O que deveria ser o "exército do povo" vira reduto de extremismo religioso, com textos sagrados substituindo o código de conduta militar
Uma imagem percorreu noticiários e provocou choque: um soldado israelense empunhando uma marreta destrói uma estátua de Cristo num santuário no sul do Líbano.
A cruz fazia parte de um altar num jardim particular, segundo Fadi Falfel, padre em Debel.
Uma imagem percorreu noticiários e provocou choque: um soldado israelense empunhando uma marreta destrói uma estátua de Cristo num santuário no sul do Líbano.
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Veja a foto original aqui O episódio não é isolado. Segundo reportagem publicada pela RFI em 23 de abril de 2026, uma série de incidentes expõe uma transformação profunda nas Forças Armadas de Israel: o avanço de uma ideologia messiânica extremista no interior da instituição. Quatro combatentes da guarda de fronteiras, entre eles uma jovem de 19 anos, foram punidos por organizar um churrasco numa base isolada numa sexta-feira à noite. A justificativa oficial foi "ofensa à religião e ao judaísmo". Condenados inicialmente a 21 dias, tiveram as penas reduzidas a 14 dias após recurso e, depois da repercussão negativa na imprensa, a sete dias. A desproporcionalidade da punição gerou críticas generalizadas na imprensa israelense. Na maratona de Jerusalém, soldados mulheres foram obrigadas a correr de calças compridas por razões de "pudor", enquanto os homens competiam de bermuda. Noutra situação, jovens militares recém-liberadas foram multadas no dia da saída do quartel por terem trocado o uniforme por roupas civis consideradas "indecorosas" para fotos de despedida. Para o diário de oposição Haaretz, trata-se da instalação de uma autêntica polícia dos costumes que alcança até os últimos instantes do serviço militar obrigatório. A questão extrapola a vestimenta. A nomeação de David Zini como diretor do Shin Bet, o serviço de segurança interna, escolhido pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, concentra as preocupações. Após assumir o cargo, o Monte do Templo virou protetor de tela de todos os computadores da agência. Mais grave: sob sua direção, episódios de violência de colonos contra palestinos deixaram de ser classificados como "terrorismo judaico" para serem definidos como simples "atritos". Zini envia semanalmente comentários sobre a porção da Torá da semana aos chefes de departamento do Shin Bet. Para analistas, é um deslizamento ideológico em direção a um modelo no qual textos religiosos substituem o código penal. Esse deslocamento tem expressão visível nos uniformes de combate. Fotografias mostram reservistas usando emblemas não regulamentados costurados nas mangas: "Caçadores do Hamas", "Chegou a hora da violência" ou mapas do chamado "Grande Israel". O mais conhecido é o distintivo do "Messias". O próprio chefe do Estado-Maior arrancou pessoalmente um desses emblemas do braço de um soldado no Líbano, ordenando que fosse guardado "no bolso". Questionados, alguns reservistas afirmam que não se trata de provocação, mas de expressão da fé pessoal. O debate se agrava no contexto da guerra em Gaza. Os haredim — os ultraortodoxos que em hebraico significa "os que temem a Deus" — seguem rejeitando o alistamento. Desde que a Suprema Corte determinou a convocação, cerca de 24 mil deles receberam ordens de incorporação. A imensa maioria simplesmente não se apresentou. "Recebi minha convocação. Mas vou continuar estudando. Não cogito ir ao Exército", afirma um estudante de 20 anos encontrado na entrada de uma yeshiva em Jerusalém. Para eles, as preces substituem o serviço nas trincheiras. Shlomit Ravitsky Tur-Paz, pesquisadora do Instituto Israelense para a Democracia, descreve exaustão social: reservistas são convocados por até 300 dias por ano, enquanto os ultraortodoxos permanecem isentos na prática. "As pessoas, suas famílias, seus negócios simplesmente não estão aguentando mais", afirma. Para uma parcela significativa dos setores laicos de Israel, isso representa mais um passo rumo ao colapso da ética de um Exército que, entre duas frentes de batalha, trava talvez sua disputa mais decisiva: a da própria identidade. O Paulopes já documentou esse mesmo padrão noutros contextos, ao analisar como a religião está sendo usada para alimentar a matança da guerra, de cruzados medievais a secretários de Defesa americanos. Israel é mais um capítulo dessa história muito antiga. |

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