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Pastora desafia a teologia da submissão ao denunciar a violência contra mulheres

Vídeo em que Helena Raquel atinge a estrutura do conservadorismo evangélico torna-se viral


MARIA FERNANDA ALVES GUIMARÃES 
trabalhou na Folha de S.Paulo, Diario Popular, Editora Abril e em outras empresas de jornalismo

Há algo de profundamente contraditório numa tradição que, durante dois milênios, confundiu submissão com sigilo e amor com anulação. 

No último domingo, 3 de maio, essa conspiração de opressão ganhou outro rumo: a pastora Helena Raquel, 47, tornou-se o rosto de um terremoto teológico entre a liderança do mundo evangélico. Na terça-feira, 5, ela publicou um vídeo sobre o tema, no Instagram, que viralizou no Brasil.

Foi com esse vídeo viral que a líder da Assembleia de Deus Vida na Palavra (ADVIP), em Queimados (RJ), fez o que muitos bispos, pastores e fiéis consideram impensável: contrariou abertamente a milenar orientação bíblica de submissão das mulheres aos maridos — ancorada em passagens como Efésios 5:22-33 e 1 Pedro 3:1-7 — e propôs uma inversão radical. “Pare de orar por ele hoje e comece a orar por você”, disse ela no domingo, 3 de maio, durante o 41º Congresso Internacional de Missões dos Gideões Missionários da Última Hora. "


O recado, direto e sem eufemismos, provocou calafrios nos setores mais conservadores do meio protestante — incluindo a ala dos autodenominados “redpill cristãos” ou legionários, para quem a hierarquia doméstica é dogma inegociável. Mas, para milhares de mulheres, foi um grito de libertação decodificado em linguagem de púlpito. Especialmente porque, como provou o estudo "Visível e Invisível: a Vitimização de Mulheres no Brasil", edição 2025, as evangélicas sofrem mais violência doméstica que as católicas.

Com mais de três décadas de ministério, Helena Raquel não prega a partir de abstrações teológicas. Seu saber, como ela mesma admite, é empírico: “Olho roxo. Sangramento. Medo.”

Ao criticar a orientação recorrente em muitas igrejas evangélicas — a de que vítimas de violência doméstica ou sexual devem orar pelo agressor em vez de denunciá-lo —, a pastora colocou o dedo numa ferida que a instituição prefere manter sob a gaze da unção.

"O que eu estou dizendo é um saber empírico. Não há pesquisa. Há olho roxo" — afirmou, numa frase que sintetiza a discrepância entre a dor concreta e a resposta pastoral padrão.

A coragem de Helena Raquel não se limitou ao aconselhamento individual. Ela mirou a estrutura. Ao denunciar o que classificou como “corporativismo religioso” — o mecanismo pelo qual igrejas acobertam seus próprios membros, especialmente líderes, em nome da proteção da obra divina —, a pastora deixou claro que fé e responsabilidade ética não podem ser apartadas. Quando a instituição se curva para esconder criminosos, advertiu, a fé vira fachada e o altar, armadilha.

Helena Raquel falou sobre temas silenciados nas igrejas: violência contra a mulher, pedofilia e abuso de crianças, apontando que a os espaços religiosos não podem ser um lugar que esconda e proteja agressores. 

No programa Estúdio i, na GloboNews, nesta quarta-feira, 6, ao ser entrevistada, a pastora foi adiante neste assunto: "O meio religioso é um lugar onde os criminosos vão se esconder" — asseverou — citando casos da igreja católica, das igrejas protestantes de todos as congregações e das casas espíritas.

Indagada se recebeu retornos de fieis, ela foi discreta e contundente: "Inúmeros".

"Pedófilo ungindo" e "quem agride mata"

Ressaltam-se dois momentos inegociáveis na pregação do Instagram de Helena Raquel.

O primeiro é: “Pedófilo não é ungido. Pedófilo é criminoso”. 

A frase, curta e cortante, desferiu um golpe direto em uma das proteções mais arcaicas do meio religioso: a blindagem do "homem de Deus". 

Ao rotular o abuso não como uma "fraqueza espiritual", uma "queda", "tentação" — termos que historicamente serviram para suavizar atrocidades e evitar o banco dos réus —, Helena Raquel secularizou o pecado para tratá-lo como o que ele é perante o Código Penal.

O segundo momento forte da pregação é quando a Helena Raquel anuncia: "Quem agride mata". E então adverte: "Não ore por ele. Ore por você. Porque você precisa ter coragem para sair, denunciar e buscar um lugar seguro. E não acredite em pedidos de desculpas porque quem agride mata.”

 O que Helena Raquel fez, ao deslocar o eixo da oração em intenção do agressor para a vítima, foi muito mais do que um ajuste de aconselhamento pastoral. 

Ela reivindica para a teologia cristã um compromisso ético que, em momentos cruciais, a tradição preferiu subordinar à manutenção da ordem hierárquica e a uma leitura exegética que não sobrevive à realidade do século XXI. Não. Mulheres não devem se submeter nem aos seus maridos nem a ninguém.

Resta saber se as igrejas institucionais, tão eficientes na produção de silêncios eloquentes, conseguirão ouvir essa voz sem replicar o padrão também milenar: estigmatizar a profeta para não ter de reformar o templo.

> Com informação do Instagram, Globo News e outras fontes.

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