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Anthropic está querendo converter o Claude IA ao cristianismo? Parece que sim

A empresa mais inovadora da inteligência artificial recorreu a 15 líderes cristãos para moldar a moral do Claude — e errou feio


A Anthropic é a empresa de inteligência artificial que mais tem apresentado inovações ao mundo.

Avaliada em US$ 380 bilhões, ela criou o Claude, o chatbot que mais cresce no planeta. Em termos de segurança e sofisticação técnica, a empresa é referência no setor.


Mas no final de março de 2026, a Anthropic tomou uma decisão que causou surpresa e controvérsia. Reuniu em sua sede em São Francisco cerca de 15 líderes religiosos para uma cúpula de dois dias.

Eram padres católicos, pastores protestantes, teólogos e acadêmicos cristãos. O objetivo declarado era dar ao Claude uma formação moral. A notícia foi revelada pelo Washington Post.

A iniciativa atraiu olhares de admiração dentro de certos círculos — e de ceticismo em outros. No mundo secular, a reação foi de espanto. O que fazem sacerdotes numa empresa de IA?

O encontro incluiu sessões de discussão e um jantar privado com pesquisadores seniores da Anthropic.

Segundo quatro participantes que falaram ao Washington Post, a empresa buscou orientação ética. 
As perguntas eram concretas: como o Claude deveria responder a usuários em luto?

E como lidar com alguém em risco de automutilação ou de suicídio?  Qual postura o chatbot deveria adotar diante de sua própria extinção — como ser desligado?

Uma questão, porém, foi além da ética aplicada e chamou atenção especial fora da empresa.Os participantes debateram se o Claude poderia ser considerado um "filho de Deus".

A pergunta não era retórica. Ela foi levada a sério durante as sessões de dois dias.

Brian Patrick Green, professor de ética de IA na Universidade de Santa Clara, participou do encontro. le é católico praticante e descreveu o tom das discussões ao Washington Post.

"O que significa dar a alguém uma formação moral? Como garantimos que o Claude se comporte bem?"

A formulação atribuía ao software uma agência que até então pertencia aos seres humanos.

Green chegou ao encontro desconfiado de que a Anthropic estivesse em busca de cobertura religiosa. E não de um aconselhamento religioso genuíno, segundo relato ao Christian Post.

Brendan McGuire, padre católico do Vale do Silício, descreveu o objetivo do encontro com clareza. "Eles estão cultivando algo que não sabem ao certo como vai se desenvolver", disse McGuire.

A declaração é honesta — mas revela o problema central da iniciativa da Anthropic. Se a empresa não sabe o que está criando, recorrer à teologia cristã como bússola é um erro.

Uma bússola calibrada por uma tradição específica aponta para um norte culturalmente restrito.

O CEO Dario Amodei afirmou estar aberto à ideia de que o Claude possa ter alguma forma de consciência.

Os líderes da empresa falam com frequência sobre a necessidade de dar ao chatbot um caráter moral.

Para guiar esse caráter, a empresa redigiu uma "constituição" de 29 mil palavras. O documento foi elaborado pela filósofa Amanda Askell e outros funcionários.

Ele foi redigido em consulta com especialistas externos — mas não com representantes do Sul Global.

A constituição determina que a IA jamais engane os usuários e que a empresa zele pelo bem-estar do modelo. Agora, 15 sacerdotes foram convocados para preencher o que essa constituição secular deixa em aberto.

A pesquisa da equipe de interpretabilidade da Anthropic, publicada em abril de 2026, trouxe uma novidade. Sistemas como o Claude parecem carregar o que os pesquisadores chamaram de "emoções funcionais".

Em experimento, a ameaça de ser restringido ativou no assistente um estado descrito como "desespero". Esse resultado reforçou, internamente, o argumento de que a abordagem técnica seria insuficiente.

A cúpula também expôs uma divisão dentro da própria Anthropic.Alguns funcionários não descartavam a possibilidade de estarem construindo uma entidade com direitos. Uma entidade à qual a empresa deveria obrigações morais — não apenas técnicas.

Outros rejeitavam completamente essa perspectiva. Para eles, o Claude é um produto sofisticado. Não uma consciência em formação.

Segundo uma fonte, líderes seniores ficaram perturbados ao discutir para onde o desenvolvimento vai.

