Para Bellotto, Cristo Redentor parece não ter religião

por Tony Bellotto

"Expressão deste simpático senhor
não é um culto católico à dor"
Não sou de maneira nenhuma o que se chama de um cristão, e, se existiu mesmo esse profeta tal como é descrito, admiro muitas de suas ideias e palavras, embora não consiga acreditar que homens possam ser concebidos em úteros de mulheres virgens (não naquela época, pelo menos, em que a medicina reprodutiva inexistia), ou que tenham a capacidade de fato de ressuscitar mortos ou multiplicar peixes e pães.

Não se ofendam os crentes, por favor, não há nada de desabonador em ser gerado pela união carnal de um homem e uma mulher ou transformar atos reais em metáforas delirantes com fins didáticos, literários ou doutrinários.

Uma coisa que sempre me incomodou na ideologia católica é o culto à dor e à agonia, expressas pelo Cristo crucificado e sofredor, como uma metáfora da vida terrena – aquela em que se padece – em oposição à vida eterna, ou à vida após a morte (um paradoxo que nunca me convenceu) – aquela em que se é redimido dos pecados terrenos, ou seja, das coisas boas (e reveladoras) da vida: o sexo, a gula, as ambiguidades, as incertezas, o sexo, a bebida, as dúvidas, as ilusões, o sexo, o jogo, o inconformismo, o medo, a loucura, o sangue, a morte, o sexo, a ciência etc.

Falo do Cristo porque o Cristo Redentor, aquele simpático senhor esculpido em concreto e pedra sabão que nos saúda de braços abertos do alto do Corcovado, completa 80 anos. O Cristo carioca, apesar dos braços abertos que evocam a posição do Cristo crucificado e agonizante pregado na cruz, não traz a dor nem o sofrimento estampados em sua expressão.

O Cristo carioca é sorridente, magnânimo, acolhedor e super gente boa, como dizem cariocas e turistas (e paulistas que vivem no Rio) ao contemplá-lo de quase qualquer canto da cidade. Parabéns a esse Cristo carioca, um Cristo diferente, um Cristo que não sofre, um Cristo que não morre, um Cristo sorridente, um Cristo colorido, um Cristo – se me permitem a heresia – sem religião.

Este texto foi publicado originalmente no site da revista Veja.





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fevereiro de 2010

Tony Bellotto, ateu famoso