Basílica francesa atende pedido de vítimas do ex-jesuíta, enquanto a Igreja brasileira mantém intactos os mosaicos do padre em Aparecida
O Santuário de Lourdes vai cobrir os mosaicos do padre esloveno Marko Rupnik durante a visita do papa Leão XIV à cidade francesa, marcada para o fim de setembro.
A medida atende a pedidos de vítimas do ex-jesuíta e de peregrinos que relatam desconforto ao ver as obras na Basílica de Nossa Senhora do Rosário.
Ilustração criada por inteligência artificial
A decisão foi tomada em conjunto pelo reitor do santuário, padre Michel Daubanes, e pelo bispo de Tarbes e Lourdes, dom Jean-Marc Micas.
Segundo Daubanes, o objetivo é duplo: criar um ambiente festivo durante a visita papal e ocultar obras já indissociáveis da tragédia dos abusos de Rupnik.
Os painéis, instalados em 2007 na fachada da basílica, foram dedicados à memória de João Paulo II e retratam cenas da vida de Jesus.
Rupnik responde a processo canônico por suposto abuso sexual e psicológico contra freiras e mulheres sob sua orientação espiritual em Roma e na Eslovênia.
O bispo Micas já vinha avaliando o futuro das peças. Entre maio e outubro de 2023, uma comissão foi criada junto ao santuário para estudar o caso.
Em julho de 2024, Micas informou que a remoção definitiva não havia sido decidida, para evitar aumento de tensões enquanto a comissão seguia seus trabalhos.
Na mesma ocasião, o santuário retirou a iluminação especial que destacava os mosaicos durante as peregrinações noturnas.
Em março de 2025, o bispo determinou que os mosaicos sobre a entrada principal e as duas portas laterais permanecessem no escuro.
A comissão responsável pela avaliação ainda não concluiu suas deliberações. Por ora, a cobertura das obras ficará restrita ao período da visita papal.
A informação foi divulgada pelo jornal católico francês La Vie, que detalhou os preparativos da viagem de Leão XIV à França, com dados da agência Ansa.
Apesar da repercussão internacional do caso, a Igreja Católica brasileira segue tratando o assunto como se não existisse.
A postura sugere que as instituições locais aguardam que as próprias vítimas movam ações diretas contra os bispos brasileiros, em vez de agir por iniciativa própria.
O conjunto mais representativo de mosaicos de Rupnik está no Brasil, na Basílica de Aparecida, maior santuário mariano do Brasil.
Em março de 2022, a Basílica inaugurou em sua fachada norte o maior mosaico do mundo assinado pelo padre esloveno, com a presença do próprio artista.
São quatro mil metros quadrados revestidos por pedras coloridas vindas do Brasil, da França, da Itália, da Grécia e do Afeganistão.
O site do Santuário Nacional de Aparecida traz apenas fotos das fachadas vistas de longe, sem mostrar de perto os traços característicos de Rupnik.
A escolha de imagens distantes sugere desconforto institucional com as obras, ainda que o santuário não tenha assumido publicamente qualquer posição sobre o caso.
Fiéis e a comunidade católica brasileira, de modo geral, não demonstraram até agora interesse em discutir publicamente a presença dos mosaicos no templo.
O caso remonta à década de 1990, quando Rupnik dirigia uma comunidade religiosa em Liubliana, capital da Eslovênia, hoje extinta pela própria Igreja local.
Em fevereiro de 2024, a ex-freira Gloria Branciani relatou em entrevista coletiva em Roma ter sofrido anos de abusos sexuais e psicológicos por parte de Rupnik.
Branciani afirmou que o padre manipulava a percepção espiritual de suas vítimas, tratando qualquer resistência aos seus pedidos como falha de obediência religiosa.
Outra ex-integrante da mesma comunidade, Mirjam Kovač, disse ter decidido falar para romper o que chamou de muro de silêncio erguido pelas autoridades da Igreja.
Em maio de 2020, Rupnik chegou a ser excomungado pela Companhia de Jesus após absolver em confissão uma mulher com quem mantinha relações sexuais.
A excomunhão foi revogada no mesmo mês, depois que o padre reconheceu a falta perante superiores da ordem, segundo relatos divulgados posteriormente.
