A gravação da entrevista com a Solange é engraçada, virou hit na internet.
Mas mesmo com a dificuldade de fala, ela dá uma lição de cidadania ao reclamar que a prefeitura de Ilhéus, Bahia, não tira o lixo das ruas.
O repórter da emissora de Ilhéus foi perverso ao esticar a entrevista. Ele sabia que a gagueira da Solange daria audiência.
Perverso também foi quem colocou a gravação na internet e quem (inclusive eu) agora ri de Solange.
Mas Solange aparentemente não se importa com isso. Correu o risco de se expor ao ridículo e às chacotas e não deixou de cobrar da prefeitura a limpeza da cidade.
A maioria das pessoas não gagueja, mas não toma atitude alguma. Fica na dependência de pessoas como a Solange.
ADENDO
No vídeo abaixo, com legenda em português, Leys Geddes, um dos diretores da Associação Britânica de Gagueira, fala do preconceito contra quem é portador desse distúrbio e apela para a compreensão das pessoas. Gagueira não deveria ser motivo de piada.
Comentários
Só é meio triste pensar que a reivindicação dela, embora legítima, possa não ter sido levada a sério por nenhuma autoridade em função da gagueira.
À primeira revolta dela, deve ter se somado uma segunda, porque há poucas coisas mais revoltantes do que ver nossa indignação transformada em peça de piada. Ainda mais agora, com o poder viral de amplificação que a Internet tem.
De qualquer forma, se alguém da prefeitura de Ilhéus tiver o mínimo senso de responsabilidade pública que se espera de uma autoridade municipal, a divulgação da reivindicação dela, ainda que feita com uma intenção de escárnio e ridicularização, talvez tenha pelo menos a contrapartida benéfica de trazer para o bairro em que a mãe dela mora alguma melhoria.
Para quem tem gagueira, e aí estão incluídas cerca de 1,8 milhão de pessoas só no Brasil (entre crianças, adolescentes e adultos), o que é mais doloroso na forma geralmente escarnecedora como o problema é trazido a público não é exatamente o humor, que é algo já quase inerente à condição (chega até a ser um consolo pensar que é possível fazer as pessoas rirem com algo que frequentemente nos faz chorar).
O que mais dói mesmo é ver que, depois da graça, depois do riso, depois do gracejo, depois da ridicularização, não há mais nada. É só isso. Depois da humilhação, não se segue nenhum esclarecimento, nenhuma orientação, nenhuma solidariedade, nenhum número para procurar ajuda, nenhum site, nada que possa aliviar na gente o desespero e o fardo de carregar todo esse estigma.
Acho que a sociedade precisa aprender a ser mais solidária com as pessoas que gaguejam.
Pior do que ser vítima de chacotas é ser vítima da indiferença.
Abs.
Parabenizo você, Paulo, pela forma educativa como abordou o assunto.
Eu também gaguejo, sou militante da causa e sei perfeitamente como deve ter sido difícil à Solange se expressar; ela realmente é uma mulher poderosa, e um grande exemplo, não apenas para nós que gaguejamos, mas também para todos os que se calam por medo do preconceito alheio, qualquer que seja ele. Além disso, você há de convir que muita gente que pensa falar muito bem não teria a metade da coragem e do conhecimento de causa da nossa companheira...
Tenha a certeza de que, com seu post, você nos ajudou a construir na mente das pessoas uma abertura para a aceitação do outro, independente das diferenças que ele possa apresentar em relação a padrões sociais que, de fato, mesmo, não querem dizer absolutamente nada.
Mais uma vez obrigada,
Prof. Dr. Ana Flávia L. M. Gerhardt - Universidade Federal do Rio de Janeiro
Para as mulheres, tudo é mais difícil, como todos sabem (ou deveriam saber).
Por isso mesmo, para Solange, as dificuldades são dramáticas.
Mas ela não se recolhe e vai à luta e se faz ouvir, mesmo com suas limitações.
Solange é um exemplo para gagos e não-gagos.
Esta mulher tem de ser admirada, e não ser motivo de chacotas.
Abraço.
Paulo
Q venham os turistas conhecer a nossa linda cidade, e obrigado a Solange, a "gaguinha" mais querida de Ilhéus!!!!!
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