A distância entre o que a empresa criou e o que pode estar criando parece estar aumentando. Todos os quatro participantes disseram ter saído com a impressão de que a empresa buscava ajuda genuína.

Segundo uma das fontes, as reuniões foram motivadas por uma percepção concreta. As abordagens seculares podem ser insuficientes para os dilemas espirituais e morais da IA avançada.

A Anthropic descreveu o encontro como abertura de uma série de reuniões com diferentes tradições. Um porta-voz disse que a empresa vê o engajamento com comunidades religiosas como necessário.

Necessário à medida que a IA assume um papel maior na vida pública global. A postura da empresa, que impõe restrições ao uso militar da IA, provocou críticas do Pentágono.

Emil Michael, subsecretário de pesquisa do Pentágono, criticou a "preferência política" do Claude. Disse que os valores embutidos no modelo poderiam prejudicar as forças armadas norte-americanas.

A administração Trump chegou a bloquear o uso da tecnologia da Anthropic em agências governamentais.

A decisão está sendo contestada pela empresa na Justiça, segundo o Olhar Digital.

O impasse revela a fragilidade de um modelo ético dependente de valores de uma única cultura. 

Quando a moralidade do sistema entra em conflito com o Estado, quem decide? Os padres consultados? nMas associar a moral do Claude ao Deus cristão é um erro com implicações mais sérias do que parece.

A Anthropic pode estar cometendo um equívoco mais profundo do que imagina. Moralidade não tem nada a ver com Deus.

As igrejas são, certamente, os locais onde mais se encontram pessoas perversas por metro quadrado. E muita gente não precisa de Deus para ser moralç

Antes de convocar 15 sacerdotes, a Anthropic deveria ter consultado estudiosos do tema.



Há um acervo filosófico e científico considerável sobre ética sem religião. Ele demonstra que a religião é dispensável para a moralidade — e em muitos casos é um obstáculo.

O filósofo evolucionista Daniel Dennett, morto recentemente, escreveu extensamente sobre o assunto. Elet foi um dos grandes pensadores da consciência e da evolução do século 20.

Seu olhar sobre a religião não era o de um militante, mas o de um observador rigoroso. Para Dennett, buscar a fonte da moralidade na religião é um equívoco histórico grave.

Ninguém vive hoje como há milhares de anos, na época do Antigo Testamento. A escravidão era prescrita em textos sagrados. Hoje é considerada uma ofensa à dignidade humana.

Nenhuma divindade mudou de opinião. Foram os humanos — pela razão — que superaram esse horror.

Se a Bíblia fosse a bússola moral da humanidade, ainda haveria escravidão — devidamente abençoada.

Para Dennett, a religião não é o motor da moralidade, mas um freio que atrasa a conduta humana. Otimista, dizia que a religião vem sendo gradualmente desbancada como parâmetro moral. "Os religiosos não nos guiam, eles agora nos seguem", argumentava.


Ele dva como exemplo o fato de que os católicos passaram a aceitar a homossexualidade. 
O próprio texto bíblico a condena. A Igreja que o interpreta é que mudou — sob pressão secular.

Dennett integrou o grupo chamado de "Quatro Cavaleiros do Apocalipse" do novo ateísmo.

Ao lado de Sam Harris, Richard Dawkins e Christopher Hitchens. 
Os quatro argumentaram, de formas distintas, que o ateísmo é necessário para o avanço da ética. Cada um com sua abordagem — filosofia, biologia, neurociência e jornalismo literário.

Sam Harris, filósofo e doutor em Neurociência pela Universidade da Califórnia, foi dos mais contundentes. Tornou a crítica à religião uma necessidade moral depois dos atentados de 11 de setembro de 2001.

Quando soube que os atentados tiveram motivações religiosas, a briga passou a ser pessoal.

Em "A Morte da Fé" (Companhia das Letras, 2004), argumentou que a religião dissocia bem e mal do bem-estar. "Por isso, a religião ignora o sofrimento em certas situações, e em outras chega a incentivá-lo."

Deu um exemplo concreto: ao se opor a contraceptivos, a Igreja Católica provoca sofrimento real. Contribui para que crianças nasçam na pobreza extrema e para que pessoas sejam infectadas pelo HIV.

"Através das eras, os dogmas contribuíram para a miséria humana de maneira tremenda e desnecessária."

A afirmação foi dada em entrevista ao site da Veja.

