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Saiba por que os nazistas adotaram a homeopatia

A cúpula considerava essa pseudociência como a “Nova Cura Alemã”, que integrava terapias naturais aos cuidados de saúde, enfatizando a pureza racial, as tradições populares e a autossuficiência


Edzard Ernst
professor emérito da Escola de Medicina da Península, na Universidade de Exeter, Inglaterra

O apoio dos nazistas à homeopatia durante o Terceiro Reich foi uma fusão complexa de pseudociência, ideologia e política pragmática. 


A homeopatia era considerada ideologicamente alinhada à visão de mundo völkisch do nacional-socialismo e, sobretudo, era vista como prática.Tinha origens puramente alemãs ("arianas").

Era considerada algo natural.

Era barata.

Estava disponível em abundância.

Foi considerada inofensivo.

Altos funcionários nazistas promoveram a “Nova Cura Alemã” (Neue Deutsche Heilkunde), que integrava terapias naturais como a homeopatia aos cuidados de saúde, enfatizando a pureza racial, as tradições populares e a autossuficiência. 

A medicina convencional (“Schulmedizin”) era ridicularizada como “medicina judaica” (verjudete Medizin), contaminada por médicos judeus que eram desproporcionalmente representados na academia e na prática alemãs. 

Ao expurgar os judeus – mais de 5.000 médicos foram expulsos até 1935 –, os nazistas criaram um vácuo que preencheram com alternativas “arianas”, como os “Heilpraktiker”, que apresentavam a homeopatia como uma invenção alemã orgulhosa, livre de dependências farmacêuticas “internacionalistas” ou capitalistas.

Motivos pragmáticos ampliaram esse apoio. A homeopatia era barata, utilizava principalmente materiais disponíveis localmente e prometia autossuficiência em meio à escassez de medicamentos sintéticos durante a guerra. 

Heinrich Himmler a defendeu pessoalmente, financiando pesquisas e integrando-a às clínicas da SS; Rudolf Hess, o "Vice-Führer", também era um defensor declarado. 

O regime licenciou o treinamento em homeopatia, estabeleceu institutos de pesquisa e iniciou um programa de pesquisa abrangente sobre o tema. 

Em um dos capítulos mais sombrios, a SS realizou experimentos no campo de concentração de Dachau para testar tratamentos homeopáticos para diversas doenças. 

Autores da época exaltaram a homeopatia como compatível com a higiene racial nazista, associando-a aos médicos de família que promoviam a saúde intergeracional.

Contudo, os resultados estiveram longe do que os homeopatas esperavam. 

O Relatório Donner sobre o amplo programa de pesquisa nazista de 1941-1943 revelou conclusões "totalmente negativas": os remédios homeopáticos falharam catastroficamente.

Avaliações oficiais consideraram-nos ineficazes para epidemias, levando ao seu afastamento dos hospitais militares em 1943. 

Após a guerra, os homeopatas alemães suprimiram essas conclusões, fazendo com que os documentos desaparecessem.

No entanto, o legado nazista persiste. A promoção nazista consolidou a homeopatia na cultura alemã, explicando, pelo menos em parte, sua persistência nos dias de hoje.

Isso contribuiu para a hesitação em relação à vacinação durante a Covid-19, visto que a desconfiança histórica em relação à medicina "alopática" (como "Schulmedizin", um termo pejorativo criado por Hahnemann) ainda persistia.

A história da homeopatia no Terceiro Reich destaca como a pseudociência tende a prosperar sob regimes autoritários, mascarando sua ineficácia com nacionalismo, dogmas ou inverdades. 

Embora os nazistas tolerassem a homeopatia em nome da pureza ideológica, seu fracasso empírico expôs a falência do regime.

Os paralelos com o que está acontecendo atualmente com o sistema de saúde nos EUA são difíceis de ignorar.

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