O mapa espiritual do planeta está sendo redesenhado. Não só porque pessoas mudaram o que acreditam, mas porque cresceu o número das que decidiram não precisar de uma instituição para dar nome ao que sentem — ou ao que deixaram de sentir.
"Sem religião" não equivale a ateísmo. A categoria abrange ateus declarados, agnósticos e pessoas que não se reconhecem em nenhuma tradição específica — mesmo mantendo alguma crença difusa.
No Brasil, esse fenômeno tem raízes que remontam à segunda metade do século 20.
Em 2009, o Paulopes já documentava que os sem religião saltaram de 0,5% da população em 1960 para 7,3% em 2000, com pesquisadores alertando para a heterogeneidade do grupo.
O Censo de 2010 do IBGE confirmou a trajetória: 15,3 milhões de brasileiros, 8% da população, declararam não ter religião. Desse total, 615,1 mil afirmaram ser ateus e 124,4 mil, agnósticos.
Levantamento do Pew Research Center de 2025 encontrou 2,1 milhões de ateus no Brasil — 1% dos adultos. O grupo mais amplo dos sem religião chegou a 15% da população, segundo o mesmo levantamento.
A heterogeneidade é a marca central desse bloco. A pesquisadora Denise dos Santos Rodrigues identificou cinco perfis dentro do grupo.
Os desconvertidos romperam radicalmente com a religião anterior. Os desligados se afastaram por falta de tempo. Os indiferentes cresceram sem formação religiosa. Os buscadores transitam entre grupos distintos.
Os autênticos reivindicam relação pessoal com o sagrado sem pertencer a nenhuma instituição — o perfil que talvez melhor explique um dado aparentemente contraditório.
Pesquisa do Pew no Brasil encontrou que 92% dos sem religião ainda acreditam em Deus ou em algo espiritual. A maioria não rompeu com a crença — rompeu com a instituição.
Entre jovens de 18 a 34 anos, o peso do grupo cresce. Pesquisa da PUC do Rio Grande do Sul apontou que 19,3% da geração Y brasileira se identificava como ateia.
Somados agnósticos e pessoas com "fé sem religião", o conjunto chegava a quase um terço desse segmento etário, com católicos liderando em 34,3% e ateus como segundo maior grupo.
A tendência se aprofunda entre adolescentes. O LENAD III — Levantamento Nacional de Álcool e Drogas, conduzido pela Unifesp em parceria com a USP com mais de 21 mil entrevistados — mostrou crescimento expressivo.
Jovens de 14 a 17 anos sem religião passaram de 14,3% em 2012 para 20,3% em 2023, alta de 41,9%. No mesmo período, a parcela de adultos sem filiação subiu de 9,7% para 11,9%.
"Esse movimento ajuda a explicar por que o crescimento dos sem religião é mais acelerado entre adolescentes", disse Clarice Madruga, psiquiatra coordenadora do LENAD III e professora afiliada ao Departamento de Psiquiatria da Unifesp.
Madruga aponta que as novas gerações mantêm relação mais distante das instituições — o que distingue secularização de mera desinstitucionalização religiosa.
A importância atribuída à fé recuou mesmo entre jovens que ainda têm religião: em 2012, 66,2% diziam que ela era "muito importante"; em 2023, o índice caiu para 58,4%.
Diferenças de gênero persistem. Entre as mulheres, 89,5% declararam ter religião; entre os homens, 85,8%. Entre idosos, o vínculo religioso segue acima de 84%.
A distribuição geográfica dentro do Brasil também é desigual. O Rio de Janeiro (RJ) concentra a maior proporção de sem religião do país.
A cidade com o maior percentual é Chuí (RS), no extremo sul do Rio Grande do Sul, onde 54% da população se declarou sem religião no Censo de 2010. A cidade tem cerca de 5.000 habitantes e fica a 525 km de Porto Alegre (RS).
No plano global, o avanço dos sem religião depende menos de vantagem demográfica — esse grupo é, em média, mais velho e tem taxas de fertilidade menores — e mais da mudança de identidade entre adultos.
Milhões de pessoas que cresceram em famílias religiosas decidiram, ao chegar à vida adulta, não se identificar com a tradição em que foram criadas.
O fenômeno aparece com força em países como Reino Unido, França, Austrália e Uruguai, onde os cristãos já não eram maioria em 2020. Nos Estados Unidos havia 101 milhões de pessoas sem filiação religiosa naquele ano.
Na Europa, o processo avança de forma consistente. Na Suíça, os sem religião chegaram a 37% da população em 2026, com maioria absoluta em Basileia e em Genebra, conforme registrou o Paulopes. Em 1970, esse grupo representava apenas 1% dos suíços.
Na China, a enorme população não afiliada influencia qualquer estatística global do grupo — o que torna os números mundiais ainda mais expressivos do que parecem à primeira vista.
O crescimento dos sem religião não indica o fim da religiosidade. O mundo continua majoritariamente religioso. O que muda é a distribuição.
O islamismo cresce impulsionado por uma estrutura demográfica jovem. O cristianismo mantém enorme presença global, mas cada vez mais concentrada fora da Europa. E os sem religião avançam onde a mudança de identidade supera o peso da tradição familiar.
