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Religião, ateísmo, teoria da evolução e astronomia

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Lições de mortalidade que recebi do meu pai, Carl Sagan

Sasha escreve sobre as 
conversas que teve com seu pai

por Sasha Sagan

Morávamos em uma casa de pedra cor de areia com uma serpente alada gravada em um disco solar acima da porta. Parecia algo saído de antiga Suméria ou do Indiana Jones — mas, em ambos os casos, não seria algo que você esperaria encontrar em Ithaca [no Estado de Nova Iorque].

Na virada do século passado, a casa tinha sido sede de uma sociedade secreta ligada à Universidade de Cornell chamada Sphinx Head Tomb. Na segunda metade do século foram adicionados, nela, alguns quartos e uma cozinha. Na década de 1980, se tornou em uma casa particular onde eu morava com minha maravilhosa mãe e pai.

Meu pai, o astrônomo Carl Sagan, ensinou ciências espaciais e pensamento crítico na Universidade de Cornell. Por esse tempo, ele se tornou bem conhecido porque aparecia com frequência na televisão, onde ele inspirou milhões de pessoas com sua curiosidade contagiante sobre o universo. Mas foi em casa que ele e minha mãe, Ann Druyan, escreveram juntos livros, ensaios e roteiros juntos, trabalhando para popularizar a filosofia do método científico em contraposição à superstição, misticismo e fé cega, que estavam ameaçando dominam a cultura.

Meu pai e minha mãe estavam profundamente apaixonados — e agora, adulta, posso ver que suas colaborações profissionais eram mais uma expressão da sua união, um outro tipo de amor. Um desses projetos foi a série televisiva "Cosmos", organizado em 1980 pelo meu pai.

Naquela época, depois da escola e durante conversa à mesa de jantar, eu me envolvia com temas do "Cosmos", como a história secular do universo e a importância do exercício do pensamento crítico.

Meus pais pacientemente respondiam aos meus intermináveis "por quês?". As respostas nunca eram do tipo "porque eu disse isso" ou "é assim que é."

Cada pergunta era recebida como uma indagação que merecia uma resposta honesta. Mesmo as perguntas para a quais não existem respostas.

Um dia, quando eu ainda era muito jovem, perguntei ao meu pai sobre os pais dele. Eu conhecia intimamente os meus avós maternos, mas queria saber por que nunca tinha conhecido os pais do meu pai.

"Porque eles morreram", disse ele melancolicamente. "Será que você vai vê-los novamente", perguntei. Ele elaborou sua resposta cuidadosamente. Finalmente, disse não haver nada de que ele gostaria mais no mundo do que ver sua mãe e o pai de novo, mas que não tinha razão — e não há evidência — para apoiar a ideia de uma vida após a morte. Por isso ele não poderia se entregar a essa tentação.

"Por quê?" Então ele me disse, com muita ternura, que pode ser perigoso acreditar que sejam verdadeiras coisas só porque você deseja que elas sejam reais. Nessas circunstâncias, explicou, você pode ser enganada se não perguntar a si mesma e a outras pessoas.

Ele me disse que tudo o que é verdadeiramente real pode resistir a uma análise. Tanto quanto me lembro, esta é a primeira vez que comecei a entender a permanência da morte.

Como eu, naquela conversa, senti uma espécie de minicrise existencial, meus pais me confortaram sem se desviar de sua visão de mundo científica. "Você está viva neste exato segundo, e isso é uma coisa incrível", disseram-me.

Eles argumentaram que quando eu considerar o número quase infinito de bifurcações que levam a uma pessoa a nascer, eu ficaria grata por existir. Eles me falaram da enormidade dos potenciais universos alternativos onde, por exemplo, meus bisavós nunca se encontrariam, e eu nunca vir a ser.

Além disso, eles me disseram que eu tenho o prazer de viver em um planeta onde nós evoluímos para respirar o ar, beber a água e sentir o calor da estrela mais próxima.

Afirmaram que eu estava conectada com as gerações ancestrais por intermédio do DNA. E também ao universo, porque cada célula do meu corpo tinha vindo do coração das estrelas.

Meu pai é conhecido por ter tido que "nós somos feitos de substâncias de estrelas, e ele fez com que eu me sentisse assim.
Este texto foi publicado originalmente no New York Magazine e adaptado para o português por este site.





'Tudo veio do nada, e quem dá sentido à vida somos nós'
janeiro de 2012

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