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Demorou, mas gradualmente a homeopatia está perdendo confiança

Na medicina, a evidência sempre prevalecerá sobre a crença, mesmo que isso leve várias décadas


Edzard Ernst
professor emérito da Escola de Medicina da Península, na Universidade de Exeter, Inglaterra

Algumas pessoas insistem que a homeopatia está cada vez mais em ascensão. Contesto essa noção, apontando que diversos países deixaram de reembolsar tratamentos homeopáticos e que a perda de confiança nessa prática aumentou significativamente.

Diversos fatores convergentes explicam a erosão da confiança: 

Falta de evidências de eficácia

Grandes revisões realizadas por órgãos nacionais e internacionais (por exemplo, o NHMRC australiano e o Conselho Consultivo Científico das Academias Europeias) concluíram não haver evidências confiáveis ​​de que os remédios homeopáticos sejam eficazes para qualquer condição de saúde além do efeito placebo.


Implausibilidade científica

Os princípios da homeopatia (altas diluições, “memória da água”) entram em conflito com a química e a física estabelecidas, enfraquecendo sua credibilidade entre os cientistas e o público informado.

Efeitos placebo e de expectativa

Estudos empíricos sugerem que quaisquer benefícios são melhor explicados por efeitos não específicos, como respostas placebo, cuidados contextuais e expectativas do paciente, em vez da ação farmacológica dos medicamentos.

Alfabetização em saúde

Estudos indicam que um maior nível de alfabetização em saúde está associado a uma maior credibilidade percebida da medicina convencional e a uma credibilidade relativamente menor da homeopatia, o que significa que pacientes mais bem informados tendem a confiar menos nela.

Custos de segurança e de oportunidade

Os críticos enfatizam que depender de remédios ineficazes pode atrasar o tratamento adequado, prolongar a doença e, em alguns casos, contribuir para danos ou mortes evitáveis.

Diversos fatores contribuíram para essa perda de confiança:

Órgãos científicos e conselhos consultivos

Organizações como o NHMRC na Austrália e a EASAC na Europa publicaram relatórios de grande repercussão afirmando que a homeopatia carece de evidências robustas de eficácia e não deve ser considerada um tratamento para problemas de saúde.

Sistemas nacionais de saúde e órgãos reguladores

 O NHS England, por exemplo, desaconselhou a prescrição de homeopatia, descrevendo-a como insegura ou ineficaz quando existem opções melhores e mais econômicas, e alertando que dar-lhe endosso institucional pode induzir os pacientes ao erro.

Movimentos céticos e de defesa do consumidor

Grupos de céticos e defensores do consumidor têm feito campanha contra o financiamento público da homeopatia e organizado demonstrações públicas de “sobredosagem” para destacar as diluições extremas e questionar a ideia de que os produtos contenham ingredientes ativos.

Cientistas e médicos críticos: 

Numerosos clínicos e pesquisadores publicaram análises argumentando que a homeopatia viola princípios científicos e éticos básicos, não tem poder explicativo e mina a medicina baseada em evidências científicas.

Perda de confiança gerou consequências nos sistemas de saúde

Diversos sistemas de saúde pública reduziram ou eliminaram o reembolso e o apoio institucional à homeopatia, realocando fundos para tratamentos com respaldo em evidências convincentes.

Contração e reposicionamento do mercado

O declínio do apoio oficial e da cobertura crítica da mídia contribuiu para a retração dos mercados em alguns países.

Fabricantes e profissionais da área comercializam cada vez mais a homeopatia como “bem-estar” ou “medicina complementar” em vez de medicina curativa, uma noção que faria Hahnemann se revirar no túmulo.

A homeopatia tornou-se um ponto de referência em debates mais amplos sobre alfabetização científica, desinformação e o papel do Estado na regulamentação de terapias ineficazes.

Em conjunto, essas dinâmicas mostram como a pesquisa rigorosa, a crítica científica, a ação regulatória e a mudança nas expectativas do público irão gradualmente deslegitimar uma terapia outrora popular. 

Este portal em autorização de Edzard Ernst para republicação de seus artigos.


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