Qualquer jornalista gostaria de saber por antecedência sobre a Operação Satiagraha e do dia de sua deflagração e fazer a cobertura com exclusividade da prisão do banqueiro Daniel Dantas, do megainvestidor Naji Nahas e do ex-prefeito Celso Pitta.
Pois bem: César Tralli (foto), da Rede Globo, conseguiu essas informações e teve acesso às decisões judiciais da autorização das prisões preventivas, e a cobertura da emissora sobre o caso foi muito boa.
E não é que agora a Polícia Federal está pressionando o Tralli para saber quem foi a sua fonte de informação?
Ora, a PF sabe muito bem que o sigilo da fonte de jornalista é protegido pela Constituição. Ninguém, nem a Justiça, pode obrigar Tralli a dizer quem lhe falou sobre a operação.
A Polícia Federal é que devia tomar as cautelas para impedir o vazamento da informação. Vazamento, veja só, que pode ter ocorrido por intermédio de alguém da própria instituição. Ou de dentro do governo, onde Daniel Dantas tem desafetos (mas também alguns ‘colaboradores’).
Pelo que sei, Tralli é um repórter batalhador, tem boas fontes, se bem que trabalhar na Globo, a líder de audiência, facilita muito o trabalho: muitas informações caem no colo.
O furo mesmo de reportagem foi de Andréa Michael, da Folha, que no dia 26 de abril publicou que a Polícia Federal estava investigando Daniel Dantas.
Foi com base nessa notícia que emissários de Dantas tentaram corromper com US$ 1 milhão um delegado da Polícia Federal para que o banqueiro e sua irmã, a Verônica, fossem excluídos das investigações.
Veja só: por ter feito o seu trabalho (com mérito), por pouco a repórter Andréa não foi presa preventivamente com Dantas, Nahas e Pitta.
O delegado Protógenes Queiroz, o responsável pela operação, além de prender a jornalista, queria que a Justiça autorizasse uma busca e apreensão na casa dela, como se a Andréa fizesse parte de quadrilhas de crimes financeiros.
O que é isso? Saudades da ditadura militar?
A Justiça negou o pedido do delegado; e a Folha respondeu à altura. Disse (cito de memória) que não aceita tal pressão e reafirmou que a liberdade de imprensa tem de ser respeitada por quem quer que seja.
ATUALIZAÇÃO
O diretor-executivo de jornalismo da Globo, Ali Kamel, divulgou nota defendendo Tralli e criticando o ministro Tarso Genro (Justiça), que se desculpou com as demais emissoras por terem levado o "furo".
Kamel também desafiou a Folha Online provar o que publicara, que o repórter tem um parente na cúpula da PF.
"É equivocada também a afirmação de que a Globo "obteve acesso exclusivo ao momento das prisões e também pôde filmá-las". A TV Globo não "obteve" nada; deu um furo, depois de meses de trabalho, e graças à credibilidade de que dispõe na sociedade e em múltiplas fontes de informação nas três esferas do Poder Público", diz.
> Dantas é alvo de outra investigação da PF. (Folha, edição de 26 de abril de 2008)
Comentários
Postar um comentário