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Religião, ateísmo, teoria da evolução e astronomia

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Por que religiosos acham que secularismo é um urso feroz?

Título original: A religião está realmente sob ameaça?

por Julian Baggini para The Guardian

O secularismo é uma ameaça real
ou ele está sendo distorcido?
Pessoas com fé dizem que o secularismo se tornou uma força agressiva e intolerante na Grã-Bretanha. O que deu errado? Ele deveria unir a sociedade.

Um fantasma ronda a Europa – o fantasma do secularismo. Todos os poderes da velha Europa entraram em uma sagrada aliança para exorcizar esse fantasma: o papa, os políticos tanto do partido Conservador quanto Trabalhista, Melanie Phillips [jornalista e escritora britânica]...

Parece estranho pedir emprestadas as palavras de abertura do Manifesto Comunista Marx e Engels para descrever o secularismo e achá-los muito apropriadas. Para alguém como eu, que sempre viu o ideal secularista como o legado mais benigno do Iluminismo, é um pouco como descobrir que o seu ursinho de pelúcia está sendo retratado como um urso feroz e arrasador.

Mas não há dúvida de que o secularismo é cada vez mais visto como uma ameaça à liberdade em vez do seu mais vigoroso defensor. A presidente do Partido Conservador, Lady Warsi, foi a última pessoa a soar o alarme, falando do seu "medo" de que "a secularização militante está tomando conta das nossas sociedades". Ela não faz rodeios ao afirmar que, "em sua essência e em seus instintos, ele é profundamente intolerante" e "demonstra traços semelhantes aos regimes totalitários".

Líder conservadora 
associa secularismo
ao males do nazismo

Praticamente a mesma mensagem veio de David Lammy, do Partido Trabalhista, no programa Friday's Any Questions?, da Radio 4, quando atacou "um secularismo agressivo que está afogando a capacidade das pessoas de fé de viver com essa fé".

Warsi está levando essa mensagem ao papa, o que é um pouco como levar pizza para Nápoles. Na visita do pontífice ao Reino Unido em 2010, ele também protestou contra "formas agressivas de secularismo", comparando-as aos males do nazismo e afirmando que "a exclusão de Deus, da religião e da virtude da vida pública leva, finalmente, a uma visão truncada do ser humano e da sociedade".

Outros clérigos o seguiram. O líder da Igreja Católica na Escócia, cardeal Keith O'Brien, usou seu último sermão de Páscoa para condenar o "secularismo agressivo" que tenta "destruir a nossa herança e cultura cristãs e tirar Deus da praça pública".

E a lista daqueles que disseram coisas semelhantes é interminável. Mas quanto as pessoas estão aterrorizadas com isso? O secularismo é realmente uma ameaça, ou ele simplesmente tem sido distorcido por seus críticos, seus defensores ou ambos?

Para responder a isso, poderíamos fazer pior do que começar com os supostos exemplos mais recentes da terrível perseguição dos cristãos do país: a decisão da Suprema Corte na última sexta-feira de que as orações não fazem parte legítima de um conselho empresarial formal. A isso se seguiu a manutenção da sentença do Tribunal de Recurso contra dois donos de pousada cristãos, Peter e Hazelmary Bull, que afirmava que eles eram culpados de discriminação por não permitir que casais gays ficassem em quartos duplos.

O alarmista antissecular vê ambas as decisões como um indicativo dos tempos, quando, como Warsi afirma, "sinais religiosos não podem ser expostos ou usados em edifícios governamentais; quando os Estados não financiam escolas religiosas; e onde a religião é posta de lado, marginalizada e rebaixada na esfera pública".

Cristianismo age como
estivesse de novo sob uma
chuva de cassetetes


É difícil levar a sério a ideia de que disso representa uma ameaça mortal à religião na vida pública. Eu só posso afirmar que o cristianismo sempre se fortaleceu na perseguição, e ele está forçando um pouco demais ao se retratar como se estivesse debaixo de uma chuva de cassetetes novamente, quando, na verdade, em grande parte, ele está sendo apenas ignorado.

