Sempre tive imaginação fértil, mas ainda assim não conseguia entender como três pessoas pudessem ser uma única, embora continuassem sendo as três, e que o Pai era o seu próprio filho, e o filho, o pai
Cresci em família católica, mas não ia com frequência à missa de domingo. Meus pais, no início do casamento, moravam com meus avós maternos — Augusto, imigrante italiano, e Georgina, brasileira com sangue de indígena.
Paulo Lopes | memórias
jornalista, trabalhou na Folha de S.Paulo, Diário Popular, Abril e em outras publicações
Cresci em família católica, mas não ia com frequência à missa de domingo. Meus pais, no início do casamento, moravam com meus avós maternos — Augusto, imigrante italiano, e Georgina, brasileira com sangue de indígena.
Meus pais e avós não eram carolas, graças a Deus, mas mantinham na sala um quadro de Jesus com o coração sangrento à mostra, o que me dava aflição. Até hoje acho a representação do Sagrado Coração de Jesus de mau gosto. Nem cardiologistas devem gostar.
Quando tinha 14 anos, talvez um ou dois anos a menos, eu fazia questão de ir à missa de domingo das 9h30 da Igreja de São Sebastião (de São Carlos, SP).
Era a missa dos jovens, e eu, com minha melhor roupa, cabelo bem penteado e hormônios em ebulição, ia à igreja ver as meninas.
Se minha memória não está falhando, o padre rezava a missa em latim, sem ninguém entender. Era uma coisa maluca.
O padre passava a maior parte do tempo de costas, portanto deixando os jovens livres para uma linguagem universal, o flerte.
Eu olhava para um lado e para outro, dava uma esticadinha de pescoço em direção à moreninha vestida de branco ou à ruivinha com jeito de sapeca. E recebia alguns olhares de volta.
Nesta época eu já não acreditava que Deus estava me olhando o tempo todo, para me flagrar em algum pecado grave.
A onisciência divina já me parecia absurda, mas tive de superar um trauma para chegar a essa conclusão.
Anos antes, no catecismo, uma freirinha de hábito cinza me deixou em estado de choque ao dizer que Deus estava em todos os lugares, até no banheiro, dia e noite, para condenar os pecadores ao fogo eterno.
Fiquei abalado não porque eu fosse um moleque levado, de jogar pedra na vidraça dos outros, de apertar a companhia do vizinho e sair correndo, de matar passarinho com estilingue.
O que eu temia era a possibilidade de cometer um pecado imperdoável e ter de passar a eternidade em uma fogueira, sendo cutucado pelo tridente do diabo. Tive pesadelos. Uma noite acordei gritando que não queria ir para o inferno.
Eu já estava meio atordoado no catecismo porque não conseguia entender que três pessoas pudessem ser uma única, embora continuassem sendo as três, e que o Pai era o seu próprio filho, e o filho, o pai.
“Dá pra repetir?”, perguntei para a freirinha. Quando me explicou de novo, suspeitei que nem ela sabia direito o que era a tal de Santíssima Trindade.
Eu só passei a dormir tranquilo quando deixei de dar importância àquela história de que Deus está em todos os lugares o tempo todo.
No último dia do catecismo, perto da data em que eu me transformaria em um “verdadeiro cristão”, a freirinha disse com ênfase que eu jamais deveria mastigar a hóstia consagrada, porque se tratava do corpo de Jesus.
Ela explicou que, no altar, diante do padre, eu deveria colocar a língua para fora para receber a hóstia e esperasse que ela lentamente se dissolvesse.
No dia da minha primeira comunhão, foi uma festa. Todos de casa colocaram perfume e roupa nova, e eu, com calça e camisas brancas, pela primeira vez e única na vida usei uma charmosa gravata borboleta preta.
No caminho para igreja, passamos em um estúdio onde tirei a fotografia oficial da primeira comunhão. Do meu lado, como se pode ver acima, havia uma imagem intimidatória do Sagrado Coração de Jesus, justamente ele.
Hoje digo que a minha primeira comunhão foi, na verdade, a minha primeira descomunhão. Explico.
