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Superiora forçou religiosas a perdoarem por escrito padre acusado de abusá-las

Superiora forçou religiosas a perdoarem por escrito padre acusado de abusá-las

Cartas de 2000, reveladas agora, mostram que superiora obrigou 22 religiosas a perdoar o ex-jesuíta Marko Rupnik, acusado de estupros e violência psicológica


Vinte e duas religiosas da Comunidade Loyola, na Eslovênia, escreveram cartas no ano 2000 relatando abusos espirituais, psicológicos e sexuais atribuídos ao ex-jesuíta Marko Ivan Rupnik.

A revelação é da agência católica OSV News. Os textos foram redigidos por indicação da então superiora Ivanka Hosta e dirigidos ao próprio Rupnik, hoje sob custódia do arquivo arquidiocesano de Liubliana.


Processo no
Vaticano
contra Rupnik
corre lento

De cerca de 40 religiosas convocadas a escrever por ocasião do Jubileu de 2000, 22 relataram diferentes formas de abuso cometidas pelo sacerdote esloveno.

Fabrizia Raguso, hoje professora de Psicologia em Portugal, é a única identificada publicamente entre as autoras das cartas reveladas pela agência.

"A superiora obrigou-nos a escrever uma carta a Rupnik na qual descrevíamos a nossa relação com ele, o que nos tinha feito e depois devíamos perdoá-lo", disse Raguso à OSV News.

Segundo ela, a justificativa era buscar reconciliação com o padre por ocasião do Jubileu. Não se sabe se as cartas chegaram às mãos de Rupnik.

Os relatos descrevem manipulação, abuso de autoridade, pressão psicológica e agressões físicas e sexuais atribuídas ao ex-jesuíta.

Fontes ouvidas pela OSV News afirmam que a direção espiritual e a linguagem religiosa teriam sido usadas para apresentar os atos como vontade de Deus.

Alguns testemunhos sustentam que Rupnik explorava experiências de abuso anteriores sofridas pelas próprias vítimas para exercer nova violência.

O caso da ex-freira Gloria Branciani ilustra o padrão: os avanços do padre teriam começado ainda em sua juventude, quando ela estudava medicina.

Em depoimento, Branciani afirmou que Rupnik a convenceu a praticar sexo a três com outra religiosa, sob a alegação de que se tratava de representação da Santíssima Trindade.

"Quando resisti no início, ele disse que eu tinha inveja e não conseguia viver a sexualidade espiritualmente", relatou a ex-freira, emocionada.

Ela também descreveu o padre como sexualmente agressivo, dizendo que ele classificava essa agressividade como algo "saudável".

Denúncias contra Rupnik já circulavam entre superiores da Companhia de Jesus desde o início dos anos 1990, sem barrar sua ascensão artística.

Os mosaicos do sacerdote estão em mais de 200 igrejas e santuários, incluindo a capela do Palácio Apostólico do Vaticano, Lourdes e Fátima.

Em março de 2022, a Basílica de Aparecida inaugurou em sua fachada norte o maior mosaico do mundo assinado por Rupnik, com a presença do artista.

São quatro mil metros quadrados em pedras do Brasil, França, Itália, Grécia e Afeganistão, com figuras inspiradas no Êxodo bíblico.

O bispo de Lourdes sinalizou a retirada dos mosaicos locais por respeito às vítimas; a administração de Aparecida segue sem se manifestar.

A PUC-SP mantém sala dedicada à obra de Rupnik, coordenada por professora que já elogiou publicamente o padre mesmo após as denúncias públicas.

Nove das 22 autoras das cartas de 2000 depuseram novamente em investigação interna dos jesuítas concluída em janeiro de 2022 como fundada.

Rupnik foi excomungado em 2020 por absolvição de cúmplice, com a pena revogada; a prescrição do caso, declarada em 2022, foi revogada pelo papa Francisco em 2023.

O sacerdote foi expulso da Companhia de Jesus em 2023 por recusa em cumprir restrições impostas pelos superiores em relação às acusações.

O Vaticano confirmou em 22 de julho de 2026 que o processo canônico contra Rupnik segue aberto, sem confirmar se as 22 cartas o integram.

Em 6 de agosto de 2026, Rupnik ainda figurava no site do Centro Aletti como presidente do Atelier de Teologia da instituição.

A professora Wilma Steagall De Tommaso, da PUC-SP, chegou a chamar Rupnik de "homem muito culto" e "grande pai espiritual" em curso sobre os mosaicos de Aparecida.

A PUC do Paraná revogou, em fevereiro de 2023, o título de Doutor Honoris Causa concedido a Rupnik um ano antes, em meio às denúncias já públicas.

Na França, o bispo responsável pelo Santuário de Lourdes formou grupo de reflexão para avaliar a remoção dos mosaicos instalados na fachada em 2008.

As acusações contra Rupnik somam-se a um levantamento da OSV News segundo o qual mulheres adultas o denunciam por abuso ao longo de quase 40 anos.

Um dos episódios mais graves apurados pela Companhia de Jesus envolveu acusação, em 2018, de que Rupnik teria absolvido sacramentalmente uma mulher com quem manteve relações sexuais.

A investigação preliminar de então considerou a denúncia credível e a encaminhou à extinta Congregação para a Doutrina da Fé, hoje Dicastério.

O Vaticano informou que os juízes do processo atual analisam documentação de dioceses, da Companhia de Jesus e de partes envolvidas no caso.

Fontes próximas ao processo dizem que o Dicastério para a Doutrina da Fé tem conhecimento das 22 cartas, mas isso não foi confirmado oficialmente.

Os relatos das cartas de 2000 guardam semelhanças com as acusações públicas feitas posteriormente por Gloria Branciani e outras ex-integrantes da comunidade.

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