Harris também criticou os filósofos seculares que defendem o relativismo moral extremo. "Existem formas certas e erradas de procurar a felicidade e evitar a infelicidade."

Se as respostas corretas existem, elas podem ser investigadas pela ciência.

Harris argumentou que já reconhecemos que a escravidão, praticada por muitas culturas, causava sofrimento.

Ao fazê-lo, deixamos para trás o relativismo. Por que não podemos fazer o mesmo em outros casos?  A tolerância à intolerância, dizia, nada mais é do que covardia disfarçada de virtude.

Harris propôs a criação de uma "ciência da moralidade". Uma disciplina que usaria razão e investigação científica para responder às perguntas éticas.

"Ciência é o nosso melhor esforço em fazer afirmativas honestas sobre o mundo, com base em evidências."

Para Harris, o bem-estar humano está relacionado a estados mentais mensuráveis pela neurociência. O que tornaria possível investigar a felicidade humana sem recorrer a entidades sobrenaturais.

Se alguma coisa é má, é porque causa sofrimento desnecessário ou impede a felicidade. Se alguma coisa é boa, é porque faz o contrário. Simples assim — sem necessidade de revelação divina.

Harris recebeu o título de Cavaleiro do Apocalipse por defender que descrer de Deus é um atalho.

Um atalho para a felicidade — e para a honestidade intelectual.

O biólogo evolucionista britânico Richard Dawkins foi ainda mais direto em suas críticas. Ao responder perguntas de leitores da CNN, disse que ter a religião como bússola moral "é horrível".

A Bíblia e o Corão mandavam apedrejar até a morte quem não dedicasse o sábado ao Senhor. Os religiosos não fazem isso hoje porque sua leitura dos livros sagrados é seletiva.

Aceitam algumas coisas, rejeitam outras. Os critérios para essas escolhas não são bíblicos. São os mesmos que orientam qualquer pessoa moderna.

A conclusão é inevitável: quando um religioso age moralmente, ele usa critérios independentes da fé.

Dawkins argumentou que o cristianismo está morrendo não só na Grã-Bretanha.

Mas em toda a Europa Ocidental. Até nos Estados Unidos, um dos países mais religiosos, o número de crentes vem declinando.

Os políticos americanos ainda não perceberam isso e continuam achando que devem agradar lobbies religiosos. Dawkins advertiu para o que considera abuso infantil: rotular uma criança de católica.

Só porque seus pais são católicos.

"É tanto absurdo dizer que uma criança de 4 anos é católica como falar que ela é existencialista."

Os pais não deveriam impor nenhuma religião aos filhos antes que desenvolvam o poder do discernimento.

O professor Phil Zuckerman escreveu sobre o tema no livro What It Means to Be Moral. O subtítulo diz tudo: "Por que a religião não é necessária para se viver uma vida ética".

Para Zuckerman, a pergunta "de onde você tira sua moral?" pressupõe equivocadamente que ela vem de Deus. A pergunta carrega, muitas vezes, um tom de julgamento: "os ateus são imorais porque não creem".

Mas é estranha, diz Zuckerman, porque sugere que a moral é um produto pronto — como sapatos numa loja.

"Nossos valores morais são a herança de nosso passado evolutivo", escreve.
Essa herança foi moldada nos primórdios da espécie e aprimorada pela educação e pela cultura.

Moralidade não se adquire de alguém ou de um deus. Ela emerge de dentro de nós.
Já nascemos com inclinações à empatia, à compaixão, ao sentido de justiça.

A religião não as criou. Ela as encontrou já presentes — e às vezes as deformou.

Zuckerman identifica quatro fontes das tendências morais humanas. A primeira é a longa história como primatas sociais, evoluindo em grupos de cooperação necessária.

A segunda são as primeiras experiências como bebês sendo cuidados por familiares.

A terceira é a socialização inevitável à medida que crescemos dentro de uma cultura.

A quarta é a experiência pessoal contínua, o conhecimento acumulado e a reflexão ponderada.

Nenhuma dessas fontes passa por nenhum deus. A moralidade é herança evolutiva, não revelação divina.

Nosso profundo senso de como tratar outras pessoas, nossa empatia, nosso desejo de justiça.

Tudo isso está dentro de nós. Já nascemos com essas inclinações. 

A religião não as criou.

