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Assédio na sinagoga: a queda de Sternschein e o silêncio da Congregação Israelita

Revista piauí revelou denúncias contra o rabino Ruben Sternschein


A Congregação Israelita Paulista (CIP) comunicou o desligamento do rabino sênior Ruben Sternschein. A decisão foi anunciada aos associados na véspera do Natal, quarta-feira (24).

Em nota oficial, a instituição afirmou que o religioso exerceu a função com compromisso. O texto agradece o tempo dedicado e deseja êxito nos próximos projetos dele.

Laura Feldman, presidente da CIP, assinou o comunicado. O documento informa que as atividades religiosas e comunitárias seguirão sob responsabilidade do Comitê de Culto.

O comunicado omite os motivos da saída. Sternschein atuou na congregação por dezoito anos. Não há menção às mulheres que acusam o ex-rabino de assédio sexual e moral.



A revista piauí apurou que Sternschein foi demitido. A assessoria da CIP disse à reportagem que não faria comentários adicionais além da nota enviada aos membros.

Reportagem da revista publicada em outubro expôs a prática de investidas sexuais do religioso. Cinco mulheres relataram o comportamento impróprio na entidade.

A Conferência Central dos Rabinos Americanos (CCAR), em Nova York, recebeu um dossiê de cinco páginas. O documento lista quatro casos de assédio sexual e oito de moral.

O padrão das relações era similar. Segundo os relatos, começava com cantadas e atos libidinosos. Evoluía para encontros periódicos e terminava de forma conflituosa.

Os encontros eram consensuais, mas configuram assédio pela relação de poder. A hierarquia religiosa cria uma complexidade adicional nesses envolvimentos.

Os atos ocorriam no quarto andar da CIP. O escritório do rabino tem cerca de 12 m². O espaço serve para estudos e atendimento aos membros da comunidade judaica.

O local possui três paredes brancas e uma revestida com painel de madeira. Era nesse ambiente que o líder religioso recebia as mulheres para os encontros sexuais.

As vítimas chegavam quase sempre visando conversão ao judaísmo. Esse processo é rigoroso e demorado. Na CIP, o rabino Sternschein arbitrava essa etapa.

Uma denúncia formal surgiu em agosto de 2024. Laura Feldman chorou ao ler o relato e abraçou a denunciante, identificada como “Taís” pela reportagem.

Feldman afastou o rabino e abriu sindicância. A investigação durou 90 dias. Nenhuma testemunha aceitou depor e o procedimento acabou sem resultado concreto.

Diante do silêncio, o rabino voltou a exercer o posto. Em outubro, a CIP prometeu contratar consultoria externa após a matéria da piauí trazer o caso a público.

A entidade não informou o nome da empresa de consultoria. Fontes indicam que não houve nova sindicância interna. A CIP não comenta essa informação específica.

A piauí reconstruiu histórias como a de Taís. A psicóloga iniciou o curso de conversão em 2022 após conhecer a religião em um trabalho voluntário na África.

O primeiro beijo ocorreu no carro do rabino após uma reunião na sede. Sternschein ofereceu carona após flertes correspondidos durante o encontro religioso.

Eles tiveram relações sexuais três dias depois. Sternschein era divorciado, mas exigia segredo sobre o namoro. A situação durou cerca de um ano sob sigilo.

Em junho de 2023, outra mulher procurou Taís na sinagoga. Ela afirmou namorar o rabino e descobriu uma terceira envolvida. O religioso negou outros relacionamentos.

Taís rompeu o namoro na mesma conversa. Mas os dois continuaram a se encontrar esporadicamente dentro e fora das dependências da Congregação Israelita Paulista.

O rabino tentou reatar o relacionamento em várias ocasiões. Em um jantar na casa dele, Sternschein colocou a mão nas coxas da psicóloga de forma invasiva.

Na despedida desse encontro, ele tentou forçar uma situação sexual. Fez questão de mostrar a ereção e citou o primeiro beijo do casal. Taís recusou a investida.

Sternschein deixa a instituição definitivamente agora. Ele não se manifestou sobre a demissão até o fechamento desta edição.

> Com informação da revista piauí e ilustração de IA.

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