Pular para o conteúdo principal

Chile e Uruguai estão entre os países que mais tiveram aumento de população sem religião

Os escândalos de pedofilia na Igreja Católica têm ajudado as pessoas a se afastarem de instituições religiosas


Dois países da América Latina — Chile e Uruguai — estão entre os países cuja população sem religião mais aumentou entre 2010 e 2020, com 16 pontos percentuais.

Somente a Austrália, com 17,5, apresentou mais pontos. A pesquisa é do Pew Research Center.

Em uma lista de 35 países, o Brasil ficou na rabeira, com 5,4 pontos percentuais, acima apenas do Japão (5,3%) e Luxemburgo (5,1%).

Crescimento da população sem religião (2010–2020)

Austrália
+17,5%
Chile
+16,7%
Uruguai
+16,1%
Estados Unidos
+13,3%
Estônia
+12,1%
Reino Unido
+11,4%
Canadá
+10,8%
Suíça
+10,7%
Irlanda
+9,5%
Guiné-Bissau
+9,2%
Áustria
+8,9%
Bielorrússia
+8,8%
Países Baixos
+8,6%
Finlândia
+8,5%
França
+8,2%
Noruega
+7,8%
Suécia
+7,4%
Espanha
+7,4%
Nova Zelândia
+7,2%
Rússia
+7,2%
Cabo Verde
+7,0%
Bélgica
+7,0%
Coreia do Sul
+6,9%
Portugal
+6,6%
Itália
+6,5%
Polônia
+6,0%
Letônia
+6,0%
Eslovênia
+5,8%
México
+5,8%
Bolívia
+5,6%
Vietnã
+5,5%
Namíbia
+5,4%
Brasil
+5,4%
Japão
+5,3%
Luxemburgo
+5,1%
Os dados integram o relatório How the Global Religious Landscape Changed from 2010 to 2020, publicado pelo Pew Research Center em junho de 2025.

Segundo o levantamento, a proporção de pessoas sem filiação religiosa cresceu em todas as regiões do mundo na última década, mas com ritmos muito diferentes.

A América Latina como um todo avançou de forma moderada — com exceção notável do cone sul do continente, onde Chile e Uruguai acompanharam o ritmo das economias mais secularizadas do Ocidente. Por que o Chile?

No Chile, o colapso da autoridade da Igreja Católica é apontado por especialistas como o fator central da virada.

O escândalo envolvendo o padre Fernando Karadima — condenado pelo Vaticano em 2011 por abuso sexual de menores durante décadas — desencadeou uma crise sem precedentes.

Karadima era uma das figuras mais influentes do catolicismo chileno, formador de padres e bispos. Sua condenação — e a demora da Igreja em agir — destruiu a credibilidade institucional.

Um artigo publicado em 2024 no International Journal of Latin American Religions analisou os efeitos de coorte e período na desafiliação religiosa no Chile.

A conclusão foi de que os jovens chilenos abandonaram o catolicismo em proporção muito maior do que gerações anteriores, em processo acelerado pelos escândalos de abuso e pelo crescente conflito entre os valores da Igreja e os da sociedade — especialmente em relação aos direitos das mulheres e da comunidade LGBTQ+.

O movimento feminista chileno, que ganhou projeção internacional com os protestos de 2018 e 2019, foi um catalisador.

A Igreja, historicamente contrária ao aborto, ao divórcio e à diversidade sexual, perdeu respaldo entre as mulheres mais escolarizadas — justamente o segmento que mais cresceu no ensino superior nas últimas décadas.

Segundo a London School of Economics, a visita do papa Francisco ao Chile em 2018 — marcada por protestos e vandalismo de igrejas — exibiu com clareza a erosão da legitimidade católica.

A pesquisa Pew de janeiro de 2026, que atualizou dados para toda a América Latina, confirma que o Chile é hoje um dos países da região com maior proporção de pessoas sem religião. Por que o Uruguai?

O caso uruguaio é diferente, mas igualmente revelador. O Uruguai tem uma das histórias mais longas de laicismo institucional nas Américas.

No início do século XX, o presidente José Batlle y Ordóñez promoveu reformas radicais que separaram a Igreja do Estado, secularizaram a educação pública e até renomearam datas religiosas — o Natal virou “Dia da Família” e a Semana Santa tornou-se “Semana do Turismo”.

Esse legado criou uma cultura política em que a religião é vista como assunto privado, não público. Décadas de educação laica produziram gerações habituadas a distinguir entre crença pessoal e esfera pública.

O resultado é que o Uruguai já era, há muito, o país mais secular da América Latina — e a tendência de queda da filiação religiosa simplesmente se aprofundou na última década.

O Uruguai também legalizou o casamento entre pessoas do mesmo sexo (2013), o aborto (2012) e a produção e venda de maconha (2013), antes da maioria dos países ocidentais.

Essas políticas progressistas não apenas refletiram como reforçaram o distanciamento da sociedade uruguaia das instituições religiosas tradicionais. Brasil na contramão

O contraste com o Brasil é significativo. Enquanto Chile e Uruguai aceleraram a secularização, o Brasil manteve uma religiosidade estruturalmente alta — mesmo com o avanço dos “sem religião”, que já somam cerca de 10% da população segundo o Censo 2022 do IBGE.

A taxa de crescimento de 5,4 pontos percentuais registrada pelo Pew coloca o Brasil no antepenúltimo lugar da lista, à frente apenas de Japão e Luxemburgo.

Pesquisadores apontam que, no Brasil, o crescimento das igrejas neopentecostais compensou a queda do catolicismo — diferentemente de Chile e Uruguai, onde não houve esse “colchão” evangélico.

Além disso, a religiosidade no Brasil tem forte componente cultural e identitário, o que retarda o processo de desafiliação formal.

O quadro global desenhado pelo Pew é claro: a secularização avança — mas de formas muito distintas, moldadas por história, cultura e crises institucionais específicas de cada país.

Chile e Uruguai mostram que, mesmo na América Latina, região historicamente marcada pelo catolicismo, a descrença pode crescer de forma acelerada quando as condições políticas, educacionais e éticas se combinam.


Sem religião e jovens lideram apoio à morte assistida no Brasil

Comentários

Post mais lidos nos últimos 7 dias