Paulopes

Religião, ateísmo, teoria da evolução e astronomia

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terça-feira, 1 de março de 2016

Ex-astróloga adverte que a astrologia não é inofensiva

Astrologia é uma das mais antigas pseudociências

Åsa Dahlström Heuser (na foto abaixo), 59, a ateia de bom-humor, como se define na internet, adverte que a astrologia não é inofensiva como pode parecer, porque, entre outros males, pode criar estigmas, como o de que pessoas de determinados signos “não combinam” com os de outras.

Åsa (pronuncia-se “ôssa”) fala com a experiência de ter sido uma crente da astrologia que fez um percurso radical rumo ao ceticismo. Atualmente, ela é presidente da LiHS (Liga Humanista Secular do Brasil), entidade que se posiciona contra as pseudociências, como a astrologia, e defende o Estado laico.

Ela descende de suecos e nasceu na Finlândia. Casada há 41 anos, tem três filhos e quatro netos. Mora em Guaíba, Rio Grande do Sul.

Ela concedeu a este site uma entrevista por e-mail. Perguntas e respostas foram apresentadas por escrito.

A primeira parte da entrevista é sobre astrologia e segunda, sobre humanismo no Brasil e o Estado laico.


"Astrologia é crença ultrapassada"

Paulopes: Você era astróloga profissional e acabou rumando para o extremo oposto. Como se deu esse percurso? Ocorreu ao longo de um processo de conscientização ou se deu por um lampejo?


Åsa estudou
astrologia
por 20 anos
Åsa: Não sei se dá para dizer que alguma vez fui profissional. Estudei astrologia por um desejo muito grande de autoconhecimento (sempre me interessei muito por psicologia também), o meu objetivo principal era analisar a mim mesma. Com o tempo comecei a fazer mapas astrais de outras pessoas, mas no começo não cobrava nada. Depois comecei a cobrar um valor bastante baixo. Sempre que analisava um mapa a ênfase maior era nos aspectos psicológicos e como a pessoa poderia agir para resolver seus problemas emocionais e melhorar como pessoa. Mas sempre me considerei amadora, até o fim.

O meu processo de desconversão não foi tão longo, mas também não foi repentino. Quando entrei em contato com a STR (Sociedade da Terra Redonda) em 2000 comecei a ler textos sobre pesquisas que mostravam que a astrologia não era válida. Antes disso eu já havia começado a me sentir insegura, percebi que não conseguiria sustentar um argumento a favor da astrologia com uma pessoa cética como meu pai. Ainda assim foi complicado porque foram vinte anos estudando e praticando e na cidade onde morávamos onde eu era já conhecida por isso. Aí quando nos mudamos para outra cidade eu dei todo o meu material, vendi os livros e queimei os mapas astrais que tinha guardados. Me senti ótima.

A astrologia surgiu em uma época em que se acreditava que a Terra era o centro do universo. Como se explica o fato de ainda haver pessoas supostamente bem esclarecidas que acreditam nesse tipo de coisa?

As pessoas têm um anseio muito grande por algo que lhes dê uma explicação e também uma sensação de controle sobre as suas vidas. E os cálculos matemáticos envolvidas na elaboração dos mapas para calcular a posição dos planetas e luminares dão uma falsa sensação de que é algo científico. É o que acontece com quase todas as pseudociências. Também tem o fato de se usar a expressão "energia" que tem um apelo muito forte atualmente.

Há quem diga que a astrologia, se bem não faz, também não tem influência maléfica nas pessoas. Concorda com isso? A ampla divulgação de uma pseudociência pode ter efeito nulo?


Pode parecer que é inofensivo, mas não é. O fato de alguém ser de um determinado signo já faz com que as pessoas criem uma expectativa e apliquem um estereótipo naquela pessoa. Há a ideia de que certos signos "não combinam", ou torna a pessoa não confiável ou não adequada a certas profissões e funções. Recentemente soube que há empresas que usam o critério do signo como fator para aceitar ou rejeitar candidatos a emprego. E ainda tem as previsões, que podem fazer com que as pessoas mudem os seus planos.

Meu marido também é de Escorpião, como eu. Um dia há muitos anos vi nas previsões de um jornal (nunca acreditei nessas previsões mesmo quando praticava a astrologia) e vi a frase "prepare-se para mudar de estado civil". Falei para o meu marido, "acho que vamos ter que nos divorciar", e rimos.

Há muitas perdas e danos decorrentes de crenças em pseudociências, mas muito desse prejuízo — que por vezes inclui até vidas humanas — acaba por não ser documentado. Tim Farley, um engenheiro de software que vive nos EUA, criou um site que documenta algumas dessas perdas: http://whatstheharm.net/astrology.html

Uma pesquisa americana revelou que, entre os “crentes” da astrologia, a maioria é composta por mulheres? O que explica isso? As mulheres seriam mais suscetíveis a pseudociências? Por quê?

Provavelmente tem a ver com o fato de que sempre se atribui à mulher uma maior sensibilidade e intuição. E também se atribui às mulheres menor capacidade para as ciências exatas. Estereótipos que prejudicam bastante.

Em resumo, a astrologia está mais perto da religião ou da psicanálise?

Não sei se dá para comparar com qualquer um dos dois. É uma mistura de coisas, e há várias formas de se fazer astrologia, com vários enfoques diferentes. Se faz uma análise da personalidade e tendências, mas também se faz previsões para de alguma forma controlar o futuro. Existe uma vertente que analisa a que tipo de doenças e problemas a pessoa tem mais propensão, por exemplo.

Muita gente genuinamente acredita na astrologia e a pratica por imaginar que está acessando um conhecimento “oculto” e que pode ajudar as pessoas. Mas no fim das contas, astrologia é uma crença ultrapassada que não deveria mais ter lugar no século XXI. Pode ser até legal como expressão artística, mas não é ciência, nem tecnologia.





Religiosos não entendem que Estado laico beneficia a todos

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