Os escândalos de pedofilia na Igreja Católica têm ajudado as pessoas a se afastarem de instituições religiosas
Dois países da América Latina — Chile e Uruguai — estão entre os países cuja população sem religião mais aumentou entre 2010 e 2020, com 16 pontos percentuais.
Somente a Austrália, com 17,5, apresentou mais pontos. A pesquisa é do Pew Research Center.
Em uma lista de 35 países, o Brasil ficou na rabeira, com 5,4 pontos percentuais, acima apenas do Japão (5,3%) e Luxemburgo (5,1%).
Os dados integram o relatório How the Global Religious Landscape Changed from 2010 to 2020, publicado pelo Pew Research Center em junho de 2025.
Segundo o levantamento, a proporção de pessoas sem filiação religiosa cresceu em todas as regiões do mundo na última década, mas com ritmos muito diferentes.
A América Latina como um todo avançou de forma moderada — com exceção notável do cone sul do continente, onde Chile e Uruguai acompanharam o ritmo das economias mais secularizadas do Ocidente. Por que o Chile?
No Chile, o colapso da autoridade da Igreja Católica é apontado por especialistas como o fator central da virada.
O escândalo envolvendo o padre Fernando Karadima — condenado pelo Vaticano em 2011 por abuso sexual de menores durante décadas — desencadeou uma crise sem precedentes.
Karadima era uma das figuras mais influentes do catolicismo chileno, formador de padres e bispos. Sua condenação — e a demora da Igreja em agir — destruiu a credibilidade institucional.
Um artigo publicado em 2024 no International Journal of Latin American Religions analisou os efeitos de coorte e período na desafiliação religiosa no Chile.
A conclusão foi de que os jovens chilenos abandonaram o catolicismo em proporção muito maior do que gerações anteriores, em processo acelerado pelos escândalos de abuso e pelo crescente conflito entre os valores da Igreja e os da sociedade — especialmente em relação aos direitos das mulheres e da comunidade LGBTQ+.
O movimento feminista chileno, que ganhou projeção internacional com os protestos de 2018 e 2019, foi um catalisador.
A Igreja, historicamente contrária ao aborto, ao divórcio e à diversidade sexual, perdeu respaldo entre as mulheres mais escolarizadas — justamente o segmento que mais cresceu no ensino superior nas últimas décadas.
Segundo a London School of Economics, a visita do papa Francisco ao Chile em 2018 — marcada por protestos e vandalismo de igrejas — exibiu com clareza a erosão da legitimidade católica.
A pesquisa Pew de janeiro de 2026, que atualizou dados para toda a América Latina, confirma que o Chile é hoje um dos países da região com maior proporção de pessoas sem religião. Por que o Uruguai?
O caso uruguaio é diferente, mas igualmente revelador. O Uruguai tem uma das histórias mais longas de laicismo institucional nas Américas.
No início do século XX, o presidente José Batlle y Ordóñez promoveu reformas radicais que separaram a Igreja do Estado, secularizaram a educação pública e até renomearam datas religiosas — o Natal virou “Dia da Família” e a Semana Santa tornou-se “Semana do Turismo”.
Esse legado criou uma cultura política em que a religião é vista como assunto privado, não público. Décadas de educação laica produziram gerações habituadas a distinguir entre crença pessoal e esfera pública.
O resultado é que o Uruguai já era, há muito, o país mais secular da América Latina — e a tendência de queda da filiação religiosa simplesmente se aprofundou na última década.
O Uruguai também legalizou o casamento entre pessoas do mesmo sexo (2013), o aborto (2012) e a produção e venda de maconha (2013), antes da maioria dos países ocidentais.
Essas políticas progressistas não apenas refletiram como reforçaram o distanciamento da sociedade uruguaia das instituições religiosas tradicionais. Brasil na contramão
O contraste com o Brasil é significativo. Enquanto Chile e Uruguai aceleraram a secularização, o Brasil manteve uma religiosidade estruturalmente alta — mesmo com o avanço dos “sem religião”, que já somam cerca de 10% da população segundo o Censo 2022 do IBGE.
A taxa de crescimento de 5,4 pontos percentuais registrada pelo Pew coloca o Brasil no antepenúltimo lugar da lista, à frente apenas de Japão e Luxemburgo.
Pesquisadores apontam que, no Brasil, o crescimento das igrejas neopentecostais compensou a queda do catolicismo — diferentemente de Chile e Uruguai, onde não houve esse “colchão” evangélico.
Além disso, a religiosidade no Brasil tem forte componente cultural e identitário, o que retarda o processo de desafiliação formal.
O quadro global desenhado pelo Pew é claro: a secularização avança — mas de formas muito distintas, moldadas por história, cultura e crises institucionais específicas de cada país.
Chile e Uruguai mostram que, mesmo na América Latina, região historicamente marcada pelo catolicismo, a descrença pode crescer de forma acelerada quando as condições políticas, educacionais e éticas se combinam.
