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Estudo projeta secas extremas e alerta para risco de crise hídrica no Sudeste

A mudança no comportamento do clima atinge o coração do abastecimento de forma dupla, afetando o tempo de duração e a gravidade da falta de água


Agência Bori
serviço de apoio à imprensa na cobertura da ciência

Mais de 20 milhões de pessoas dependem das águas do rio Paraíba do Sul, o motor hídrico e econômico das regiões metropolitanas de São Paulo e do Rio de Janeiro, e esse contingente populacional deve enfrentar períodos de escassez mais longos nas próximas décadas.


O impacto mais
forte ocorrerá na
sub-bacia de
Santa Cecília,
no município
fluminense de
Barra do Piraí

Um estudo da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme), publicado na Revista Brasileira de Recursos Hídricos na sexta (21), revela que as secas na bacia ocorrerão com menor frequência, mas ganharão força suficiente para durar até o triplo em algumas sub-bacias e ter índices de severidade até sete vezes maiores em outras, em comparação com os registros históricos da região.

Na porção alta da bacia, no estado de São Paulo, onde operam os reservatórios de Paraibuna e Santa Branca, as estiagens que costumavam durar entre oito e nove meses no passado devem se estender por quase dois anos contínuos até o final do século — um salto que, segundo o estudo, é mais acentuado no cenário intermediário de emissões (SSP2-4,5) do que no cenário mais pessimista (SSP5-8,5) para essa sub-bacia específica.

O maior salto de severidade, no entanto, envolve a sub-bacia de Santa Cecília, localizada no município fluminense de Barra do Piraí. 

A estação é o ponto central de transferência de água para o Rio de Janeiro e registrará um salto extremo na escala que avalia a força das secas: a média histórica, que ficava na casa dos 7,9 pontos, vai disparar para um índice superior a 58 no cenário climático mais pessimista (SSP5-8,5).

Esse índice combina duração e intensidade acumulada da seca — não é uma medida direta de volume de água perdido, mas indica que os episódios futuros tendem a ser muito mais severos do que qualquer um já registrado no sistema.

“O desafio do futuro não será necessariamente conviver com mais eventos de secas, mas com secas potencialmente mais difíceis de enfrentar”, explica Lucas Pereira de Almeida, um dos autores do estudo. 

O pesquisador compara a dinâmica climática a um paciente que adoece menos vezes, mas enfrenta infecções muito mais graves e debilitantes. 

“A recuperação entre um evento crítico e outro pode levar mais tempo. Para quem vive nas regiões abastecidas pelo Paraíba do Sul, a principal mensagem é que precisamos olhar não apenas para as emergências, mas também para a preparação”.

A garantia de que o Sudeste enfrentará esse cenário exigiu uma matemática refinada. A equipe aplicou o Índice de Representação de Seca (DRIP), para filtrar os modelos climáticos. 

A ferramenta separou apenas os sistemas que conseguiam reproduzir o comportamento real das secas no passado da bacia, reduzindo a margem de erro da projeção em até 70% na média. Com resultados exatos, fica evidente o efeito cascata de uma crise prolongada.

“A porção alta da bacia funciona como a caixa d’água que temos em casa. Quando uma seca atinge essa área, é como se essa caixa demorasse muito mais para ser reabastecida. Aos poucos, os impactos se espalham para outras partes da bacia, afetando o abastecimento das cidades e a geração de energia”, detalha o autor do estudo.

A falsa sensação de segurança durante os anos chuvosos, fenômeno conhecido como ciclo hidro-ilógico, é apontada pelo estudo como um risco relevante para a gestão pública: o longo intervalo entre eventos climáticos extremos tende a apagar a memória coletiva sobre os impactos das secas, aumentando o risco de respostas atrasadas ou insuficientes por parte dos governos.

A adaptação a essa nova realidade exige que os governos abandonem a inércia e aproveitem os momentos atuais de abundância hídrica para agir. 

Os gestores públicos precisarão investir em regras operacionais sazonais para os reservatórios, estabelecer gatilhos de contingência e criar mecanismos setoriais de gestão de demanda. 

O fortalecimento estrutural do sistema e o planejamento preventivo serão essenciais para reforçar a segurança hídrica do Sudeste durante as grandes secas do futuro, segundo os autores.

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