Editorial do jornal publicado no dia 31 de dezembro de 2025
O Globo
As imagens das praias cheias de gente vestida de branco, pulando sete ondas e oferecendo flores a Iemanjá no réveillon podem transmitir uma impressão enganosa. Elas sugerem um país de maioria católica que convive bem com crenças de matriz africana e outras religiões.
O Globo
É verdade que, na comparação com outros países, o Brasil tem retrospecto positivo na harmonia entre diversas crenças. Na prática, porém, têm sido registrados episódios frequentes de intolerância.
A tensão fica evidente no inquérito civil que o Ministério Público Federal instaurou para investigar suspeita de discriminação religiosa na organização do réveillon de 2025 pela Prefeitura do Rio, depois da queixa de que a programação priorizou atrações para o público evangélico em detrimento de outras religiões.
Além de criticar o palco gospel, sob o argumento de que os evangélicos foram favorecidos, representantes das religiões de matriz africana alegam que os terreiros foram pioneiros na festa de fim de ano na praia.
Privilégios a grupos específicos podem e devem ser questionados. A Prefeitura deveria ter se preocupado em oferecer espaço também a outras manifestações, como a cultura afro.
Privilégios a grupos específicos podem e devem ser questionados. A Prefeitura deveria ter se preocupado em oferecer espaço também a outras manifestações, como a cultura afro.
O próprio prefeito Eduardo Paes reconheceu isso implicitamente ao afirmar que “o réveillon da Praia de Copacabana é de todos” e que “alguns ajustes terão de ser feitos no próximo ano”. Mas, ainda que o réveillon à beira-mar seja tradição da umbanda e do candomblé, os evangélicos também devem ter direito a comemorar no espaço público.
As críticas ao palco gospel ocorrem num momento de escalada preocupante dos ataques de evangélicos radicais a umbandistas e candomblecistas. Num conjunto de 511 terreiros, 80% afirmaram ter sofrido, ao menos uma vez em dois anos, agressão verbal, xingamentos, ataques diretos ou abordagem policial discriminatória, situações identificadas pela expressão “racismo religioso”.
As críticas ao palco gospel ocorrem num momento de escalada preocupante dos ataques de evangélicos radicais a umbandistas e candomblecistas. Num conjunto de 511 terreiros, 80% afirmaram ter sofrido, ao menos uma vez em dois anos, agressão verbal, xingamentos, ataques diretos ou abordagem policial discriminatória, situações identificadas pela expressão “racismo religioso”.
É o que revela a pesquisa “Respeite o meu terreiro”, cujos resultados foram apresentados no início de dezembro em reunião da Organização das Nações Unidas na Suíça.
O levantamento — idealizado pela Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde e pelo terreiro Ilê Omolu Oxum, em parceria com o Ministério de Direitos Humanos e Cidadania — revelou que 76% foram alvo de diversas formas de violência, e 74% foram ameaçados, depredados ou destruídos.
São dados alarmantes, mas nem por isso surpreendentes. O Disque Direitos Humanos (Disque 100) registra agravamento do problema: houve 2.472 denúncias de casos de intolerância religiosa em 2024, alta de 66,8% em relação às denúncias em 2023 (1.481). Se considerados os dados registrados entre 2021 e 2024, as denúncias de violações cresceram 323,29%.
Autoridades precisam estar atentas e punir ataques à fé alheia exemplarmente, na forma da lei. O Brasil não pode ser leniente com a intolerância religiosa. Não importa de que campo político venha. Num Estado laico, a liberdade de culto garantida pela Constituição é sagrada.
São dados alarmantes, mas nem por isso surpreendentes. O Disque Direitos Humanos (Disque 100) registra agravamento do problema: houve 2.472 denúncias de casos de intolerância religiosa em 2024, alta de 66,8% em relação às denúncias em 2023 (1.481). Se considerados os dados registrados entre 2021 e 2024, as denúncias de violações cresceram 323,29%.
Autoridades precisam estar atentas e punir ataques à fé alheia exemplarmente, na forma da lei. O Brasil não pode ser leniente com a intolerância religiosa. Não importa de que campo político venha. Num Estado laico, a liberdade de culto garantida pela Constituição é sagrada.
> Esse texto foi publicado originalmente com o título Episódios de intolerância religiosa se chocam com imagem do Brasil. Ilustração é da OpenAi

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