Sem religião e jovens lideram apoio à morte assistida no Brasil
Em uma lista de 35 países, o Brasil ficou na rabeira, com 5,4 pontos percentuais, acima apenas do Japão (5,3%) e Luxemburgo (5,1%).
Crescimento da população sem religião (2010–2020)
+17,5%
+16,7%
+16,1%
+13,3%
+12,1%
+11,4%
+10,8%
+10,7%
+9,5%
+9,2%
+8,9%
+8,8%
+8,6%
+8,5%
+8,2%
+7,8%
+7,4%
+7,4%
+7,2%
+7,2%
+7,0%
+7,0%
+6,9%
+6,6%
+6,5%
+6,0%
+6,0%
+5,8%
+5,8%
+5,6%
+5,5%
+5,4%
+5,4%
+5,3%
+5,1%
Segundo o levantamento, a proporção de pessoas sem filiação religiosa cresceu em todas as regiões do mundo na última década, mas com ritmos muito diferentes.
A América Latina como um todo avançou de forma moderada — com exceção notável do cone sul do continente, onde Chile e Uruguai acompanharam o ritmo das economias mais secularizadas do Ocidente. Por que o Chile?
No Chile, o colapso da autoridade da Igreja Católica é apontado por especialistas como o fator central da virada.
O escândalo envolvendo o padre Fernando Karadima — condenado pelo Vaticano em 2011 por abuso sexual de menores durante décadas — desencadeou uma crise sem precedentes.
Karadima era uma das figuras mais influentes do catolicismo chileno, formador de padres e bispos. Sua condenação — e a demora da Igreja em agir — destruiu a credibilidade institucional.
Um artigo publicado em 2024 no International Journal of Latin American Religions analisou os efeitos de coorte e período na desafiliação religiosa no Chile.
A conclusão foi de que os jovens chilenos abandonaram o catolicismo em proporção muito maior do que gerações anteriores, em processo acelerado pelos escândalos de abuso e pelo crescente conflito entre os valores da Igreja e os da sociedade — especialmente em relação aos direitos das mulheres e da comunidade LGBTQ+.
O movimento feminista chileno, que ganhou projeção internacional com os protestos de 2018 e 2019, foi um catalisador.
A Igreja, historicamente contrária ao aborto, ao divórcio e à diversidade sexual, perdeu respaldo entre as mulheres mais escolarizadas — justamente o segmento que mais cresceu no ensino superior nas últimas décadas.
Segundo a London School of Economics, a visita do papa Francisco ao Chile em 2018 — marcada por protestos e vandalismo de igrejas — exibiu com clareza a erosão da legitimidade católica.
A pesquisa Pew de janeiro de 2026, que atualizou dados para toda a América Latina, confirma que o Chile é hoje um dos países da região com maior proporção de pessoas sem religião. Por que o Uruguai?
O caso uruguaio é diferente, mas igualmente revelador. O Uruguai tem uma das histórias mais longas de laicismo institucional nas Américas.
No início do século XX, o presidente José Batlle y Ordóñez promoveu reformas radicais que separaram a Igreja do Estado, secularizaram a educação pública e até renomearam datas religiosas — o Natal virou “Dia da Família” e a Semana Santa tornou-se “Semana do Turismo”.
Esse legado criou uma cultura política em que a religião é vista como assunto privado, não público. Décadas de educação laica produziram gerações habituadas a distinguir entre crença pessoal e esfera pública.
O resultado é que o Uruguai já era, há muito, o país mais secular da América Latina — e a tendência de queda da filiação religiosa simplesmente se aprofundou na última década.
O Uruguai também legalizou o casamento entre pessoas do mesmo sexo (2013), o aborto (2012) e a produção e venda de maconha (2013), antes da maioria dos países ocidentais.
Essas políticas progressistas não apenas refletiram como reforçaram o distanciamento da sociedade uruguaia das instituições religiosas tradicionais. Brasil na contramão
O contraste com o Brasil é significativo. Enquanto Chile e Uruguai aceleraram a secularização, o Brasil manteve uma religiosidade estruturalmente alta — mesmo com o avanço dos “sem religião”, que já somam cerca de 10% da população segundo o Censo 2022 do IBGE.
A taxa de crescimento de 5,4 pontos percentuais registrada pelo Pew coloca o Brasil no antepenúltimo lugar da lista, à frente apenas de Japão e Luxemburgo.
Pesquisadores apontam que, no Brasil, o crescimento das igrejas neopentecostais compensou a queda do catolicismo — diferentemente de Chile e Uruguai, onde não houve esse “colchão” evangélico.
Além disso, a religiosidade no Brasil tem forte componente cultural e identitário, o que retarda o processo de desafiliação formal.
O quadro global desenhado pelo Pew é claro: a secularização avança — mas de formas muito distintas, moldadas por história, cultura e crises institucionais específicas de cada país.
Chile e Uruguai mostram que, mesmo na América Latina, região historicamente marcada pelo catolicismo, a descrença pode crescer de forma acelerada quando as condições políticas, educacionais e éticas se combinam.
Sem religião e jovens lideram apoio à morte assistida no Brasil
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