No entanto, a outra extremidade da linguagem – as comparações com o nazismo e o modo em que tais afirmações estão cada vez mais vistas como verdades autoevidentes – nos diz que algo deu errado com o secularismo na Grã-Bretanha. E o problema, eu acho, é que ele perdeu a sua alma secular.

O secularismo, no sentido político, não é um projeto abrangente para varrer a religião completamente para fora da vida pública. Nem é uma celebração da ciência sem Deus, como o plano mal concebido de Alain de Botton para a construção de um "templo para ateus" de 46 metros na cidade de Londres. Ao contrário, ele é – ou deveria ser – uma forma maravilhosamente simples de aproximar as pessoas de todas as fés ou de nenhuma, não um meio de opô-las.

Tudo remonta a como entendemos o princípio secularista fundamental da neutralidade na praça pública. A neutralidade significa exatamente isto: não se posicionar nem a favor nem contra a religião ou qualquer outra visão abrangente de mundo. É por isso que, em teoria, senão na prática, os Estados Unidos é tanto culturalmente o país mais religioso do Ocidente desenvolvido, quanto, constitucionalmente, o mais secular.

Lá, compreende-se claramente que o valor do secularismo é que ele permite que todas as fés sejam praticadas livremente, sem que nenhuma delas desfrute de um lugar especial no coração do poder. Isso explica porque, quando eu participei uma vez de um painel de discussões com um Batista do Sul, uma das denominações mais conservadoras, ele estava tão entusiasmado com o secularismo quanto eu.

Por que, então, na Grã-Bretanha, o secularismo passou a ser visto como hostil à religião? Porque muitas vezes assume-se que a neutralidade exige a dissolução de todos os vestígios da fé, excluindo a crença o discurso religioso da vida pública. Mas isso não acontece, e nós podemos ver por que pelo apelo à noção de razão pública articulado mais claramente pelo falecido filósofo político John Rawls.

Rawls era bastante claro de que os religiosos não têm nenhuma obrigação de manter a sua fé inteiramente para si mesmos. "Doutrinas abrangentes e razoáveis, religiosas ou não religiosas, podem ser introduzidas na discussão política pública a qualquer momento", escreveu ele, "desde que, em seu devido momento, apresentem-se razões políticas adequadas – e não razões dadas apenas por doutrinas abrangentes – que sejam suficientes para defender o que quer que seja que as doutrinas abrangentes dizem defender".

A linguagem certamente tem uma aridez jurisprudencial, mas a mensagem é bastante clara. Quando entramos na praça pública, somos obrigados a falar uns com os outros em termos que podemos compartilhar e compreender, e não de formas que estejam vinculadas às nossas "doutrinas abrangentes" específicas.

Se estivermos debatendo a ética do aborto, por exemplo, não chegaremos a lugar algum se alguns insistirem que seus pontos de vista repousam sobre sua fé católica, enquanto outros inexoravelmente tiram os seus do seu ateísmo. O que todos nós precisamos fazer é fornecer razões que tenham algo a oferecer para as outras pessoas em sua qualidade de concidadãos, independentemente de suas visões de mundo. Isso não significa negar ou mesmo encobrir o fato de que temos motivações religiosas ou outras para acreditar naquilo que acreditamos. É simplesmente reconhecer que não podemos esperar que eles carreguem qualquer peso com os outros.

Novos ateus acabaram 
com o silêncio educado
que cercava a religião

Por que então o evidente melindre sobre falar de religião na vida pública? A resposta curta é que nós simplesmente não estamos acostumados com isso.

O mais impressionante da observação de Alastair Campbell, em 2003, de que "nós não nos ocupamos de Deus" foi que, até então, era absolutamente preciso dizer isso. Quase ninguém se ocupava de Deus em público.