Em dezembro de 2022, a Companhia de Jesus reconheceu publicamente apenas irregularidades na forma como Rupnik exercia o ministério, sem citar abuso de menores.
O padre foi expulso da ordem dos jesuítas em junho de 2023, mas segue sacerdote e não responde a processo criminal na Justiça civil por seus atos.
O cardeal Sean O'Malley, então à frente da comissão vaticana de proteção de menores, chegou a pedir a dicastérios do Vaticano que deixassem de expor as obras.
Em nota, O'Malley argumentou que manter os mosaicos expostos poderia sugerir indiferença institucional ao sofrimento das vítimas de abuso sexual clerical.
O prefeito do Departamento de Comunicação do Vaticano, Paolo Ruffini, defendeu publicamente a manutenção das obras, citando o caso do pintor Caravaggio.
Questionado sobre o tema em coletiva em Atlanta, Ruffini disse que retirar imagens das obras de um site não aproximaria a instituição das vítimas do padre.
O papa Leão XIV, em entrevista concedida em novembro de 2025, pediu paciência às mulheres que acusam Rupnik, citando o princípio da presunção de inocência.
O antecessor Francisco, por sua vez, afirmou em declaração pública não ter tido qualquer participação nas decisões relacionadas ao caso do ex-jesuíta.
No Brasil, um grupo de defensores de Rupnik segue atuando na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, na sala batizada com o nome do padre esloveno.
Em março de 2022, já com as denúncias públicas, a professora responsável pelo espaço chegou a descrever Rupnik como grande líder e pai espiritual em curso on-line.
Em fevereiro de 2023, a PUC do Paraná revogou o título de Doutor Honoris Causa concedido a Rupnik um ano antes, uma das poucas medidas concretas tomadas no país.
O processo aberto pelo Dicastério para a Doutrina da Fé, reaberto em 2023 a pedido de O'Malley, segue sem data prevista de conclusão.
Fontes: IstoÉ, Ansa, La Vie, Domani, Catholic News Service, Vatican News e Paulopes.
O Santuário de Lourdes vai cobrir os mosaicos do padre esloveno Marko Rupnik durante a visita do papa Leão XIV à cidade francesa, marcada para o fim de setembro.
A medida atende a pedidos de vítimas do ex-jesuíta e de peregrinos que relatam desconforto ao ver as obras na Basílica de Nossa Senhora do Rosário.
Ilustração criada por inteligência artificial
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Representação crítica de fachada da Basílica da Aparecida; à esquerda há a figura do padre acusado de estupro por dezenas de mulher |
A decisão foi tomada em conjunto pelo reitor do santuário, padre Michel Daubanes, e pelo bispo de Tarbes e Lourdes, dom Jean-Marc Micas.
Segundo Daubanes, o objetivo é duplo: criar um ambiente festivo durante a visita papal e ocultar obras já indissociáveis da tragédia dos abusos de Rupnik.
Os painéis, instalados em 2007 na fachada da basílica, foram dedicados à memória de João Paulo II e retratam cenas da vida de Jesus.
Rupnik responde a processo canônico por suposto abuso sexual e psicológico contra freiras e mulheres sob sua orientação espiritual em Roma e na Eslovênia.
O bispo Micas já vinha avaliando o futuro das peças. Entre maio e outubro de 2023, uma comissão foi criada junto ao santuário para estudar o caso.
Em julho de 2024, Micas informou que a remoção definitiva não havia sido decidida, para evitar aumento de tensões enquanto a comissão seguia seus trabalhos.
Na mesma ocasião, o santuário retirou a iluminação especial que destacava os mosaicos durante as peregrinações noturnas.
Em março de 2025, o bispo determinou que os mosaicos sobre a entrada principal e as duas portas laterais permanecessem no escuro.
A comissão responsável pela avaliação ainda não concluiu suas deliberações. Por ora, a cobertura das obras ficará restrita ao período da visita papal.
A informação foi divulgada pelo jornal católico francês La Vie, que detalhou os preparativos da viagem de Leão XIV à França, com dados da agência Ansa.
