Danilo César leu pedido de desculpas em missa e terá de cumprir 60 horas de cursos e resenhar livros sobre cultos afro-brasileiros
O padre Danilo César, da paróquia de Areial, no Agreste paraibano, leu em missa um pedido de desculpas formal à família de Preta Gil. Não foi de forma espontânea, mas obrigado por via judicial.
A cerimônia foi realizada no domingo do Dia das Mães, 10 de maio, e transmitida ao vivo pelo YouTube. O vídeo ganhou repercussão nesta semana, quando o conteúdo do acordo cível tornou-se de conhecimento público.
O padre Danilo César, da paróquia de Areial, no Agreste paraibano, leu em missa um pedido de desculpas formal à família de Preta Gil. Não foi de forma espontânea, mas obrigado por via judicial.
A cerimônia foi realizada no domingo do Dia das Mães, 10 de maio, e transmitida ao vivo pelo YouTube. O vídeo ganhou repercussão nesta semana, quando o conteúdo do acordo cível tornou-se de conhecimento público.
A leitura cumpre acordo firmado na Justiça Cível do Rio de Janeiro, que livrou o sacerdote de pagar R$ 370 mil em danos morais. Há ainda um segundo acordo, com o Ministério Público Federal da Paraíba.
Entre elas, 60 horas de cursos certificados sobre intolerância religiosa e resenhas manuscritas dos livros "A Justiça e a Mulher Negra", de Lívia Santana, e "Cultos Afro-Paraibanos", de Valdir Lima.
O sacerdote ainda terá de escrever resenha do documentário "Obatalá, o Pai da Criação" e pagar R$ 4.863 à Associação de Apoio aos Assentamentos e Comunidades Afrodescendentes (AACADE), via Pix.
A obrigação de estudar materiais sobre cultos de matriz africana tem peso simbólico. O religioso atacou justamente o que desconhece, repetindo o padrão que sustenta o racismo religioso no Brasil há séculos.
Em julho de 2025, sete dias após a morte de Preta Gil por câncer de intestino, Danilo César questionou em homilia a oração feita por Gilberto Gil aos orixás pela saúde da filha, registrada em vídeo público.
"Gilberto Gil fez uma oração aos orixás, cadê esses orixás que não ressuscitaram Preta Gil?", disse o padre na missa transmitida pela Paróquia São José, em Campina Grande. A fala viralizou e gerou ações judiciais.
Na retratação deste domingo, o sacerdote afirmou que suas palavras foram "ofensivas, inadequadas" e causaram dor aos familiares por sua "imprudência". Citou nominalmente Gilberto Gil e Flora Gil no pedido.
Reconheceu também que a liberdade religiosa é "um dos pilares dos direitos humanos" e que sem ela "o exercício de nossa própria catolicidade poderia nos ser privado". A frase admite o óbvio às avessas.
O argumento é revelador. Só ao perceber que a regra de tolerância também protege a própria fé é que o religioso passou a defendê-la publicamente. A liberdade dos outros só vira valor quando ameaça a sua.
O caso ilustra um dado estatístico bem conhecido. Religiões de matriz africana são alvo majoritário da intolerância religiosa no país, mesmo representando menos de 1% da população segundo o Censo do IBGE.
A Ouvidoria Nacional dos Direitos Humanos registrou 1.940 denúncias de violações de liberdade religiosa só no primeiro semestre de 2024. Adeptos de cultos afro-brasileiros lideram as estatísticas.
A defesa dos Gil contestou em março a postura do padre no processo cível, alegando que sua argumentação divergia do que ele havia assumido no acordo penal. Mesmo assim, a homologação seguiu o curso previsto.
A missa foi propositalmente realizada no mesmo formato em que ocorreram as ofensas. Transmissão ao vivo, homilia gravada, vídeo público. A reparação simbólica busca alcançar o mesmo público da agressão.
Resta ver se o cumprimento das obrigações educativas produzirá mudança real no clérigo ou apenas o desempenho burocrático exigido para encerrar o processo. A confissão assinada pode reabrir a ação penal.
A condenação a estudar é uma forma rara de sanção. Diferente da multa, exige tempo, leitura, escrita e exposição direta ao conhecimento que o agressor tentou desprezar com tom de chacota em rede pública.
A AACADE, destinatária do pagamento, é uma organização que apoia comunidades quilombolas e afrodescendentes na Paraíba. O valor pago pelo padre vai justamente para fortalecer quem ele atacou.
O acordo determinou ainda a participação do religioso em ato inter-religioso, ocorrido em fevereiro em João Pessoa, com representantes da Igreja Católica e de religiões de matriz africana presentes.
Gilberto Gil participou remotamente do encontro e falou sobre o caso. O cantor enviou notificação extrajudicial à Diocese de Campina Grande cobrando retratação pública antes mesmo das ações judiciais.
A Diocese, responsável pela paróquia de Areial, foi procurada por diversos veículos para se manifestar. Não comentou. O silêncio institucional contrasta com o discurso oficial de fraternidade religiosa.
O caso reabre o debate sobre racismo religioso, expressão que substitui a clássica "intolerância" por reconhecer que o ataque aos cultos afro-brasileiros é também e principalmente uma forma de racismo.
A Lei 14.532, de 2023, alterou a Lei 7.716 para incluir a motivação religiosa na tipificação do racismo e da injúria racial. A mudança permite responsabilizar com mais clareza ataques como o do padre Danilo.
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