Ao receber a hóstia, no trajeto de volta para o banco da igreja, contrariando a freirinha, dei uma mordida de leve no corpo de Cristo, para ver se saía sangue. Não saiu. Estou com a tentação de dizer que também tinha a expectativa de ouvir um gemido, um "ai" de Jesus, mas isso não é verdade.
De qualquer forma, foi naquele momento em que ocorreu o primeiro registro da minha tomada de consciência de que Deus não existe.
Com foto de arquivo pessoal.
Quando tinha 14 anos, talvez um ou dois anos a menos, eu fazia questão de ir à missa de domingo das 9h30 da Igreja de São Sebastião (de São Carlos, SP).
Era a missa dos jovens, e eu, com minha melhor roupa, cabelo bem penteado e hormônios em ebulição, ia à igreja ver as meninas.
Se minha memória não está falhando, o padre rezava a missa em latim, sem ninguém entender. Era uma coisa maluca.
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Foto oficial da primeira comunhão |
O padre passava a maior parte do tempo de costas, portanto deixando os jovens livres para uma linguagem universal, o flerte.
Eu olhava para um lado e para outro, dava uma esticadinha de pescoço em direção à moreninha vestida de branco ou à ruivinha com jeito de sapeca. E recebia alguns olhares de volta.
Nesta época eu já não acreditava que Deus estava me olhando o tempo todo, para me flagrar em algum pecado grave.
A onisciência divina já me parecia absurda, mas tive de superar um trauma para chegar a essa conclusão.
Anos antes, no catecismo, uma freirinha de hábito cinza me deixou em estado de choque ao dizer que Deus estava em todos os lugares, até no banheiro, dia e noite, para condenar os pecadores ao fogo eterno.
Fiquei abalado não porque eu fosse um moleque levado, de jogar pedra na vidraça dos outros, de apertar a companhia do vizinho e sair correndo, de matar passarinho com estilingue.
O que eu temia era a possibilidade de cometer um pecado imperdoável e ter de passar a eternidade em uma fogueira, sendo cutucado pelo tridente do diabo. Tive pesadelos. Uma noite acordei gritando que não queria ir para o inferno.
Eu já estava meio atordoado no catecismo porque não conseguia entender que três pessoas pudessem ser uma única, embora continuassem sendo as três, e que o Pai era o seu próprio filho, e o filho, o pai.
“Dá pra repetir?”, perguntei para a freirinha. Quando me explicou de novo, suspeitei que nem ela sabia direito o que era a tal de Santíssima Trindade.
Eu só passei a dormir tranquilo quando deixei de dar importância àquela história de que Deus está em todos os lugares o tempo todo.
No último dia do catecismo, perto da data em que eu me transformaria em um “verdadeiro cristão”, a freirinha disse com ênfase que eu jamais deveria mastigar a hóstia consagrada, porque se tratava do corpo de Jesus.
Ela explicou que, no altar, diante do padre, eu deveria colocar a língua para fora para receber a hóstia e esperasse que ela lentamente se dissolvesse.
No dia da minha primeira comunhão, foi uma festa. Todos de casa colocaram perfume e roupa nova, e eu, com calça e camisas brancas, pela primeira vez e única na vida usei uma charmosa gravata borboleta preta.
No caminho para igreja, passamos em um estúdio onde tirei a fotografia oficial da primeira comunhão. Do meu lado, como se pode ver acima, havia uma imagem intimidatória do Sagrado Coração de Jesus, justamente ele.
Hoje digo que a minha primeira comunhão foi, na verdade, a minha primeira descomunhão. Explico.
Ao receber a hóstia, no trajeto de volta para o banco da igreja, contrariando a freirinha, dei uma mordida de leve no corpo de Cristo, para ver se saía sangue. Não saiu. Estou com a tentação de dizer que também tinha a expectativa de ouvir um gemido, um "ai" de Jesus, mas isso não é verdade.
De qualquer forma, foi naquele momento em que ocorreu o primeiro registro da minha tomada de consciência de que Deus não existe.
