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quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Cresce nos EUA casamento entre pessoas de crenças diferentes

por Vittorio Zucconi
para La Repubblica

Amor une  cristão e muçulmano,
judeu e cristão, e  crente e ateu
Há outro muro que está caindo, ao menos nos Estados Unidos, mas não entre ideologias, entre fés religiosas. Cai sob a força irresistível do amor humano que leva cada vez mais casais a se casarem ignorando as diferentes filiações religiosas dos cônjuges e das famílias e superando gerações de rancores e de medos.

Nunca houve tantos casamentos "mistos" entre judeus e cristãos, entre cristãos de diferentes confissões, entre ateus e crentes, entre muçulmanos e cristãos, como nestas primeiras décadas do terceiro milênio. E aquela muralha que até 50 anos atrás parecia intransponível, hoje, é um murinho atravessado por homens e mulheres que descobrem que podem viver juntos, ter filhos, construir famílias sob o signo de fés diferentes.

"Nenhum de nós renunciou à sua devoção e à sua prática religiosa - explicam Jean, judia, e Brian, católico, ao Christian Science Monitor, que realizou a pesquisa sobre os casamentos inter-religiosos –, simplesmente percorremos caminhos diferentes para escalar a mesma montanha."

Naturalmente, os jovens com menos de 30, a idade em que enfraquece a influência das práticas religiosas assimiladas, ou impostas, na família de origem, são principalmente favoráveis aos casamentos mistos, chegando até a 80% dos entrevistados pelos institutos de pesquisa.

"Ninguém pede que a colega de universidade ou o colega de trabalho com quem se gostaria de sair que declare logo a sua religião, como se fôssemos xerifes que pedem a carteira de motorista a um condutor parado", testemunham esses jovens.

E quando o encontro sem compromisso se torna, ou se acredita que se torna, amor, e o conhecimento recíproco se aprofunda, é tarde demais para permitir que um livro sagrado, um catecismo, um sermão, um rabino, um sacerdote, um pastor levante o muro entre eles.

A proporção de casamentos entre pessoas de confissões diferentes é hoje de 40%, o dobro do que eram na última década do século XX, e os espetáculos de cerimônias em que o rabino recita o "Shema", a oração fundamental do judaísmo, e o sacerdote, a oração do Senhor, o "Pai Nosso", não só são cada vez mais frequentes, mas também cada vez mais aceitos também por aqueles que o considerariam como uma abjuração.

A Conferência Episcopal Norte-Americana tende a resistir, mas a resistência é cada vez mais simbólica, muitas vezes contente em aceitar a promessa de criar os filhos em nome do Cristo de Nazaré.

Naturalmente, são os filhos, se e quando chegam, que trazem para as famílias multirreligiosas os sinais e as tensões das possíveis contradições. Nos grupos de apoio para essas famílias, que estão despontando em toda parte nas grandes cidades, as crianças são expostas à pregação e à educação nas diferentes confissões.

Os pais os levam, não sabemos com quanto entusiasmo, de sinagogas a igrejas, de mesquitas a catedrais, para enfatizar os muitos pontos de contato entre as grandes religiões monoteístas e passar por cima da exclusividade do "não terás outro Deus".

No seu livro intitulado "Até que a fé nos separe", a reverenda Julia Jarvis, ex-capelã da Universidade de Georgetown, dirigida pelos jesuítas, rejeita o argumento clássico da diversidade religiosa que divide, para defender que, ao contrário, praticar fés diferentes em casa constrói um clima de tolerância mútua, que também vai ajudar os filhos a crescerem mais livres.

Nas cerimônias semanais que ela, bispa episcopal, e o rabino Harold White, guiam em Washington para casais inter-religiosos, as pessoas reunidas dizem: "Alguns de nós são filhos de Israel. Alguns de nós estão aqui em nome de Jesus de Nazaré. Todos estamos aqui como filhos do mesmo Deus".

São sobretudo judeus e cristãos os cônjuges de diferentes confissões que embarcam na viagem de casal paralela àquela montanha de desconfianças, hostilidades geracionais, medos que encerraram os mais velhos, quando a pertença religiosa, no caldeirão do Novo Mundo, era um refúgio para a própria identidade, antes de ser uma fé.

As maiores resistências, onde o muro continua sendo mais alto e sólido, estão entre hindus e muçulmanos, muitas vezes imigrantes mais recentes e portadores do ódio que dividia, na sua pátria, indianos de paquistaneses, ou judeus de árabes, mas também nessa barragem há brechas cada vez maiores.

Elas existem porque, apesar da repetição automática das ladainhas religiosas e do reconhecimento que o fundamentalismo, incluindo o cristão, ainda exerce sobretudo nos Estados do sul, a máquina da laicização consome as gerações e torna as filiações religiosas muito elásticas e pragmáticas.

Um terço dos norte-americanos, especialmente entre os cristãos das várias confissões protestantes, abandonam, mudam, retomam a própria filiação ou se convertem, para contentar o companheiro ou a futura esposa.

"Não há razões pelas quais o amor humano não possa conviver nas diversas formas de expressão do amor divino", explicam no centro interconfessional de Chicago, um dos maiores dos EUA.

E, se a afirmação parece bonita, é nos momentos como o mês de dezembro que, no frisson de festas religiosas, cerimônias, celebrações, é posto à prova, especialmente para as crianças, o dualismo religioso. Apenas a fé no consumismo e nos presentes poderá reunir novamente o que as religiões poderiam trincar.






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