O discurso público refletia o fato de que a fé de muitos é, como David Cameron descreveu, "um pouco como pegar a rádio Magia FM em Chilterns: ela meio que vai e vem". Ou como uma pesquisa da BBC concluiu, o maior grupo na Grã-Bretanha são os de "fé vaga". Assim, a religião era ocasionalmente vista e raramente ouvida, e essa era assim que as pessoas gostavam.

As coisas mudaram por várias razões. Vários dos chamados novos ateus dizem que o 11 de setembro os motivou a levantar o silêncio educado que cercava a religião e lançar seus ataques. O Islã mudou a agenda e, com ela, a religião em geral. Mas agora que a fé está a céu aberto não parecemos saber o que fazer com ela.

O despertar de uma seriedade religiosa que parecia estar em um estado vegetativo permanente perturbou os secularistas que talvez estivessem então muito preocupados para sedá-la novamente. Mas, como os romanos aprenderam, quanto mais um grupo se sente perseguido, mais forte, e não fraco, ele fica. Eles também são estimulados pelas simpatias daqueles de fé vaga, que muitas vezes veem os semelhantes a Richard Dawkins como pestes furiosas, mesquinhas e agressivas.

Uma das causas disso foi, creio eu, um clássico erro racionalista. É verdade que não há nada de justo ou democrático com relação a ter deselegido bispos anglicanos na Câmara dos Lordes. Não há nenhuma razão para que a religião tenha um espaço protegido chamado Thought for the Day [Pensamento do Dia] no meio do principal programa de notícias da emissora nacional. Uma reunião de conselho não é lugar para orações. Mas todas essas anomalias existem porque a Grã-Bretanha tem uma história enraizada na Cristandade. Onde a tradição voa em face à razão e à justiça, ela deve ser desmantelada. Mas quando ela simplesmente as importuna, muitas vezes é melhor permitir a passagem do tempo para que corroa essas reminiscências anacrônicas do que tentar demoli-las.

A maioria das pessoas, ao contrário, parece gostar dessas heranças estranhas ou são indiferentes a elas. Por isso, quando elas se transformam em locais totêmicos de batalha, o público em geral olha perplexo.

Mas o erro central é simplesmente perder de vista o fato de que o secularismo realmente é um princípio muito específico acerca do funcionamento das instituições públicas e políticas. Enquanto elas operam sem conceder privilégios a nenhuma visão de mundo particularmente abrangente, o secularismo não tem nada a dizer sobre quanto o resto da sociedade e do discurso público deveria ser religioso.

Secularistas deveriam
evitar o exagero da
proibição das orações

Para defender os ideais secularistas, portanto, nós precisamos renová-los. A neutralidade do Estado deve ser ferozmente defendida quando se trata de legislação e de instituições-chave. Mas, assim como com aquilo que acontece além desse núcleo, os secularistas deveriam estar mais relaxados. E se devemos nos queixar, precisamos fazê-lo seletiva e proporcionalmente. Deseleger bispos na Câmara dos Lordes é indefensável, e devemos nos posicionar firme e persistentemente contra isso. Mas tentar usar a Lei dos Direitos Humanos para frear as orações em uma reunião atinge muitos, mesmo aqueles simpáticos à causa, como um exagero. E debater ano após ano sobre o Thought for the Day parece mais uma obsessão do que uma busca de justiça.

O que eu estou defendendo é, em parte, pragmático, mas o seu núcleo é inteiramente baseado em princípios. Permitir a livre expressão e discussão da religião é tanto um princípio inegociável do secularismo, quanto a manutenção da neutralidade das instituições centrais da sociedade civil. Pode ser injusto criticar os secularistas por serem "militantes" ou "agressivos", mas muitas vezes somos desajeitados e desastrados. Se o secularismo passou a ser visto como o inimigo do religioso quando deveria ser seu melhor amigo, então nós, secularistas, devemos compartilhar ao menos uma parte da culpa.

Este texto foi traduzido por Moisés Sbardelotto para IHU On-line. Julian Baggini é autor de “Ateísmo: Uma Breve Introdução” (sem tradução para o português), entre outros livros. Ele é editor de uma sobre filosofa.





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Secularização


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