Entenda a conexão entre o movimento católico de 1964 e o evangélico atual na sustentação de rupturas democráticas e no combate ao suposto perigo vermelho
Os conservadores católicos de 1964 estão para o golpe militar assim como os conservadores evangélicos de hoje estão para a tentativa de golpe bolsonarista de 8 de janeiro de 2023.
Paulo Pachá, professor de história da UFF, explica que esse discurso idealiza uma Idade Média branca e patriarcal. Essa visão atrai grupos que se opõem ao Iluminismo e à ciência hoje.
No Brasil, o uso de termos cruzadistas por nomes como Filipe Martins ou em produções da Brasil Paralelo reforça a ideia de uma guerra religiosa contra a esquerda e o pensamento crítico.
O negacionismo histórico sobre 1964 e sobre o período medieval alimenta o autoritarismo. Ignorar a ciência histórica permite que velhas estratégias de controle social sejam repetidas.
Os conservadores católicos de 1964 estão para o golpe militar assim como os conservadores evangélicos de hoje estão para a tentativa de golpe bolsonarista de 8 de janeiro de 2023.
Ambos os grupos utilizaram a pauta moral e o medo do comunismo para mobilizar multidões. Em 1964, o alvo era João Goulart. Em 2023, o foco foi a contestação do resultado eleitoral.
O suporte religioso ao autoritarismo não é novo. Na década de 60, o slogan da extrema-direita foi "Família com Deus pela Liberdade", e agora, em 2018, na campanha das eleições de Jair Bolsonaro, o mote foi "Brasil acima de tudo, Deus acima de todos".
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Mulheres durante a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, em 1964, exibem uma faixa contra o regime cubano |
O suporte religioso ao autoritarismo não é novo. Na década de 60, o slogan da extrema-direita foi "Família com Deus pela Liberdade", e agora, em 2018, na campanha das eleições de Jair Bolsonaro, o mote foi "Brasil acima de tudo, Deus acima de todos".
As informações levantadas por Thiago Domenici, da Agência Pública, mostram como a fé foi transformada em ferramenta política de intervenção.
A noite de 13 de março de 1964 marcou o início da reação. João Goulart, presidente da República, anunciou reformas na Central do Brasil, no Rio de Janeiro (RJ). O anúncio assustou elites.
Em Belo Horizonte (MG), o deputado Leonel Brizola (PTB-RS) foi impedido de falar por mulheres com terços. Goulart avisou que rosários não deveriam ser erguidos contra o povo nas ruas.
A resposta veio em 19 de março, dia de São José. Cerca de 500 mil pessoas marcharam em São Paulo (SP). Era a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, saindo da Praça da República.
Faixas pediam proteção contra o "vermelho". Janaína Cordeiro, doutora em história pela Universidade Federal Fluminense (UFF), diz que o movimento nasceu da polarização política intensa.
As manifestantes eram majoritariamente donas de casa e professoras. Elas viam Goulart como uma ameaça aos valores cristãos. O evento foi organizado em apenas cinco dias em São Paulo (SP).
Figuras como Antônio Sílvio da Cunha Bueno (PSD-SP) e Laudo Natel, vice-governador paulista, articularam o ato. O governador Ademar de Barros arrecadou fundos com o empresariado local.
O suporte financeiro era robusto. A historiografia aponta que a Agência Central de Inteligência Americana (CIA) enviava dinheiro para institutos como o Ibad e o Ipes para sustentar atos.
O padre irlandês Patrick Peyton, da Congregação de Santa Cruz, foi peça central. Ele fundou a Cruzada do Rosário em Família. Peyton usava rádio e cinema para pregar contra o comunismo.
Isabella Villarinho Pereyra, doutora em história pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), relata que as marchas funcionavam como uma catarse coletiva de grupos femininos.
O Rosário era vendido como a única arma capaz de salvar o Brasil. A conexão entre Peyton e a inteligência dos EUA foi intermediada pelo empresário Peter Grace, amigo do diretor da CIA.
O financiamento vinha de Washington (EUA), mas a face era religiosa. Escritórios foram abertos em Recife (PE), Salvador (BA) e Curitiba (PR) para mobilizar mulheres e clérigos locais.
Muitas dessas mulheres eram parentes de militares e executivos. Cordeiro explica que a mobilização legitimava o golpe. Ele era apresentado como uma resposta ao clamor popular das ruas.
A CIA determinava os rumos das marchas. Jantares com a mídia e empresários eram agendados para garantir recursos. O programa Aliança para o Progresso também injetava dinheiro no país.
A narrativa "a verdadeira revolução foi sua mãe que fez" permitia que a CIA operasse sem parecer intervenção estrangeira. O golpe civil-militar-empresarial surpreendeu os democratas.