Apesar da repercussão internacional do caso, a Igreja Católica brasileira segue tratando o assunto como se não existisse.
A postura sugere que as instituições locais aguardam que as próprias vítimas movam ações diretas contra os bispos brasileiros, em vez de agir por iniciativa própria.
O conjunto mais representativo de mosaicos de Rupnik está no Brasil, na Basílica de Aparecida, maior santuário mariano do Brasil.
Em março de 2022, a Basílica inaugurou em sua fachada norte o maior mosaico do mundo assinado pelo padre esloveno, com a presença do próprio artista.
São quatro mil metros quadrados revestidos por pedras coloridas vindas do Brasil, da França, da Itália, da Grécia e do Afeganistão.
O site do Santuário Nacional de Aparecida traz apenas fotos das fachadas vistas de longe, sem mostrar de perto os traços característicos de Rupnik.
A escolha de imagens distantes sugere desconforto institucional com as obras, ainda que o santuário não tenha assumido publicamente qualquer posição sobre o caso.
Fiéis e a comunidade católica brasileira, de modo geral, não demonstraram até agora interesse em discutir publicamente a presença dos mosaicos no templo.
O caso remonta à década de 1990, quando Rupnik dirigia uma comunidade religiosa em Liubliana, capital da Eslovênia, hoje extinta pela própria Igreja local.
Em fevereiro de 2024, a ex-freira Gloria Branciani relatou em entrevista coletiva em Roma ter sofrido anos de abusos sexuais e psicológicos por parte de Rupnik.
Branciani afirmou que o padre manipulava a percepção espiritual de suas vítimas, tratando qualquer resistência aos seus pedidos como falha de obediência religiosa.
Outra ex-integrante da mesma comunidade, Mirjam Kovač, disse ter decidido falar para romper o que chamou de muro de silêncio erguido pelas autoridades da Igreja.
Em maio de 2020, Rupnik chegou a ser excomungado pela Companhia de Jesus após absolver em confissão uma mulher com quem mantinha relações sexuais.
A excomunhão foi revogada no mesmo mês, depois que o padre reconheceu a falta perante superiores da ordem, segundo relatos divulgados posteriormente.
Em dezembro de 2022, a Companhia de Jesus reconheceu publicamente apenas irregularidades na forma como Rupnik exercia o ministério, sem citar abuso de menores.
O padre foi expulso da ordem dos jesuítas em junho de 2023, mas segue sacerdote e não responde a processo criminal na Justiça civil por seus atos.
O cardeal Sean O'Malley, então à frente da comissão vaticana de proteção de menores, chegou a pedir a dicastérios do Vaticano que deixassem de expor as obras.
Em nota, O'Malley argumentou que manter os mosaicos expostos poderia sugerir indiferença institucional ao sofrimento das vítimas de abuso sexual clerical.
O prefeito do Departamento de Comunicação do Vaticano, Paolo Ruffini, defendeu publicamente a manutenção das obras, citando o caso do pintor Caravaggio.
Questionado sobre o tema em coletiva em Atlanta, Ruffini disse que retirar imagens das obras de um site não aproximaria a instituição das vítimas do padre.
O papa Leão XIV, em entrevista concedida em novembro de 2025, pediu paciência às mulheres que acusam Rupnik, citando o princípio da presunção de inocência.
O antecessor Francisco, por sua vez, afirmou em declaração pública não ter tido qualquer participação nas decisões relacionadas ao caso do ex-jesuíta.
No Brasil, um grupo de defensores de Rupnik segue atuando na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, na sala batizada com o nome do padre esloveno.
Em março de 2022, já com as denúncias públicas, a professora responsável pelo espaço chegou a descrever Rupnik como grande líder e pai espiritual em curso on-line.
Em fevereiro de 2023, a PUC do Paraná revogou o título de Doutor Honoris Causa concedido a Rupnik um ano antes, uma das poucas medidas concretas tomadas no país.
O processo aberto pelo Dicastério para a Doutrina da Fé, reaberto em 2023 a pedido de O'Malley, segue sem data prevista de conclusão.
Fontes: IstoÉ, Ansa, La Vie, Domani, Catholic News Service, Vatican News e Paulopes.

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