel.
O contraste entre a transparência de Aparecida sobre o projeto e o silêncio do Centro Aletti sobre o próprio Rupnik ilustra como cada instituição escolhe o que expor e o que omitir.
Para pesquisadores da área, o episódio reforça um padrão observado em diferentes casos de abuso na Igreja: a obra e o prestígio do acusado seguem sendo defendidos institucionalmente por anos.
O caso de Rupnik já é considerado um dos maiores escândalos de abuso ligados à arte sacra contemporânea, dada a extensão de sua obra em mais de 200 templos espalhados pelos cinco continentes.
Entre eles está a capela Redemptoris Mater, dentro do Palácio Apostólico no Vaticano — um dos espaços mais simbólicos ligados diretamente à residência papal.
A permanência da obra de Rupnik em espaços tão centrais da estrutura vaticana é um dos pontos mais citados por quem defende a retirada total das imagens, incluindo vítimas do padre.
Até a publicação desta reportagem, Wilma Steagall De Tommaso não havia se manifestado publicamente sobre a decisão do bispo de Lourdes de cobrir definitivamente os mosaicos de Rupnik.
A Sala Marko Ivan Rupnik, que ela coordena na PUC-SP, segue ativa e sem qualquer menção às denúncias contra o padre em sua página ou em materiais de divulgação de cursos.
O caso Rupnik começou a ganhar visibilidade pública em 2018, quando as primeiras denúncias contra o padre chegaram a autoridades da Companhia de Jesus, ainda de forma reservada.
Somente em dezembro de 2022 as acusações se tornaram amplamente conhecidas, após reportagens internacionais revelarem o histórico de denúncias na Comunidade Loyola, fundada por ele.
A comunidade religiosa ligada ao caso foi formalmente dissolvida pela Santa Sé em dezembro de 2023, um passo que a Igreja apresentou como parte da apuração das denúncias contra o padre.
Como comissário nomeado pelo Vaticano para acompanhar a extinção da comunidade, dom Daniel Libanori chegou a confirmar publicamente a veracidade de parte das acusações reunidas contra Rupnik.
Apesar disso, o Centro Aletti seguiu recebendo encomendas de mosaicos em templos ao redor do mundo mesmo depois da expulsão do fundador da ordem jesuíta, incluindo as fachadas de Aparecida.
Em nota enviada à imprensa em 2025, o ateliê afirmou que uma visita canônica do Vicariato de Roma atestou haver ali uma vida comunitária saudável, sem problemas específicos apontados.
Enquanto o debate segue restrito a esferas internas da Igreja, o padrão observado em Aparecida repete o que ocorreu nas fachadas norte, sul e leste: celebração pública sem menção às denúncias.
Em nenhuma das cerimônias de inauguração anteriores — 2022, 2023 e 2025 — o santuário mencionou publicamente as acusações contra o autor da obra que estava sendo apresentada aos fiéis.
O mesmo padrão deve se repetir neste sábado: a programação divulgada pela Rede Aparecida de Comunicação não inclui qualquer referência ao processo canônico em curso contra Rupnik.
A publicação institucional Arte que Evangeliza, mantida pelo santuário para descrever cada fachada, também não faz menção ao histórico de denúncias contra o autor dos mosaicos.
Do outro lado do Atlântico, a decisão de Lourdes segue caminho oposto: o próprio bispo Micas afirmou que seu papel é acolher primeiro quem sofreu, incluindo vítimas de abuso sexual e psicológico.
Segundo ele, pessoas feridas que buscam consolo devem manter o primeiro lugar no santuário francês — argumento usado para justificar a cobertura definitiva dos mosaicos de Rupnik ali.
A diferença de critério entre os dois maiores santuários marianos ligados à obra do padre reforça a tese de que, na ausência de uma diretriz vaticana única, cada diocese decide por conta própria.
Até o momento, a Santa Sé não editou nenhuma norma central determinando o que fazer com as obras de Rupnik espalhadas por templos católicos nos cinco continentes. |
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