Em 2020, as pessoas sem filiação religiosa somaram 1,9 bilhão no mundo, o equivalente a 24,2% da população global, segundo o Pew Research Center.O número coloca esse grupo como o terceiro maior bloco do planeta, atrás apenas dos cristãos, com 2,3 bilhões (28,8%), e dos muçulmanos, com 2 bilhões (25,6%).
"Sem religião" não equivale a ateísmo. A categoria abrange ateus declarados, agnósticos e pessoas que não se reconhecem em nenhuma tradição específica — mesmo mantendo alguma crença difusa.
No Brasil, esse fenômeno tem raízes que remontam à segunda metade do século 20.
Em 2009, o Paulopes já documentava que os sem religião saltaram de 0,5% da população em 1960 para 7,3% em 2000, com pesquisadores alertando para a heterogeneidade do grupo.
O Censo de 2010 do IBGE confirmou a trajetória: 15,3 milhões de brasileiros, 8% da população, declararam não ter religião. Desse total, 615,1 mil afirmaram ser ateus e 124,4 mil, agnósticos.
Levantamento do Pew Research Center de 2025 encontrou 2,1 milhões de ateus no Brasil — 1% dos adultos. O grupo mais amplo dos sem religião chegou a 15% da população, segundo o mesmo levantamento.
A heterogeneidade é a marca central desse bloco. A pesquisadora Denise dos Santos Rodrigues identificou cinco perfis dentro do grupo.
Os desconvertidos romperam radicalmente com a religião anterior. Os desligados se afastaram por falta de tempo. Os indiferentes cresceram sem formação religiosa. Os buscadores transitam entre grupos distintos.
Os autênticos reivindicam relação pessoal com o sagrado sem pertencer a nenhuma instituição — o perfil que talvez melhor explique um dado aparentemente contraditório.
Pesquisa do Pew no Brasil encontrou que 92% dos sem religião ainda acreditam em Deus ou em algo espiritual. A maioria não rompeu com a crença — rompeu com a instituição.
Entre jovens de 18 a 34 anos, o peso do grupo cresce. Pesquisa da PUC do Rio Grande do Sul apontou que 19,3% da geração Y brasileira se identificava como ateia.
Somados agnósticos e pessoas com "fé sem religião", o conjunto chegava a quase um terço desse segmento etário, com católicos liderando em 34,3% e ateus como segundo maior grupo.
A tendência se aprofunda entre adolescentes. O LENAD III — Levantamento Nacional de Álcool e Drogas, conduzido pela Unifesp em parceria com a USP com mais de 21 mil entrevistados — mostrou crescimento expressivo.
Jovens de 14 a 17 anos sem religião passaram de 14,3% em 2012 para 20,3% em 2023, alta de 41,9%. No mesmo período, a parcela de adultos sem filiação subiu de 9,7% para 11,9%.
"Esse movimento ajuda a explicar por que o crescimento dos sem religião é mais acelerado entre adolescentes", disse Clarice Madruga, psiquiatra coordenadora do LENAD III e professora afiliada ao Departamento de Psiquiatria da Unifesp.
Madruga aponta que as novas gerações mantêm relação mais distante das instituições — o que distingue secularização de mera desinstitucionalização religiosa.
A importância atribuída à fé recuou mesmo entre jovens que ainda têm religião: em 2012, 66,2% diziam que ela era "muito importante"; em 2023, o índice caiu para 58,4%.
Diferenças de gênero persistem. Entre as mulheres, 89,5% declararam ter religião; entre os homens, 85,8%. Entre idosos, o vínculo religioso segue acima de 84%.
A distribuição geográfica dentro do Brasil também é desigual. O Rio de Janeiro (RJ) concentra a maior proporção de sem religião do país.
A cidade com o maior percentual é Chuí (RS), no extremo sul do Rio Grande do Sul, onde 54% da população se declarou sem religião no Censo de 2010. A cidade tem cerca de 5.000 habitantes e fica a 525 km de Porto Alegre (RS).
No plano global, o avanço dos sem religião depende menos de vantagem demográfica — esse grupo é, em média, mais velho e tem taxas de fertilidade menores — e mais da mudança de identidade entre adultos.
Milhões de pessoas que cresceram em famílias religiosas decidiram, ao chegar à vida adulta, não se identificar com a tradição em que foram criadas.
O fenômeno aparece com força em países como Reino Unido, França, Austrália e Uruguai, onde os cristãos já não eram maioria em 2020. Nos Estados Unidos havia 101 milhões de pessoas sem filiação religiosa naquele ano.
Na Europa, o processo avança de forma consistente. Na Suíça, os sem religião chegaram a 37% da população em 2026, com maioria absoluta em Basileia e em Genebra, conforme registrou o Paulopes. Em 1970, esse grupo representava apenas 1% dos suíços.
Na China, a enorme população não afiliada influencia qualquer estatística global do grupo — o que torna os números mundiais ainda mais expressivos do que parecem à primeira vista.
O crescimento dos sem religião não indica o fim da religiosidade. O mundo continua majoritariamente religioso. O que muda é a distribuição.
O islamismo cresce impulsionado por uma estrutura demográfica jovem. O cristianismo mantém enorme presença global, mas cada vez mais concentrada fora da Europa. E os sem religião avançam onde a mudança de identidade supera o peso da tradição familiar.
Com informação de Pew Research Center, IBGE, Unifesp/LENAD III, Paulopes, Gizmodo, Cenarium Magazine e CNN Brasil

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