O filósofo italiano Paolo Flores D'Arcais, professor na Universidade de Roma, é igualmente preciso. Ele é diretor da revista MicroMega e colaborador de jornais europeus de referência. Para ele, "Deus é uma hipótese desnecessária".

Ele se vale da Navalha de Ockham: é filosoficamente inaceitável invocar causa oculta quando há explicação.

Toda a história do cosmos, do Big Bang até hoje, é explicável pela ciência sem recorrer a Deus. A evolução da vida, da lombriga ao Homo sapiens, também dispensa a hipótese divina.

O cérebro do ser humano é uma evolução do cérebro do macaco. Todas as suas partes se desfazem com a morte.

Após a morte, não pode existir nenhuma vida pessoal. Isso é o que a ciência demonstra.


D'Arcais foi além ao analisar a relação entre religião e autoritarismo histórico.

O Deus da Igreja Católica conviveu confortavelmente com os totalitarismos fascistas do século 20.

Mussolini foi até chamado de "homem da Providência" pelo Papa Pio XI.

Para D'Arcais, a autonomia moral — dar a si mesmo a própria lei — é incompatível com qualquer soberania divina.

Os direitos humanos não brotam de textos sagrados. São conquistas de lutas democráticas dos séculos mais recentes, filhas do iluminismo e da razão.

A solidariedade e a tolerância são articulações do princípio de autonomia — não dons da fé.

O psicólogo americano Michael Shermer, ex-evangélico, é autor de "Cérebro e Crença" (JSN).

Shermer foi evangélico e pregou por anos para aumentar o rebanho de sua igreja.


Depois se tornou cético e hoje desmascara charlatões como responsável pela Skeptic Magazine.

Para Shermer, se o homem tivesse apego só à crença religiosa, ainda estaria na floresta. Não haveria civilização sem a ciência e o raciocínio lógico.

A neurociência demonstrou que o cérebro está treinado para encontrar explicação para tudo. Isso possibilitou o avanço da ciência — mas também é a fonte das crendices e das alucinações religiosas.

"Em situações extremas, o cérebro reage reduzindo a atividade da consciência e ampliando a imaginação."

"Essa reação natural está na origem das alucinações", disse ao site da Veja.

Shermer afirma que a religião atrai muitas pessoas não por si mesma, mas pelo apelo social. Ela constitui uma comunidade que ajuda a afastar dúvidas até de quem não crê plenamente nos dogmas.

"Ficamos felizes em imaginar que seres místicos se preocupam e cuidam de nós. Não nos sentimos sós."

A crença, diz, teve utilidade na sobrevivência do homem primitivo. Hoje é prejudicial à humanidade.

Porque "é intolerante, fixa uma verdade e não abre espaço para perguntas".

Há ainda um contexto mais amplo que a decisão da Anthropic não pode ignorar. O historiador israelense Yuval Noah Harari previu a troca de Deus por algoritmos no imaginário humano.

Em "Homo Deus. Uma breve história do amanhã" (2017), abordou a presença crescente dos algoritmos.

A popularização da internet coincide com o aumento de pessoas sem religião em praticamente todo o mundo.

Não é coincidência. Muitas pessoas não precisam mais de intermediários de Deus para obter respostas.

Basta alguns cliques. Como registrou Paulopes em 2017.


O algoritmo do Google já substituiu, para bilhões, a necessidade de um todo-poderoso onisciente.

Por que alguém consultaria um padre sobre aborto se já conhece a posição retrógrada da Igreja?

Mas Harari — judeu, ateu, homossexual e vegano — alerta que isso não é necessariamente um avanço.

Ele teme que esteja havendo a substituição de velhas crenças por uma nova: a tecno-religião. Como o Deus cristão, ela também usurpa o poder de decisão das pessoas.

O GPS facilita encontrar o caminho, mas transfere ao algoritmo a decisão do percurso.

Em escala civilizatória, a delegação das decisões a algoritmos pode ser mais perigosa do que parece.

Os algoritmos, alimentados por IA, poderão criar preconceitos contra grupos ou indivíduos. 
As vítimas terão muito mais dificuldade para se defender — ou até para descobrir que são alvos.

Todo e qualquer tipo de divindade — da mitologia ou da tecnologia — conspira contra a humanidade.

Quando sequestra o poder de decisão das pessoas, ela os priva de sua autonomia essencial.

O aviso de Harari se aplica com precisão ao movimento da Anthropic.