Boris Fausto, historiador, afirmou à Agência Pública que a marcha mostrou lastro social no meio urbano. Mas ele alerta que isso não representava o conjunto de toda a sociedade brasileira.
A grande imprensa, como o jornal O Estado de S. Paulo, ajudou a criar o pânico. O clima de "perigo vermelho" justificou a supressão de liberdades e a limpeza no parlamento nacional.
O golpe foi consumado em 1º de abril de 1964. A ditadura durou 21 anos. Perseguiu, torturou e matou opositores, conforme mostram registros históricos e obras cinematográficas recentes.
A noite de 13 de março de 1964 marcou o início da reação. João Goulart, presidente da República, anunciou reformas na Central do Brasil, no Rio de Janeiro (RJ). O anúncio assustou elites.
Em Belo Horizonte (MG), o deputado Leonel Brizola (PTB-RS) foi impedido de falar por mulheres com terços. Goulart avisou que rosários não deveriam ser erguidos contra o povo nas ruas.
A resposta veio em 19 de março, dia de São José. Cerca de 500 mil pessoas marcharam em São Paulo (SP). Era a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, saindo da Praça da República.
Faixas pediam proteção contra o "vermelho". Janaína Cordeiro, doutora em história pela Universidade Federal Fluminense (UFF), diz que o movimento nasceu da polarização política intensa.
As manifestantes eram majoritariamente donas de casa e professoras. Elas viam Goulart como uma ameaça aos valores cristãos. O evento foi organizado em apenas cinco dias em São Paulo (SP).
Figuras como Antônio Sílvio da Cunha Bueno (PSD-SP) e Laudo Natel, vice-governador paulista, articularam o ato. O governador Ademar de Barros arrecadou fundos com o empresariado local.
O suporte financeiro era robusto. A historiografia aponta que a Agência Central de Inteligência Americana (CIA) enviava dinheiro para institutos como o Ibad e o Ipes para sustentar atos.
O padre irlandês Patrick Peyton, da Congregação de Santa Cruz, foi peça central. Ele fundou a Cruzada do Rosário em Família. Peyton usava rádio e cinema para pregar contra o comunismo.
Isabella Villarinho Pereyra, doutora em história pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), relata que as marchas funcionavam como uma catarse coletiva de grupos femininos.
O Rosário era vendido como a única arma capaz de salvar o Brasil. A conexão entre Peyton e a inteligência dos EUA foi intermediada pelo empresário Peter Grace, amigo do diretor da CIA.
O financiamento vinha de Washington (EUA), mas a face era religiosa. Escritórios foram abertos em Recife (PE), Salvador (BA) e Curitiba (PR) para mobilizar mulheres e clérigos locais.
Muitas dessas mulheres eram parentes de militares e executivos. Cordeiro explica que a mobilização legitimava o golpe. Ele era apresentado como uma resposta ao clamor popular das ruas.
A CIA determinava os rumos das marchas. Jantares com a mídia e empresários eram agendados para garantir recursos. O programa Aliança para o Progresso também injetava dinheiro no país.
A narrativa "a verdadeira revolução foi sua mãe que fez" permitia que a CIA operasse sem parecer intervenção estrangeira. O golpe civil-militar-empresarial surpreendeu os democratas.
Boris Fausto, historiador, afirmou à Agência Pública que a marcha mostrou lastro social no meio urbano. Mas ele alerta que isso não representava o conjunto de toda a sociedade brasileira.
A grande imprensa, como o jornal O Estado de S. Paulo, ajudou a criar o pânico. O clima de "perigo vermelho" justificou a supressão de liberdades e a limpeza no parlamento nacional.
O golpe foi consumado em 1º de abril de 1964. A ditadura durou 21 anos. Perseguiu, torturou e matou opositores, conforme mostram registros históricos e obras cinematográficas recentes.
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Campanha eleitoral de Bolsaro também faz alusão a uma nova Cuba (foto de rede social) |
Atualmente, o discurso de "Nova Cruzada" reaparece. A expressão latina Deus vult (Deus quer) é usada pela extrema direita bolsonarista para justificar preconceitos e ataques às instituições.
Paulo Pachá, professor de história da UFF, explica que esse discurso idealiza uma Idade Média branca e patriarcal. Essa visão atrai grupos que se opõem ao Iluminismo e à ciência hoje.
No Brasil, o uso de termos cruzadistas por nomes como Filipe Martins ou em produções da Brasil Paralelo reforça a ideia de uma guerra religiosa contra a esquerda e o pensamento crítico.
O negacionismo histórico sobre 1964 e sobre o período medieval alimenta o autoritarismo. Ignorar a ciência histórica permite que velhas estratégias de controle social sejam repetidas.
Com informação de Thiago Domenici, Ethel Rudnitzki e Rafael Oliveira, da Agência Pública, jornalismo investigativo sem fins lucrativos e Paulopes.


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