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Como o cocô de animais impulsionou o maior evento evolutivo da Terra

Os excrementos foram fundamentais para a explosão cambriana há cerca de 540 milhões de anos


Russell Dean Christopher Bicknell
pós-doutor em paleontologia, Flinders University

Julien Kimmig
chefe da Divisão de Paleontologia do Museu de História Natural de Karlsruhe



Mais fezes
aumentaram
o material
orgânico e
nutrientes nos
oceanos,
acelerando o
desenvolvimento
dos ecossistemas.
Na foto, coprólitos
(fezes fossilizadas)




Como todas crianças aprendem, todo mundo faz cocô. Mas quando isso começou?

E quais mudanças evolutivas e ambientais acompanharam o surgimento do cocô? Indo além, será que a evolução do excremento é a razão pela qual existimos?

Nossa nova pesquisa sugere que a evolução da matéria fecal ajudou a impulsionar um dos eventos ecológicos mais importantes da história da vida na Terra: a explosão cambriana.

E o cocô pode realmente ser a razão pela qual os animais foram um sucesso evolutivo tão grande.

Uma pista oculta para a explosão cambriana

Há cerca de 540 milhões de anos, a explosão cambriana transformou a vida na Terra. Durante um intervalo relativamente breve na escala geológica – algo entre 13 milhões e 25 milhões de anos –, surgiu a maioria dos principais grupos animais.

Por volta da mesma época, os primeiros ecossistemas marinhos se desenvolveram e se tornaram mais complexos. As redes tróficas marinhas começaram a se assemelhar às dos oceanos modernos.

Os cientistas há muito debatem o que impulsionou essa diversificação. O aumento dos níveis de oxigênio na atmosfera, inovações evolutivas e interações predador-presa cada vez mais complexas foram todos propostos como fatores.

Excremento fossilizado

A matéria fecal fossilizada, ou coprólitos, passou a apresentar diversas formas e tamanhos durante o Cambriano. Kimmig & Bicknell / Trends in Ecology & Evolution, CC BY

Mas grande parte da pesquisa sobre ecossistemas antigos e modernos ignora uma substância importante: as fezes. Os cientistas analisam fezes fossilizadas, conhecidas como coprólitos, mas geralmente apenas para obter evidências de dietas antigas e descobrir quais criaturas se alimentavam umas das outras.

Nosso estudo considerou esses fósseis como parte de um panorama muito mais amplo. Defendemos que eles também registram o surgimento de um processo ecológico fundamental.

À medida que os animais se tornaram mais abundantes e desenvolveram sistemas digestivos mais sofisticados, passaram a produzir mais matéria fecal. Mais fezes significavam que mais material orgânico e nutrientes eram distribuídos pelos oceanos. Isso, por sua vez, acelerou o desenvolvimento dos ecossistemas.

De aparelhos digestivos a ecossistemas complexos

Os primeiros animais surgiram cerca de 60 milhões de anos antes do início da explosão cambriana. Até o Cambriano, porém, há pouca ou nenhuma evidência de sistemas digestivos complexos, nem de coprólitos confirmados.

O registro fóssil de intestinos e coprólitos muda drasticamente durante o Cambriano. As primeiras fezes fossilizadas aparecem logo no início do Cambriano e tornam-se cada vez mais abundantes.

À medida que avançamos no tempo, surgem coprólitos mais diversificados. Evidências de dezenas de depósitos em todo o mundo mostram uma variedade de formas e tamanhos diferentes. 

A matéria fecal varia de grânulos microscópicos a coprólitos na escala de centímetros, contendo conchas trituradas e outros fragmentos de animais.

Linha do tempo mostrando a evolução das fezes

Entre aproximadamente 560 milhões de anos atrás e 500 milhões de anos atrás, os intestinos dos animais e as fezes que eles produziam passaram por grandes mudanças. Kimmig & Bicknell / Trends in Ecology & Evolution, CC BY

Associado a essa mudança, houve um aumento no número de fósseis muito bem preservados com sistemas digestivos complexos, particularmente entre os primeiros artrópodes. Esses animais haviam desenvolvido intestinos anteriores especializados e glândulas digestivas capazes de processar uma variedade maior de alimentos.

Juntos, esses fósseis mostram que os animais estavam começando a processar e, em seguida, redistribuir matéria orgânica por meio de vias totalmente novas.

Ciclo de nutrientes em escala evolutiva


A importância
ecológica dessa
inovação fica
mais clara
quando analisada
em comparação
com os oceanos
modernos

Hoje, as bolinhas fecais são um componente importante da bomba biológica: o processo que transporta carbono orgânico e nutrientes das águas superficiais para ambientes marinhos mais profundos. 

À medida que as bolinhas fecais afundam, elas levam nutrientes para sustentar a vida muito além da superfície iluminada do oceano.

Nossa pesquisa sugere que o surgimento generalizado de matéria fecal durante o Cambriano pode representar a origem evolutiva desse processo.

À medida que a diversidade animal e a biomassa aumentavam durante o Cambriano, o mesmo teria ocorrido com a produção de grânulos fecais. 

Isso teria significado mais fontes de energia e nutrientes afundando para habitats marinhos mais profundos e tornando os alimentos mais amplamente disponíveis em águas mais rasas.

O início da produção generalizada de matéria fecal teve um importante efeito de retroalimentação ecológica. Uma maior diversidade animal resultou em maior produção de matéria fecal, aumentando a redistribuição de carbono orgânico e nutrientes pelos ecossistemas marinhos.

A maior disponibilidade de nutrientes, por sua vez, provavelmente sustentou populações maiores, redes alimentares mais complexas e a colonização de habitats marinhos cada vez mais diversificados. Esses ecossistemas em expansão teriam, então, gerado uma produtividade biológica ainda maior.

Nossa observação aqui complementa outras hipóteses que explicam a explosão cambriana. A oxigenação, as interações ecológicas e as inovações evolutivas, sem dúvida, também tiveram papéis fundamentais.



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