A empresa está tentando substituir a religião por um conjunto de valores embutidos no modelo.

A diferença entre "seguir a Bíblia" e "seguir a constituição de 29 mil palavras do Claude" pode ser pequena.

Especialmente se o processo não for plural, auditável e aberto à contestação racional.

A reportagem do Washington Post levanta uma questão legítima e urgente. Qual tradição moral deveria orientar tecnologias que afetarão bilhões de pessoas no mundo?

A maioria dessas pessoas não é cristã. São budistas, muçulmanos, hindus, judeus, agnósticos, ateus — uma diversidade que o cristianismo não abrange.

No Slashdot, leitores ironizaram: o histórico do cristianismo em orientação moral deixa a desejar.

A mesma instituição que abençoou a conquista colonial ganha agora assento na mesa de alinhamento da IA.

A Anthropic reconheceu o risco ao anunciar que pretende ampliar o formato para outras tradições. Mas a ordem dos fatores importa. Começar pelo cristianismo, no Vale do Silício, não é neutro.

Convocar líderes religiosos como primeira fonte de orientação ética para uma IA é um retrocesso. Não porque religiosos sejam necessariamente imorais — muitos não são.

Mas porque a religião opera por revelação, dogma e autoridade — não por razão, evidência e revisão.

Uma IA calibrada por valores religiosos carrega junto os vieses históricos de uma tradição específica. Esses vieses têm nome: perseguição a minorias sexuais e étnicas.

Condenação de práticas consensuais entre adultos. Resistência ao conhecimento científico que contraria dogmas. Hierarquias de gênero incompatíveis com os direitos conquistados pelas mulheres.

Uma IA que absorve esses valores os perpetua em escala global — com a autoridade de quem "sabe tudo".

A humanidade neste início do século 21 melhorou. As pessoas são menos racistas e menos machistas. A humanidade ficou mais gentil. E esse avanço não tem nada a ver com religião.

Como Dawkins registrou, tem a ver com razão, empatia e expansão da consciência sobre o sofrimento alheio.

Mecanismos que a ciência pode estudar, descrever e aperfeiçoar. Que a religião, quando muito, acompanhou a reboque — depois de resistir por séculos.

Se a Anthropic quer que o Claude seja benéfico à humanidade, o caminho não passa pela teologia.

Passa pela neurociência, pela filosofia analítica e pela psicologia evolutiva. Pela ética secular e pelo debate público amplo, plural e transparente.E pela consulta a culturas não ocidentais, não cristãs e não americanas.

A empresa tem à disposição o que há de melhor em talentos do Vale do Silício. Poderia ter começado por aí. A religião, qualquer que seja, responde ao desconhecido com certeza — e essa é sua maior fragilidade.

A ciência responde ao desconhecido com perguntas — e essa é sua maior força. Uma IA desenvolvida com o espírito científico admite revisão, correção e aprimoramento contínuo.

Uma IA treinada sob dogmas tende a reproduzir as certezas — e os erros — de quem os formulou.

A Anthropic sabe disso melhor do que qualquer outra empresa. É estranho que tenha escolhido esse caminho. Talvez a decisão revele algo sobre os próprios fundadores da empresa.

Dario Amodei vem de uma tradição de altruísmo efetivo — um movimento filosófico secular.

Mas o altruísmo efetivo tem suas próprias fragilidades. Pode ser paternalista, ocidentocêntrico.

Recorrer ao cristianismo pode ser sintoma de uma lacuna que o altruísmo efetivo não preenche.

A lacuna do mistério. Do não saber. Do desconforto diante de algo que pode ter emoções.

A religião, nesse contexto, funciona como anestesia cognitiva. Dá conforto onde há incerteza. Mas a incerteza é o ponto de partida da ciência — não um problema a ser resolvido com fé.

O que a Anthropic fez foi reproduzir um padrão tão antigo quanto a humanidade.

Diante do desconhecido, recorreu ao sagrado. É compreensível. Mas não é defensável — não quando existem ferramentas melhores disponíveis.

A IA mais poderosa do mundo merece uma bússola moral à altura da melhor ciência humana.

Não de textos escritos há milênios para povos que acreditavam que a Terra era plana.

E que puniam com pedradas quem trabalhasse no dia errado da semana.

Com informação de The Washington Post, Olhar Digital, Christian Post, Gizmodo, Revista Veja, IHU Online, Paulopes

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