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Religião, ateísmo, teoria da evolução e astronomia

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domingo, 31 de março de 2013

Ateus 'saem do armário' para enfrentar o preconceito

por Diene Batista
da Tribuna do Planalto

Mais pessoas assumem sua
descrença, mas com cautela
Aos 19 anos, o professor Fernando da Silva Ribeiro já não acreditava em nenhuma divindade. Ao ingressar no curso de História, por meio de leituras e de estudos, seu posicionamento cético – motivado inicialmente pelos casos de corrupção e de tortura na Igreja Católica - foi confirmado. Na universidade, o rapaz, criado em berço católico, percebeu que não estava sozinho. Segundo ele, outras pessoas também compartilhavam a visão de que é na ciência, e não na religião, que respostas para inquietações que perturbam a humanidade podem ser encontradas.

Hoje, aos 29, Ribeiro se diz ateu. “Vivo muito bem sem nenhum tipo de divindade”, afiança. Ele só titubeia em revelar a opção religiosa no ambiente de trabalho. “Não escondo, mas não costumo contar para todo mundo. Quero evitar conclusões precipitadas”, justifica, temendo que o ateísmo seja mal interpretado pelos seus alunos, em geral adolescentes. A cautela do professor tem pertinência. Para muitos, como o apresentador José Luiz Datena, da Rede Bandeirantes, a ausência de fé é responsável direta por casos de violência. 

No programa Brasil Urgen­te exibido em julho de 2010, o jornalista relacionou o fuzilamento de um garoto ao ateísmo. “Um sujeito que é ateu não tem limites, e é por isso que a gente vê esses crimes aí”, garantiu. Condenada em ação movida pelo Ministério Público Federal em São Paulo (MPF/SP), a Band terá que exibir em rede nacional, durante o programa de Datena, quadros com esclarecimentos sobre a diversidade religiosa e a liberdade de crença no Brasil.

O receio do professor em revelar abertamente sua opção religiosa e a declaração preconceituosa do apresentador da Band ilustram a situação vivida pelos ateus no país. Inseridos no grupo dos sem religião, que engloba também os agnósticos (veja diferença no box), eles estão saindo do “armário”. De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2000, 12,5 milhões (7,3%) de brasileiros diziam não seguir nenhuma religião. Em 2010, esse número passou para 15 milhões (8,0%). Desses, pelo menos 615 mil seriam ateus.

Por outro lado, o preconceito em relação aos ateus ainda persiste. É nesse contexto que a internet emerge como uma importante aliada, como de­mon­stra a adesão à página da Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos (Atea), mantida pelo grupo no Face­book desde 2010. Já são mais de 230 mil curtidores, comemora o presidente fundador da Atea, Daniel Sotto­maior. O número corresponde a cerca de um terço do total de brasileiros que se declaram ateus. No mundo “real”, são cerca de 7.800 associados à entidade. 

Além de combater o preconceito, a Atea, fundada por Sottomaior em 2008, tem o objetivo de lutar pela laicidade do Estado, tendo o ativismo judicial como principal forma de atuação. A condenação do apresentador José Luiz Datena e da Bandeirantes é o principal exemplo do êxito das ações da Atea nesse âmbito. A opção pelas vias judiciais é amparada por levantamentos de diversos institutos que colocam os ateus no topo da lista de renegados pela população em geral.
 
Sottomaior cita pelo menos dois desses estudos. Pesquisa CNT/Sensus, encomendada pela revista Veja, descobriu que apenas 13% dos brasileiros votariam em um candidato ateu para presidente da República. Em contrapartida, 84% dos brasileiros elegeriam um negro; 57% dariam o voto a uma mulher e 32% aceitariam votar em um homossexual. Já estudo da Fundação Perseu Abramo, realizado em 2008, concluiu que 42% das pessoas entrevistadas sentem antipatia pelos ateus.
Eles estão em primeiro lugar no quesito repulsa/ódio, sentimento despertado em 17% dos entrevistados; e na categoria "antipatia", sensação citada por 25% dos entrevistados. “Os ateus não conseguem acessar cargos do legislativo e do executivo, o que dificulta a entrada da nossa agenda no debate público”, justifica o fundador da Atea. “Na web, conseguimos uma capilaridade maior”, assegura.

De um lado, a imagem do genial Charles Chaplin. De outro, o rosto do líder nazista Adolf Hitler. Junto com essas fotos, a afirmação “religião não define caráter.” Ateu, Chaplin deixou como herança uma extensa e admirada obra cinematográfica. Crente, Hitler foi responsável pelo massacre de milhões de judeus durante a 2ª Guerra Mundial. A mensagem, que tem o claro objetivo de combater o preconceito em relação aos ateus, foi espalhada em outdoors nas ruas de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, há pouco mais de um ano. 

A ação, encabeçada pela Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos (Atea), circularia pela cidade nas traseiras dos ônibus. Não deu certo. Companhias de transporte de São Paulo, Salvador, Floria­nópolis e Porto Alegre se negaram a veicular as propagandas. Se no mundo real há dificuldade para divulgar o ateísmo, no mundo virtual a militância vai muito bem, obrigada. O analista de e-commerce Matheus de Oliveira Marques, 21, diz ser ateu há seis anos, acompanha a página da Atea no Facebook. O espaço é seguido por pelo menos outras 230 mil pessoas.

“Na internet é possível promover debates inteligentes”, defende Marques, que teve em bandas ligadas ao Death Metal e ao Black Metal, subgêneros do Heavy Metal, a inspiração para confirmar seu ceticismo. Ele relata que ainda não é tarefa simples se declarar ateu. Os pais, católicos, não aceitam a opção religiosa do filho. “Fiz primeira comunhão, crisma, mas apenas para satisfazer a vontade da minha família”, lembra o jovem, que ainda frequentou reuniões evangélicas e espíritas.

Além dos debates, a internet fomenta a realização de eventos no mundo ''real'', como o 2º Encontro Nacional de Ates, organizado pelo Facebook e realizado no último mês, em 28 cidades de 25 cidades brasileiras, incluindo o Distrito Federal. Para se ter uma ideia, em São Paulo, a edição deste ano arrebanhou 750 pessoas, mais do que o dobro da quantidade de participantes de 2012. Para o doutor em Ciências da Religião, Valmor da Silva, “o ateu brasileiro é uma espécie de militante religioso.”

A definição aparentemente contraditória pode ser justificada, segundo o especialista, “porque a natureza humana que molda as pessoas no Brasil é mais afeto, emoção e sentimento, do que propriamente razão.” Assim, diz ele, ao declarar-se ateu ou agnóstico, a pessoa está descobrindo sua fé autêntica. A militância, porém, não pressupõe o acirramento nas relações com os filiados a alguma religião. 

Silva, que também é professor do departamento de Ciên­cias da Religião da PUC Goiás, cita a convivência harmoniosa e integradora experimentada, historicamente, pelo Brasil como argumento para rechaçar possíveis enfrentamentos entre religiosos e céticos. “Grupos ateus ou agnósticos surgem como um componente a mais do nosso mosaico religioso e cultural”, garante.





BBC Brasil destaca empenho da Atea na defesa da laicidade
fevereiro de 2013

Ateísmo


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